A casa da gente

No meio desta história manhosa das casas sociais da CML, há episódios difíceis de tragar. Baptista-Bastos, no “Expresso” de hoje, revela que usufrui de uma destas benesses imobiliárias há 14 anos. Mas o jornalista acha que «não há aqui prendas». «Quando precisei pedi.» E mais nada; nem sequer se sente vagamente compungido a revelar a sua renda – «quanto pago é privado».
Ao que parece, ele sabia ser corrente a atribuição de casas a artistas e jornalistas, pelo que nada o incomoda na sua situação. E olhem que é o mesmo Baptista-Bastos que durante décadas distribuiu vigorosas vergastadas didácticas sobre os lombos do país, dos políticos e da restante cambada de aleijões éticos que por aí pulula. Prosas bravas, fumegantes de superioridade moral, tiradas altivas como «os partidos converteram-se em agências de empregos, desprovidos de ideais morais, com clientelas domesticadas porque as sinecuras e o nepotismo são compensadores.» Pois.
Não sei se ele não percebe mesmo que não deveria, enquanto autonomeada consciência de esquerda da nação, proclamar a normalidade de tudo isto. Ou se apenas faz de conta, aguardando que a poeira assente. Mas defender que a simpática oferta de Sampaio e João Soares, à pala do património camarário, é assunto «privado», isso ainda torna tudo muito mais penoso.

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