Será Palin o Anticristo?


Nem será preciso evocar a terrível entidade descrita por João – «e a Besta que vi era semelhante ao leopardo, e os seus pés como os de urso, e a sua boca como a de leão; e o Dragão deu-lhe o seu poder e o seu trono e grande autoridade» – para assinalar o óbvio: Sarah Palin até é capaz de ser o Anticristo. Pelo menos, tal poderia ser concluído lendo apenas uma pequena porção do que sobre ela tem sido escrito na Europa.
Para Miguel Sousa Tavares, Palin é simplesmente a “dona-de-casa do Alasca”; não sei se me arrepie pelo machismo da frase se pela pesporrência desmedida do cronista, que por certo fez muito menos em termos de activismo cívico do que a tal dona-de-casa – mayor e depois governadora do seu estado, por despovoado e bizarro que este nos pareça.
Com Condoleezza Rice, já a esquerda europeia conviveu mal: como poderia uma mulher, negra e alegadamente lésbica, dormir com tão sinistro inimigo? Mas enfim, tratava-se apenas de mais um pequeno horror no bazar de sustos de Dubya, nada que pudesse interpelar a “nossa” ordem do Universo. Agora que, em plena festa de consagração de S. Obama, pudesse aparecer uma mulher a querer estragar o ágape, isto é que já não pode ser. O topete da criatura em afirmar-se contra o aborto, a favor da caça, do esburacamento do Alasca, da disseminação de armas pelo seio da white trash America! Como pode uma trânsfuga das “nossas” minorias oprimidas estar arvorada em figura de proa da armada inimiga?
Claro que não pode. Vai daí, foi ver o mulherio gineceu activista à cata de defeitos e contradições da anticrística figura, a mulher que se voluntariara para impedir a anunciada fusão entre o Reino dos Céus e Washington D.C. No nosso imaginário, uma mulher, um negro, um homossexual, todos eles, e mais alguns, só podem ser criaturas progressistas e reluzentes, irmãos óbvios na luta contra as Bestas deste mundo; quando surgem ao lado delas, tendemos a reagir com uma mistura impensada de espanto, agressividade e insensatez.
Que se aponte a flagrante impreparação política e o inacreditável amadorismo de Palin, tal parece-me tarefa urgente e meritória. Agora fazer dela uma espécie de buraco negro fugido do LHC, pronto a precipitar toda a civilização ocidental no abismo do fundamentalismo e da intolerância, eis o que os apaniguados de Obama deviam evitar. Quanto à presente idiotice de Sousa Tavares – fazer de “dona-de-casa” insulto – o que vale é que tais vozes nem chegam a quem interessa: os eleitores dos EUA.

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