Assim se vê a força do PC

Creio que com as reformas que são no momento necessárias (e estão ainda em curso) a presença do PCP na governo não seria de todo desejável. (O mesmo se aplica ao Bloco de Esquerda: em política interna, não vejo diferença absolutamente nenhuma entre os dois partidos. Em política externa há e não é pouca, mas ninguém põe a hipótese de termos um ministro dos negócios estrangeiros destes partidos.) Não tenho votado na CDU nas eleições legislativas e nem tenciono votar nas próximas. Mas ao ler textos como este do João Galamba, palavra que me apetece ir a correr votar no PCP. Não o farei, mas outros o farão por mim. Se o João Galamba escolhe ostracizar estes portugueses, é com ele. Eu não ostracizo, e merecem-me todo o respeito, mesmo não concordando com eles. E sei que chegará o dia em que vão perceber melhor o mundo em que vivem. Mas parece-me um erro crasso julgá-los irrelevantes ou alheados deste mundo. Pelo respeito que me merecem, não me sinto capaz de os tratar como “dementes”. O João trata-os. Mas o João também se acha no direito de criticar António Damásio por não ter lido este ou aquele livro. Se ele me permite, recomendo-lhe este trecho de um artigo do Público de 18.09.2008, por Constança Cunha e Sá.

Esta semana, também, foi publicada uma sondagem, no Correio da Manhã, que para além de assegurar a vitória do PS e a descida do CDS e do PSD, confirma, mais uma vez, o peso eleitoral do PCP e do Bloco de Esquerda, que, juntos, conseguem obter cerca de 20 por cento das intenções de voto. O Partido Comunista, em particular, surge em terceiro lugar, com um resultado superior a dez por cento, como, aliás, já tinha acontecido numa sondagem anterior. É verdade que, com o tempo, a popularidade de Jerónimo de Sousa deixou de ser uma “novidade”, transformando-se num facto normal e previsível que já não suscita a admiração de ninguém. No entanto, a persistência do fenómeno não só não lhe retira singularidade como lhe acrescenta relevância política. O voto de protesto, embora explique parte do sucesso, não justifica, por si só, a capacidade de mobilização que tem, neste momento, o partido.
Ao contrário do Bloco de Esquerda, que sempre beneficiou do interesse dos jornalistas, o PCP, visto como uma aberração ideológica, foi durante muito tempo um partido ignorado, incapaz de contribuir para um debate sério sobre o desenvolvimento do país. Envelhecido, desprovido de quadros e sem intelectuais ao dispor, o PCP parecia ter os dias contados: para todos os efeitos, era uma espécie de relíquia histórica que mais tarde ou mais cedo acabaria por desaparecer, levado pela inflexibilidade de uma ortodoxia que se recusava a evoluir. Quando Carlos Carvalhas, o espelho do impasse em que se encontrava o PCP, abandonou a liderança, foi substituído, como se disse, pela velha guarda do partido. Imune às subtilezas da teoria, Jerónimo de Sousa confirmou as piores expectativas dos “renovadores”. Com ele, os comunistas deixaram-se de evasivas ideológicas e, recuando no tempo, recuperaram acriticamente as suas teses do passado. Mas – e isso passou desapercebido – sem se preocuparem excessivamente com elas: o novo líder do PCP podia ser estalinista, sonhar com a antiga União Soviética ou defender regimes totalitários, mas nunca perdeu tempo a discutir o estalinismo, o modelo soviético ou o regime de Fidel. Ignorando ostensivamente as grandes questões doutrinais que envolveram a queda do Muro e o futuro do socialismo, Jerónimo de Sousa reduziu o debate ideológico aos problemas concretos dos portugueses. Daí à famosa “afectividade” que supostamente o distingue foi um passo que se acelerou com a eleição do eng.º Sócrates e com o “socialismo de mercado” que actualmente nos governa.
Pode-se dizer que a necessidade de controlar o défice, o arranque de algumas reformas e o progressivo esvaziamento dos direitos adquiridos é um terreno fértil ao florescimento do PCP e à demagogia de grande parte das suas propostas. Como se pode dizer que o projecto apresentado pelos comunistas não tem viabilidade, nem representa qualquer tipo de alternativa. Mas não se pode ignorar que grande parte da força que o PCP tem, neste momento, ultrapassa um modelo de desenvolvimento que nem sequer existe e se prende com a hipocrisia de um sistema cada vez mais desigual que privilegia os fortes e prejudica os fracos. A sobranceria do Governo e de grande parte da comunicação social em relação às questões sociais revela um arrivismo insuportável e uma total incompreensão da realidade humana e dos problemas dos mais desfavorecidos. Entre o autismo de uns e os êxtases liberais de outros, o triste quotidiano de grande parte dos portugueses fica necessariamente de fora, entregue à afectividade (se é isso que lhe querem chamar) de qualquer Jerónimo de Sousa.

Este artigo foi publicado em cinco dias and tagged . Bookmark the permalink.

12 respostas a Assim se vê a força do PC

  1. Model500 diz:

    Os portugueses começam a ter saudades de um comunismo que nunca tiveram. Na verdade, pode-se ter saudades de imaginários. O que se passa é que o capitalismo também é uma boa merda. Começamos a ficar fartos de todos os dias ouvir que qualquer badameco recebe 20, 30, 40 , 100 milhões, enquanto que o pessoal que dá no duro todos os dias vê-se fodido para pagar a renda da casa!!.

  2. Model500 diz:

    A riqueza existente tem que ser melhor distribuída. Só depois disso é que podemos combinar a melhor forma de a aumentar. Antes disso nada feito.

  3. Model500 diz:

    Eu já fiz as contas: vou ter de abdicar 30% dos meus rendimentos.

  4. LA-C diz:

    Caro Filipe,
    Um dos dois regimes que mais mortos, mais desgraças, mais presos políticos causou durante o século XX foi o nazi. O que diria o Filipe dos militantes de um partido que se reclamasse da herança nazi? Que dissesse que todos aqueles assassínios tinham sido desvios ou erros que deviam ser corrigidos. Que, para Portugal, defendiam soluções diferentes. O que diria dos militantes que continuassem a olhar para regimes torcionários descendentes dessas ideias e os vissem como a luz mantém acesa a chama da revolução que ainda falta fazer?
    Qual a grande diferença em relação aos membros do Partido Comunista, que fecham os olhos aos milhões de mortos que os regimes comunistas causaram (chamando-lhes desvios), que chamam democracias a países como a Coreia do Norte?
    Não entendo o teu negacionismo. Bem sei que tens amigos que foram da JCP e que agora são do PCP. Todos nós temos desses amigos. Bem sei que essas pessoas que conheces são uns pacifistas e que nem lhes passa pela cabeça instaurar uma ditadura em Portugal. Mas isso nada tem a ver com o facto de olhos fechados para a realidade e de votarem num Partido que tem como dirigentes pessoas que consideram a Coreia do Norte uma democracia.

  5. fox diz:

    Model500
    «Eu já fiz as contas: vou ter de abdicar 30% dos meus rendimentos.»
    Como é que se faz as contas, que eu também não me importo de abdicar?

  6. Jason Statham diz:

    “Bem sei que essas pessoas que conheces são uns pacifistas e que nem lhes passa pela cabeça instaurar uma ditadura em Portugal.”

    Mas que arrogância e presunção intelectual. Como se a democracia moderna que temos (onde tudo é decidido, na verdade, por uma minoria quasi discricionariamente), que tudo rege e regula não fosse também uma ditadura.

    Quer dizer, os outros, são doentes por defenderem uma ditadura às claras (de forma indirecta, como tem a subtileza de frisar), nós, os saudáveis, defendemos a democracia que é tudo menos uma ditadura. Pois pois, um sistema que me faz trabalhar metade do ano para o “bem comum” não é nada ditatorial. Já cansa esta arrogância dos sociais-democratas que se julgam saudáveis só porque representam a maioria. Olhe, abre os olhos, nos anos 30 o consenso sobre quem era doente ou não era bem diferente.

    comunas=doentes
    nós=saudáveis

    Muito inteligente

  7. Model500 diz:

    As contas são fáceis de fazer. Nós conseguimos gerar 150 mil milhões por ano. Se dividires por 10 milhões de pessoas dá 15000€. È o que deveria tocar a cada um de nós se este bocado aqui plantado à beira-mar fosse um país decente. Agora o Fox veja quantos é que são lá em casa e não se esqueça que os salários apenas representam 50% daquela parcela.

  8. o model500 é sempre imprevisível: então não devia ser o mercado a encarregar-se da melhor distribuição possível?

    os liberais e neo-liberais parece que de repente se aperceberam que o seu esquema infalível tinha os pés de barro. É vê-los agora a arranjarem os argumentos mais estapafúrdios para justificarem o injustificável: a salvação através do Estado de um gigante de eficiência – o mercado.

    o que farão os economistas mainstream das suas tão repelentes quanto eficazes teorias? Quem será o primeiro a limpar o cu ao Friedman? Para quando o acto de contrição?

    o sr Bush já começou a sua árdua subida do Gólgota – a sua via dolorosa. Que belo é ver o mais empedernidos senadores republicanos a dizerem que uma injecção de capital tão vultuosa – choque eléctrico numa economia autofágica – é “antiamericano”, mas ainda assim a torcerem o seu dedinho hirto e empertigado de valores catecistas e neocons!!

    Que bonito ver o Soros clamar pela regulação dos mercados financeiros!!! Que enternecedor ver Sarkozy dizer que é necessário mais regulação!! Apenas falta o Pedro Arroja pedir que o Estado imponha uma taxa sobre as mais-valias.

    Que coerentes que são os nossos (e os deles) neo-liberais; os models 500 e quejandos…

  9. LA-C diz:

    Caro Jason Statham
    Parece-me que pensa que sou social-democrata (ou socialista) mas está enganado. (Embora, obviamente, considere que a social-democracia é compatível com a democracia).
    Quanto ao resto que escreve, desculpe não lhe responder mas, sinceramente, não consegui perceber a sua resposta.

  10. Nik diz:

    Os comunas ainda não estão doentes, mas a necrofilia comunista vai acabar por lhes dar cabo da pinha, tal como o catolicismo deu cabo da pinha a muita gente.

  11. mpb diz:

    É pena que adie a decisão de votar no PCP. É o único voto que não é inútil. Não é caviar e não promete para não cumprir depois. Pense nisto: porque será que o PC irrita tanta gente e suscita tantos ódios? E porque será que o seu eleitorado é o mais humilde, economicamente falando, do país?
    Seja perguntador e faça os seus amigos pensar e serem perguntadores. E as balelas que são sempre as mesmas, esqueça-as e seja de novo perguntador. Se se for perguntando o porquê das coisas, é certo que vai votar no PCP. Quanto a ter um ministro dos NE do PCP, eu também não acredito.
    As lindezas do tempo que passa merecem uma resposta adequada.

  12. Nuno diz:

    Neste país fazemos sempre as contas todas e acabamos a votar sempre no Mal Menor…

    PS. Uns amigos alemães (Leipzig-Leste) sempre que cá vêm perguntam se o PCP ainda existe- “Mas Porquê?” -perguntam eles, confusos.

Os comentários estão fechados.