Sobre o cartão magnético de acesso às escolas

Ponto prévio: acredito que a principal preocupação de muitos pais ainda seja o controlo total dos filhos adolescentes, e partilho a grande preocupação da Maria João Pires quanto a este facto.
Dito isto, eu não vejo a introdução de um cartão magnético necessariamente ou exclusivamente como uma medida de “controlo total”. É-o em parte e é aí que eu o critico. Não me parece razoável que um aluno do secundário não possa entrar e sair livremente da escola. Não me parece sobretudo razoável que alunos do 2º ciclo (de 10 e 11 anos) sejam tratados da mesma forma que adolescentes pré-universitários. São idades muito diferentes, e esta indistinção origina uma imaturidade que hoje já se nota nos alunos do primeiro ano das universidades.
De qualquer forma, da maneira como o cartão é apresentado pela Maria João, parece que as escolas passam a ser uma espécie de “Big Brother”, onde todos os passos lá dentro são vigiados, os intervalos, o convívio com colegas, eventuais demonstrações de afecto e experiências que é suposto ter-se nesta idade. Não é assim, e ainda bem que não é. O cartão parece-me positivo até ao 9º ano, e com algumas alterações e salvaguardas importantes (poder vir cá fora ao café da D. Maria fumar um cigarrinho no intervalo – afinal não se pode fumar dentro das escolas, não é?) também mesmo no secundário.
Um dos aspectos importantes do cartão é o controlo da assiduidade. É aqui que eu não concordo com a Maria João, nomeadamente com a frase “A ideia de que alguém se mostre satisfeito pela existência de um cartão que lhe permite, por exemplo, ser avisado em tempo real de uma simples balda de um filho arrepia-me.” O controlo da assiduidade e o combate ao absentismo são de uma extrema importância em todas as actividades profissionais ao longo da vida, e a escola secundária é um bom local para começar a aprendê-lo. Nenhum aluno é impedido de faltar por isto. Aliás, tanto quanto eu sei, a única alteração deste cartão vai ser mesmo a comunicação da falta em tempo real ao encarregado de educação, pois ele já poderia tomar conhecimento de todas as faltas (não em tempo real) se assim desejasse. O cartão é é uma medida de responsabilização: o estudante deve habituar-se a assumir a responsabilidade pelos seus actos, nomeadamente pelas suas faltas. Não é encarando-as como “uma simples balda”, um “pequeno disparate” a que não se liga muito que se fomenta essa responsabilidade. A este respeito convém recordar as reacções dos alunos que vêm do estrangeiro, nomeadamente filhos de imigrantes, ao compararem a escola dos seus países de origem com a portuguesa. Todos referem que a escola portuguesa é menos exigente, que a atitude dos alunos portugueses é muito diferente da deles. Para eles a escola é para se aprender, e “uma simples balda” é algo impensável. É com estes alunos que temos que nos comparar e é como estes alunos que devemos querer que os nossos filhos sejam.
Resumindo, para mim a introdução do novo cartão é uma medida a elogiar, embora se deva rever a sua aplicação.

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11 respostas a Sobre o cartão magnético de acesso às escolas

  1. Ricardo Silva diz:

    Na grande Lisboa que eu pelo menos conheço, este tipo de controlo de acessos já existe em N escolas, especialmente nas ditas “zonas problemáticas”…… Não é nada de novo.

  2. Luis Moreira diz:

    Eu percebo a preocupação da Maria João,devagar,devagarinho, por boas ou más razões vamos caminhando para uma sociedade cada vez mais controlada. E os jovens vão começar tão cedo que a meio da vida já não se indignam,estarão habituados. Nesse sentido não deixo de partilhar um certo incómodo.

  3. Dinis diz:

    “O cartão parece-me positivo até ao 9º ano, e com algumas alterações e salvaguardas importantes (poder vir cá fora ao café da D. Maria fumar um cigarrinho no intervalo – afinal não se pode fumar dentro das escolas, não é?) também mesmo no secundário”

    Tirando a parte imprescrutável, que não se entende…é mau português, acontece..tirando isso o meu querido amigo, defende portanto que míudos do 9º ano, que não podem fumar na escola, possam fumar em frente da D.Maria! Notável e liberal. Sucede um pequeno pormenor: isso faria da D.Maria uma criminosa. E o café seria imediatamente fechado. Só duas perguntas: sabe que idade têm os miúdos do 9ª ano? Sabe alguma coisa da Lei do Tabaco. Afinal são três: voce (e digo-o muito a sério) não quererá dar um salto ao Médico assistente?

  4. Maria João Pires diz:

    Filipe, se leste o meu texto com atenção – e tenho a certeza que sim – terás percebido que considero que tem, de facto, aspectos positivos (desde logo o permitir a ausência de dinheiro em circulação na escola e, aliado a isto, o fazer face a pequenos imprevistos – “Ups, esqueci-me dos pincéis em casa, vou ter falta de material… ai, não, espera, tenho dinheiro no cartão e posso remediar a situação” – e permitir, AO PRÓPRIO ALUNO, o acesso a uma série de informações sobre a sua vida escolar que ele deve saber “gerir”). Torço o nariz é à faceta big brother parental q é potenciada por outras aplicações do referido cartão. Sejamos práticos e ilustremos a coisa com a realidade existente: neste momento existe uma coisa chamada caderneta do aluno que fomenta um diálogo quase constante entre os pais e os alunos (se a experiência própria conta garanto-te q é eficaz). Caso o menino ou menina não leve os recados assinados no dia seguinte os pais são contactados telefonicamente, ou seja, as formas de interacção pais/escola estão mais q asseguradas para os assuntos relevantes (e os assuntos relevantes podem ser, garanto-te, irrelevâncias)… o q fica de fora então? Controle doentio. Falaste das baldas… deixa ver se me explico melhor: naturalmente q todos os pais responsáveis martelam a cabeça dos seus filhos com a mensagem de q faltar é errado, etc etc… o que é um facto é q uma pequena balda não é nenhum drama, certo? Ora bem, se és avisado ao segundo q tal ocorre tens, como pai/mãe, que tomar medidas/reagir sendo q na maioria dos casos o acontecimento é tão pontual q não justifica, de forma nenhuma, uma intervenção. Sabendo-se q em casos de repetição (ou seja, qdo a situação se pode – eventualmente – tornar grave) o encarregado de educação é avisado para quê, então, este tipo de práticas kafkianas?

    Dinis: se não estou enganada a D.Maria só não pode vender tabaco a menores de 16 anos, não tem nada q fiscalizar a idade de quem fuma ou deixa de fumar no seu estabelecimento, certo?

  5. Luís Lavoura diz:

    “poder vir cá fora ao café da D. Maria fumar um cigarrinho no intervalo”

    Não se pode fumar nos cafés.

    Não vejo qualquer necessidade de um aluno sair da escola para seja o que fôr. Eu fiz todo o meu liceu em colégios de onde não podia sair nos intervalos, porque era perigoso sair, porque as vizinhanças não eram das mais seguras. Nunca senti qualquer falta de sair dos colégios para fosse o que fosse. Nem me lembro de ouvir colegas a queixarem-se de tal facto. E nos colégios que frequentei não havia sequer bares para comprar comida como hoje em dia há. Comia-se o almoço e o lanche que nos davam na cantina, e mais nada.

    Os jovens de hoje são muito mimados, é o que é. E têm poder de compra a mais.

  6. Dinis, leia lá bem:

    “com algumas alterações e salvaguardas importantes (poder vir cá fora ao café da D. Maria fumar um cigarrinho no intervalo – afinal não se pode fumar dentro das escolas, não é?) também mesmo no secundário.”

    As alterações que eu defendo são no secundário, a partir do 10º ano, quando já é legal fumar (e comprar tabaco). A sua incapacidade de interpretar um texto é recorrente!

    A “Dona Maria” existe: é um café ao lado da escola que eu e a Maria João frequentámos (com alguns anos de diferença). Passo por lá às vezes e a simpática senhora continua a vender tabaco aos alunos do secundário. Será que o Dinis quer passar por lá e prendê-la?

    “Tirando a parte imprescrutável, que não se entende…é mau português, acontece..tirando isso o meu querido amigo, defende portanto…”

    Acusa-me de “mau português” para na mesma frase pôr uma vírgula entre o sujeito e o predicado! Você é extraordinário, Dinis! Você merece um prémio!

    Maria João, vi que achas bem que o cartão sirva como pagamento. Também eu, claro.
    Repara, se os pais já são avisados das faltas, não creio que o “tempo real” faça assim uma grande diferença.

    “Torço o nariz é à faceta big brother parental q é potenciada por outras aplicações do referido cartão.”

    É aqui que acho que exageras, não nas tuas preocupações com os pais, mas nas aplicações que vês no referido cartão! Mas creio que são questões de pormenor.

  7. Dinis diz:

    A resposta é para Maria João Pires que parece ser terráquea e dominar a lingua portuguesa: os menores não podem sequer entrar num estabelecimento onde se possa fumar. Portanto, das duas uma, ou no estabelecimento da D. Maria pode fumar-se e os menores não o podem frequentar, muito menos acender o cigarrinho; ou não se pode fumar de todo pelo que os menores estariam na mesma situação de qualquer outro adulto.
    Filipe: já lhe dise que era o meu herói?!

  8. Dinis diz:

    Vá lá Luís, só por esta vez: nos comentários não tem que haver preocupações de “bem redigir” São, por natureza, repentinos e há um acordo tácito na blogosfera que é o de não olhar a gralhas em comentários, precisamente pelo facto de serem escritos à pressa. Já um post de suposta refelxão profunda sobre determinada matéria….

  9. Maria João Pires diz:

    Não sabia dessa norma legal, obrigada pelo esclarecimento, Dinis. Já agora… desde que a nova legislação sobre o tabaco entrou em vigor deixou de ser possível fumar na D. Maria, não sei é se ela tem uma maquineta daquelas q é preciso pedir autorização para q sejam ligadas (hei-de ver da próxima vez q lá for).

  10. Dinis diz:

    A “Dona Maria” existe: é um café ao lado da escola que eu e a Maria João frequentámos (com alguns anos de diferença). Passo por lá às vezes e a simpática senhora continua a vender tabaco aos alunos do secundário. Será que o Dinis quer passar por lá e prendê-la?

    Do 9º ano? e fumam lá dentro do café?
    Ó Luís pare. Por favor. Não se cubra de ridiculo e sobretudo não ponha em causa o “ganha pão” da D. Maria. É claro que se a D. Maria faz o que diz, comete uma ILEGALIDADE. Gravissima. Eu, em matéria de direito e justiça costumo estar do lado contrário à ASAE e MP pelo que, fique a D. Maria sossegada, não vou lá prendê-la, mas repito, se o que diz é verdade, alguém se encarregará de acabar com isso.

  11. Dinis diz:

    Maria João: será possível notificar o Luís do conteúdo desse seu comentário? Agradecido. Prefiro ir dar porrada nos cachimbeiros, tenho a tarde livre e apetece-me…
    Cumprimentos

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