Costumeiro ataque de fel de início de ano lectivo
22 Setembro 2008 | por Maria João PiresUm artigo do Público de hoje (podem lê-lo depois da opção “Ler mais”) provocou-me o seguinte ataque de fel.
Tenho 2 filhos em cujas escolas já se usa o tal do cartão magnético. Dá jeito? Dá sim, a não necessidade de haver dinheiro em circulação dentro da escola dá imenso jeito por vários motivos que não vale a pena referir aqui. Tudo o resto que é referido no artigo dispenso bem. Ah! é importante salientar que o “tema” do artigo é o alargamento deste tipo de cartões a escolas de 2º e 3º ciclos, ou seja, não estamos a falar de criancinhas pequenas, ok?
A ideia de que alguém se mostre satisfeito pela existência de um cartão que lhe permite, por exemplo, ser avisado em tempo real de uma simples balda de um filho arrepia-me. Chamem-me inconsciente se quiserem mas educar é, também, responsabilizar e responsabilizar implica dar algum espaço de manobra para pequenos disparates. Tenho sempre tentado manter uma boa comunicação com os directores de turma dos meus filhos. Porque confio neles sei que quando houver motivos para alarme (por ínfimos que sejam) serei convocada para um encontro na escola. Mas haver motivos para alarme é muito diferente de controlar todos os passos dos meus filhos. E uma balda nunca fez mais a ninguém. Sinal de inteligência e responsabilidade é saber gerir as suas próprias faltas, homessa.
Mais… que diabo de infantilização é esta de “bloquear” a compra de doces? Os pais que fazem isto não têm a menor confiança nos seus dotes de educador, só pode. Tudo isto me soa tão bizarro, tão pouco normal. Lembrei-me da minha irritação de início do ano lectivo passado quando assisti, horrorizada, ao seguinte espectáculo «ouço o presidente do CE afirmar “Eles vão para fora da escola para fumar, porque é proibido dentro do espaço escolar. Claro que nós não podemos fazer nada mas se algum pai quiser ser informado se o seu filho fuma estaremos perfeitamente disponíveis para o fazer”. Uóte da fuc is diz? Estamos a falar de miúdos com mais de 15/16 anos. Onde é que estava a cabeça daquele professor para se oferecer, diligentemente, para ser bufo? Que infantilização dos adolescentes é esta? E - sooorry - que merda de pais são estes que acenam a cabeça em sinal de assentimento agradado quando alguém se oferece para espiar os seus filhos crescidos? Que vómito, pronto…»
Um cartão que controla a vida dos alunos de uma escola em Oliveira de Azeméis
22.09.2008, Ana Cristina Pereira, Público, p.1o
Cartão electrónico deverá alargar-se, a partir deste ano lectivo, a todas as escolas
de 2.º e 3.º ciclo e secundário
Diana Filipa introduziu o cartão escolar no terminal situado numa entrada lateral da Escola Básica 2,3 Comendador Ângelo Azevedo, em Oliveira de Azeméis, Aveiro. Já só tinha 1,34 euros de saldo. Não era dramático. Só faltava uma semana para as aulas terminarem. E já comprara as senhas do almoço. Gosta de se precaver. “Se comprar no próprio dia, apanho multa.”
A escola frequentada por Diana Filipa antecipou-se, em parte, à espécie de revolução tecnológica que o Governo quer introduzir no parque escolar nacional. Na maior parte dos estabelecimentos de ensino do país, a era do cartão electrónico só agora está a começar.
Uma resolução publicada no mês passado em Diário da República prevê a aquisição de serviços e bens necessários à instalação do sistema de cartão electrónico para as escolas de 2.º e 3.º ciclo e ensino secundário. Gastar-se-ão 18 milhões de euros num período de quatro anos.
Na Escola Básica Comendador Ângelo Azevedo, desde Maio de 2002 que a circulação de dinheiro termina na papelaria. “Arranjámos patrocínio”, resume António Figueiredo, presidente do conselho executivo. E o sistema informático revelou-se “uma óptima peça de gestão”.
António Figueiredo convoca outro aluno para uma demonstração. Naquele dia, a uma semana de terminar as aulas, o cartão de José Filipe marca 0,01 euros. E o que pode ele fazer com 0,01 euros? “Nada.” Onde gastara o dinheiro?, perguntámos nós. Os pais dele não precisavam de perguntar.
José Filipe inseriu o cartão e consultou o seu horário, as suas notas, as suas faltas. Os pais, lá em casa, desde o seu computador pessoal, também podiam verificar o seu horário, conferir as suas notas, controlar as suas faltas, aferir se levantara ou não a senha para o almoço. Se os pais não quisessem que José Filipe comprasse doces no bar da escola, bastar-lhes-ia ir à secretaria dizê-lo. E o rapaz até os podia pedir, mas não poderia comprá-los porque o seu cartão recusar-se-ia a pagá-los. Os de José Filipe não o fazem, mas os de um colega com diabetes já o fizeram.
É como se o braço dos pais se esticasse até ali dentro. Se os encarregados de educação optam por autorizar a saída apenas no fim das aulas, os torniquetes virtuais dos portões, accionáveis através do cartão, barram qualquer antecipação. O aluno tem de permanecer ali dentro, em actividades de tempos livres ou em estudo, até o relógio marcar a hora certa.
Pais só vêem vantagens
Para já, Rui Pinho, presidente da Associação de Pais, só vê vantagens no sistema informático. “Os pais ficam mais descansados sabendo que os filhos estão dentro da escola. Já aconteceu as minhas filhas quererem sair antes da hora e eu ter de vir à escola assinar uma declaração.”
O sistema até contempla uma possibilidade de aviso automático: os encarregados de educação recebem um SMS mal um filho falte a uma aula. Tal mecanismo não foi, porém, aqui ainda accionado. Se quiser avisar um pai ou uma mãe de que o filho se está a portar mal, a faltar muito, professores como Anna Stavridou fazem-no por telefone, caderneta ou carta. Ordens do presidente do conselho executivo.
“As escolas não são sítios onde se despeja os alunos”, sublinha António Figueiredo. Por maior que seja o avanço tecnológico, o contacto personalizado entre professores e pais não deixará de ser importante.
A partir de terminais como os montados na sala de aula ou de professores, Anna Stavridou pode ver se um aluno com quem quer falar saiu ou está dentro da escola. E marcar faltas, lançar notas: “Já não preciso de andar a ver o registo folha a folha no livro de ponto ou de ter um registo à parte”, diz. Os dados introduzidos ficam automaticamente disponíveis.
Os próprios miúdos podem controlar os professores. Averiguar, por exemplo, se a falta que justificaram já está justificada. Espreitámos o processo de José Filipe. Vimos que tinha seis faltas a Francês, três a Inglês, seis a Educação Visual, duas a Matemática, duas a Ciências, quatro a oficina de leitura. “Todas justificadas.”

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