A casa da gente

No meio desta história manhosa das casas sociais da CML, há episódios difíceis de tragar. Baptista-Bastos, no “Expresso” de hoje, revela que usufrui de uma destas benesses imobiliárias há 14 anos. Mas o jornalista acha que «não há aqui prendas». «Quando precisei pedi.» E mais nada; nem sequer se sente vagamente compungido a revelar a sua renda – «quanto pago é privado».
Ao que parece, ele sabia ser corrente a atribuição de casas a artistas e jornalistas, pelo que nada o incomoda na sua situação. E olhem que é o mesmo Baptista-Bastos que durante décadas distribuiu vigorosas vergastadas didácticas sobre os lombos do país, dos políticos e da restante cambada de aleijões éticos que por aí pulula. Prosas bravas, fumegantes de superioridade moral, tiradas altivas como «os partidos converteram-se em agências de empregos, desprovidos de ideais morais, com clientelas domesticadas porque as sinecuras e o nepotismo são compensadores.» Pois.
Não sei se ele não percebe mesmo que não deveria, enquanto autonomeada consciência de esquerda da nação, proclamar a normalidade de tudo isto. Ou se apenas faz de conta, aguardando que a poeira assente. Mas defender que a simpática oferta de Sampaio e João Soares, à pala do património camarário, é assunto «privado», isso ainda torna tudo muito mais penoso.

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25 Responses to A casa da gente

  1. Jason Statham says:

    Este caso é simplesmente nojento. Puro nojo.

    Pessoas que não precisam a terem casas de borla praticamente. 140e é o preço de um quarto miserável, de 3x3m num bairro antigo em Lisboa. Mas a Senhor Brito pagava isso pela sua casinha na rua Salitre.

    N O J E N T O.

  2. Isto é o pais do Alegre-Alegre-Alegre/Manuel Alegre.

  3. JPG says:

    Eu cá também gostava de poder algum dia dizer (e há que dizê-lo com toda a frontalidade) “precisei, pedi”. Claro que nunca teria a lata de acrescentar “não há aqui prendas”, mas isso é outra história.

    Será que agora, em já não precisando o senhor, eu poderia fazer o favor de lhe ficar com o modestíssimo tugúrio? Seria uma rica prenda…

  4. A Câmara Municipal de Lisboa mais parece a casa da Joana.

    O que é triste no caso do BB é afirmar que pediu uma casa a Sampaio, porque a que vivia não tinha condições e ele não tinha meios para comprar uma nova enquano ao mesmo tempo comprava uma em Constância.

    Enfim no melhor estoico cai a hipocrisia

  5. Jorge v says:

    Não gosto de particularizar mas não sei o que é mais nojento, pedir casa ou dar casa a gente ‘felizmente’ privilegiada pela vida como o caso de Batista Bastos… A falta de vergonha da cara … faz destas. Como dizia a minha avó: quem não tem vergonha todo o mundo é seu.
    A culpa não é do país é deste tipo de gente.

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  7. Luis Moreira says:

    Uma alegria.Ai, de quem não tem partidos,amigos ou irmãos. Os jovens só arranjam trabalho com cunhas,de preferência como assessores de ministro,ou administradores de empresas.O estado,as empresas públicas e o poder local são um factor de iniquidade.Torna-se sufocante!

  8. Alfredo P. says:

    A falta de vergonha na cara não tem limites.
    De onde menos se espera sai o maior coelho…
    O BB, tão cheio de certezas, tão lesto na ferroada a tudo quanto o rodeia, tão moralmente superior, abichou uma casa da Câmara, quando ainda há (e havia muitos mais na altura) desgraçados a viver em barracas?
    Que é lá isso? “Não há aqui prendas”.
    Então, se não foi prenda, foi o quê?

  9. Aires says:

    Será que nós somos mesmo todos assim?
    isto é pungentemente vergonhoso para nossos politicos…
    e muito triste para todos nós…
    abraço

  10. Nik says:

    Não foi este BB que há dias escreveu uma prosa no DN a elogiar as virtudes republicanas da decência e da honestidade mais impoluta, pondo o Eanes nos píncaros porque o homem não aceitou uma prebenda qualquer do Estado, uma reforma dupla ou coisa que o valha? Então ele compra uma casa de férias e pede outra aos amigos para morar em Lisboa? Se é assim (tenho dúvidas) é caso de dizer: bem prega frei BB!
    Mas este escarcéu todo parece-me um bocado artificial, a puxar para a histeria. Alguém se lembrou de lançar esta lebre, para vender o Expresso. O costume de oferecer casas e ateliers camarários a artistas é antigo. Ali ao Palácio dos Coruchéus há um prédio com 50 ateliers/moradias para artistas, criação do tempo da outra senhora (anos 60-70), sendo presidente da Câmara França Borges, com elogios de gente importante da oposição, como Arlindo Vicente, que achou que a coisa só pecava por não ser alargada a muito mais gente da cultura por todo o país.
    Nesta questão era urgente investigar o que é realmente abuso e privilégio injustificado, fruto de simples nepotismo, e o que são “estímulos e incentivos para todas as formas de arte”, como pedia Arlindo Vicente e André Malraux instituiu em França..

  11. Nik says:

    As “ameaças de morte” da história do Expresso cheiram-me a histeria de um tolo qualquer, aproveitadas pelo semanário para apimentar a história.

  12. Alfredo P. says:

    Nik:
    Não me diga que a casa da Câmara dada ao BB teve como objectivo proporcionar-lhe um espaço onde pudesse dar largas à sua vocação de moralista “de esquerda” especializado em exorcizar o nepotismo.
    Se foi isso, é claro que ele não precisa de mudar-se agora para Constância, onde comprou uma casa na mesma altura em que, “porque precisava”, conseguiu do Jorge Sampaio a morada lisboeta.
    Pode, portanto, continuar a escrever sermões.

  13. luis eme says:

    neste país todos sabemos que a moral é só para alguns…

    e o BB está apresentado há bastantes anos.

  14. Nik says:

    Eu não lhe digo nada, caro Alfredo P., porque não sei e estou farto de ser embarretado por jornalistas e jornais de merda. Limitei-me a dzer: se assim é, frei BB revela-se um vendedor de virtudes republicanas avariadas e um intrujão corrupto. Não alinho a priori em demagogias histéricas só porque o gajo é de esquerda. Vamos ver, depois falamos. Mas o cheiro, para já, não é lá muito bom, não.

  15. Luis Moreira says:

    Mas alguem recebe uma casa e depois não tem que pagar,em géneros (crónicas,entrevistas, opiniões…) Não sei onde está a surpresa.

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  18. j says:

    Isto é apenas uma ponta da vergonha do que se passa com situações deste tipo não só nas câmaras como em serviços sociais de organismos do estado, com casas arren(dadas) cujos funcionários têm casa própria lá na terrinha e mesmo apartamentos comprados na própria cidade, mas que continuam a beneficiar destas situações e, em muitos casos, nem lá vivem tendo as casas alugadas a estudantes.

    Há muito tempo que não posso com o PSL, sobretudo por razões de ordem pessoal, nem me interessa se está ou não (também) metido nisto, mas muitos responsáveis públicos nesta matéria teriam que ser constituídos arguidos.
    Porquê este e os seus “mandarins”…!?
    E porquê sobretudo agora…!?

    É uma vergonha, de facto, não apenas para quem mais precisa mas também para quem tem que levar com as prestações dos emprésimos à habitação.

    E , então, o que relata do BB nem merece comentários.

    Muito havia para escrever, disto e doutras bem piores, mas ultimamente, por aqui, só se fala das eleições americanas e da “paneleiragem” (peço desculpa pela expressão, pois não pretendo ser ofensivo).

  19. agent says:

    Acho que este post deveria chamar-se: “onde estavas tu no dia 25 de abril de 1994?”

    LM, como se este compadrio desmedido fosse uma característica da esquerda nacional!

  20. Antónimo says:

    Independentemente do que se possa dizer (mal, claro) há uma coisa curiosa que merece atenção. A ligação entre BB e Santana Lopes. O séquito do laranja faz todos os possíveis para abater o jornalista, ex-figura de proa do Diário Popular que o ex-primeiro-ministro ajudou a enterrar. Uma gente perigosa.

  21. j says:

    «Parou a viatura no Rossio

    Ao ler a A casa da gente acho que o Luis Rainha não abordou o assunto com profundidade, mas, ainda assim, diz mais do que o suficiente para percebermos a cultura do favor e da cunha típicos do nosso país, e seguramente também dos outros, sim, porque não seremos caso único, bem sabendo que o que se passa com os favores das casas arren(dadas) quando comparado com países corruptos nas “democracias” africanas e sul-americanas, então, por cá, somos gente séria. E, também eu, não quero falar deste assunto com a profundidade que ele deve merecer, preferindo, antes, escrever num contexto intimista.

    Durante a minha vida profissional, logo desde que era ainda um jovem oficial, sofri pressões e pedidos que me confundiam e se me perguntarem se nunca fiz asneira, favorecendo este ou aquele, não seria sincero. Só que os favores que prestei tive sempre a preocupação de usar da maior transparência possível e com a seriedade de nunca fazer desaparecer a papelada, como era típico em algumas secretárias que ocupei, e antes ocupadas por outros, naturalmente.

    Conjugar atitudes de seriedade e transparência com um ou outro favorecimento, convenhamos, pode ser uma forma de nos justificarmos por algo que possa estar errado e a que queremos dar a imagem de o não estar. Ainda assim, nada que me envergonhe, numa profissão em que a lealdade é sinónimo de subserviência e a competência não se dá bem com a irreverência, quase sempre pouco simpática para os chefes que não querem subordinados que pensem mas apenas que obedeçam.

    Não sendo eu subserviente acabo por ter conseguido, talvez tido a sorte, de ascender a um patamar que me permite ter uma vida confortável sem ter beneficiado, para além do razoável, seja lá o que isso for, de favores que me comprometam ou que me envergonhem. Prova disso, os poucos, muitos poucos amigos que tenho no meu meio profissional. Em compensação, tenho alguns bons amigos nas áreas da psiquiatria e da psicologia, quem diria que viesse a ser assim, embora eu ache, hoje, que tal acabasse por ser inevitável quando não se é cinzento toda uma vida e o músculo do conflito acaba por ficar hirto.

    Lembro o tempo em que acabei com a prática dos talões de estacionamento arquivados quando o colega ia almoçar à messe e perante a sua concordância o talão que tinha sido posto no pára-brisas ia para o caixote do lixo junto à máquina registadora. Tive, e tenho, conhecidos, um ou outro, mesmo amigos, magistrados e alguns políticos, a quem mandei rebocar os carros e que a sua arrogância entendia deixar onde lhes apetecia. Coisa que me dava um gozo enorme, sobretudo porque os chateava e lhes fazia ver certas coisas, apesar de respeitosamente, como convinha.

    E o gozo ainda era maior porque nos gabinetes de alguns deles entrava como na minha própria casa, tendo sobre isto vivido um episódio quase insólito quando um conhecido advogado, também com carreira de deputado, e cuja dinastia passou para o filho, ambos bem conhecidos da nossa praça, parou a sua viatura em pleno Rossio, encostando o carro, em transgressão, claro, e dele saiu para me cumprimentar, que, passados alguns anos, ainda me lembro desta cena com ironia. E com prazer, porque tal advogado e deputado, conhecido por lhe darem intervalos nos julgamentos para fumar o seu eterno charuto, era, esperando que ainda seja porque esteve bastante doente e não tenho sabido dele, um tipo bem simpático e um homem de liberdades.

    Já numa fase mais actual da minha carreira, levantei papeis de muitas secretárias, de norte a sul e também no meio do Atlântico, e vi coisas que não lembrariam ao Diabo, e onde conheci pessoas pelo simples facto de no processo estar escrito “arquivado a pedido de fulano”. Claro que, manda a prudência, e sobretudo o bom senso, que não seja por aqui mais claro, porque nos sítios próprios fui sempre muito claro, apesar de alguns que deveriam ter levado com processos disciplinares, no mínimo, acabassem nomeados em lugar de relevo, na lógica de que “não há almoços grátis. “Digo eu”… Ou, antes, diria o Saloio, distinto comentador do 5dias.net.

    O nosso país, e os outros, seguramente, é isto mesmo, uma teia de cumplicidades e de interesses, um país de gente cinzenta, e em que nem sempre se pode dizer que as casas arren(dadas) são práticas ilegais, mas antes de decisões que tanto podem dar para um lado ou para o outro, suportadas em regulamentos mitigados, confusos, para não falar mesmo na falta deles, e que dão para justificar e (in)justificar tudo e mais alguma coisa, dando um enorme jeito ás empresas de assessoria e de consultoria, consumindo energias e dinheiro dos contribuintes, que seriam inúteis se esta gente fosse culta, não por ler muitos livros e falar e escrever línguas estrangeiras, bastando apenas que ser culto fosse sinónimo de seriedade.

    Talvez, por isso, que os que têm a cultura da seriedade acabem, cada vez mais, nos consultórios e nos hospitais psiquiátricos, valendo os amigos que não cobram consulta, mas antes pagam com a amizade, o que pode ser perigoso, por outros motivos, ainda mais íntimos, pela envolvência que a amizade pode trazer, e quando se torna um vício o delicioso jogo da sedução, vendo Lisboa por uma nesga de uma janela do Chiado.

    (Este texto foi escrito hoje, na minha linda cidade, entre as 12:10 e as 13:15, enquanto um outro grande amigo estava no cabeleireiro, vaidoso o Nody, sendo caso para dizer que, enquanto eu escrevia, a senhora da tosquia “dava banho ao cão”).»

  22. Luis Moreira says:

    Caro J, tem que saber viver com isso ! Tambem tenho a minha parte.Há dias em que é difícil.Mas nós somos o que somos devido às circunstâncias.Estavamos naquele lugar,àquela hora ! Eu, por mim, nem sabia que aquelas funções existiam, até me dizerem que não se pode dizer duas vezes não a certas pessoas e a certas funções. Mas orgulho-me do fundamental !

  23. a.m. says:

    Incrível!
    BB devia ter juízo e vergonha (coisas que parecia ter, mas agora se vê que não tem…).
    Como é que eu vou recuperar desta?

  24. carlos heitor says:

    É uma pena que este “senhor” que tem atacado tudo e todos com um despudôr frantastico se defenda da benesse que teve dos srs presidentes de camara socialistas.
    Não há almoços gratis sr defensor das “causas irreais “tenha vergonha de atacar pessoas honestas e proceder como o sr procede neste caso…

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