Uma coisa chamada realidade

Na última crónica escrevi que “as ideias, mesmo as mais elementares, têm consequências”. É bom explicar o que esta frase não é (repito: não é). Não se trata de uma qualquer sugestão de que as ideias, nomeadamente em política, não precisem de ter qualquer relação com a realidade. Pelo contrário, as ideias são tanto melhores quanto encontram uma forma melhor de se relacionar com a realidade: uma forma mais interessante, ou inteligível, ou rica, ou simples. Mas nunca deixam de ter consequências. As ideias péssimas, é claro, também têm consequências: consequências péssimas. A esquerda passou boa parte do século XX a descobri-lo da pior maneira.

Nos dias de hoje é a vez da direita. Saídos da sua Convenção do Partido Republicano na semana passada, um comentador dizia que os republicanos estão convencidos de que a realidade é apenas o que eles disserem que é. Isto não é uma grande novidade: o lado mau da ideologia é convencer os militantes de qualquer partido a tomar os desejos pela realidade. A novidade, essa sim, e perigosa, é a imprensa – numa caricatura da sua suposta imparcialidade – ter de levar a sério essa ilusão. Vejamos a nomeação de Sarah Palin para candidata republicana a vice-presidente dos EUA. John McCain pode estar convencido de que falar com uma pessoa duas vezes é suficiente para a colocar a um passo da presidência, ou que ela viver no Alasca é o suficiente para que saiba de política internacional (argumento verídico!). Extraordinário é a imprensa validar esses argumentos absurdos.

Os exemplos são vários. É suposto os republicanos quererem baixar impostos e combater défices. Ninguém nota que Sarah Palin aumentou os impostos num estado que não precisa deles (porque tem petróleo) e deixou 22 milhões de dólares em dívida a uma cidade do tamanho de Celorico da Beira, que antes tinha uma dívida de zero. É suposto admirarmos o facto de ela ter tido um filho deficiente, que é uma decisão pessoal. No plano público, ninguém se incomoda com ela ter cortado sessenta por cento dos fundos para apoio escolar a crianças deficientes. Ninguém se incomoda? Ninguém o noticia, sequer. É suposto levar a sério o desprezo dos republicanos pelos “intelectuais”. Ao mesmo tempo, ninguém investiga a sério as notícias de que Sarah Palin pressionou a bibliotecária do seu município para censurar os livros do seu acervo.

Imaginamos todos o que aconteceria se Obama tivesse uma filha adolescente grávida, se a sua mulher tivesse pertencido durante dez anos a um partido radical independentista, se ele tivesse escolhido o seu vice-candidato após tê-lo visto, cara a cara, uma única vez durante quinze minutos. Cada um destes escândalos poderia destruir sozinho a sua campanha. Todos juntos e transcritos para os republicanos, todas essas bombas eleitorais passaram a ser maravilhosas qualidades.

A imprensa tem o dever de ser imparcial e equidistante. Isso significa tratar com a mesma frieza verdades e mentiras, de onde quer que venham – e não tratar verdades de um lado e mentiras do outro como se fossem a mesma coisa, o que apenas beneficia os infractores e degrada o espaço público.

Os republicanos podem achar que quando a realidade contradiz as nossas ideias, que se lixe a realidade. Mas não. Quando a realidade contradiz as nossas ideias, a realidade ganha. O problema é que todos perdemos com isso.

08.09.2008, Rui Tavares

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Segunda | Rui Tavares
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16 respostas a Uma coisa chamada realidade

  1. Também prefiro que o Obama ganhe, como é evidente. Mas dai a todo este circo da esquerda caviar! Por favor, o homem ainda ontem estava danado por causa da nacionalização das concessionárias de crédito de habitação. Ainda veremos o BE a dizer …”o governo Bush deu decisivos passos no combate ao capitalismo neo-liberal”… Não perceberam que o Obama não passa de um CDS assumido? Até dá vontade de rir.

  2. Nuno V. diz:

    Já que falamos em REALIDADE, que tal algumas referências para os leitores poderem verificar e confrontar os FACTOS que o Rui Tavares indica. Seria o mínimo.

  3. GL diz:

    Isso faz-me lembrar as nossas plagas, onde Manuela Ferreira Leite é repetidamente referida pela imprensa como “factor de credibilidade”, “figura com sentido de Estado”, “a nossa Dama de Ferro”, etc, enfim, ideias que muita imprensa gostaria que as pessoas tomassem por realidade quando de facto os resultados apresentados por esta senhora quando esteve no poder não colherem com a ideia que dela tanto é difundida.

  4. Maria João Pires diz:

    Nuno, não se amofine tanto. Já terá reparado que os textos do Público que o Rui republica aqui nunca têm links (presumo q é a isso que chama referências).

    Não lhe seria difícil encontrar o que pede mas todos nós temos direito à preguiça, claro. Tenho a certeza que assim que lhe for possível o Rui deslocar-se-à aqui para lhe aceder aos anseios.

  5. The Studio diz:

    “A imprensa tem o dever de ser imparcial e equidistante.”
    Olhem para o frei Tomás, façam o que ele diz mas não o que ele faz.

    Não vejo porquê discutir mais a eleição para a presidência dos EUA. Há já algumas semanas que um distinto comentador da SIC Notícias, Rui de seu nome e Tavares de seu apelido, sentenciou estas eleições atribuindo a vitória ao candidato que já visitou 57 estados Americanos.

  6. Pingback: “Ideias have consequences” (Richard M. Weaver, 1948, University of Chicago Press) « O Insurgente

  7. marian diz:

    Parece que a história de ela ter cortado fundos para as crianças deficientes também é mentira. Ela terá de facto aumentado os fundos. Talvez o Rui Tavares possa investigar onde está a verdade. (http://www.weeklystandard.com/weblogs/TWSFP/2008/09/newest_palin_smear_she_cut_spe.asp)

  8. NunoV
    yyyyyyyyyy Links? que coisa tão aborrecida, né! a gente tb tem net e pode investigar as fontes, né … Bem. Pensar é uma coisa que “flui”; um concentrado de links é um armazém, cada um faz o seu bolo; …. ou seja, caso contrário ainda só teríamos a bíblia como único livro de biblioteca, né? Alias, contrariamente à ciência de laboratório, a inventariação de um feixe de links num mesmo texto, não implica necessariamente que as conclusões que se chegue seja a uma, às vezes até acontece ficar-se siderado e divertido com o resultado … como o mundo … a vida parece igualzinha para todos, mas depois “cada cabeça, sua sentença” e ainda bem, né?
    …………..

    Até podia ser a Madonna, a Sharon Stone como último recurso, mas teria que ser uma mulher-bonita ( feia – seria a ruína!!! qual inteligência … uma imagem vale mil palavras; palavras leva-as o vento e etcs. da razão popular). Qual Hilary?? Não! uma Rapariga mais jovem … para entrar olhos adentro da América … uma mulher assim – jeitosa -, mas com filhos, casada e com um toque na Política… melhor era impossível … para engasgar o Obama … não haverá palavra que o salve da derrota! Vai uma aposta?

  9. Hummmmmm, bem eu cá linkei a realidade … acho que ela paira, como uma nuvem, por cima da cabeça de cada um … os textos é o resultado da trovoada …

  10. para o nuno v.: os meus artigos vêm para aqui exactamente como saem do público, por isso não têm links. mas há para aí uma coisa nova chamada google, que eu lhe aconselho vivamente, e que dá resultados como este, do principal diário do alaska:

    http://www.adn.com/sarah-palin/story/515512.html

    a história merece ser investigada, que é o que eu defendo. até agora sabemos, por diversas fontes independentes, que Sarah Palin pressionou a bibliotecária, até em ocasiões públicas. sabemos que a bibliotecária foi demitida por ela, sob pretextos que não estão relacionados com os livros (a autarca Palin declarou que não sentia apoio da bibliotecária). não sabemos se algum livro foi banido (enquanto a bibliotecária lá esteve e resisitiu, não foi) e sabemos que uma lista de livros que para aí andou (e que eu não cito) não tem nada a ver com o caso. os republicanos, claro, agarram-se a essa lista que nenhum jornal sério citou para dizer que é tudo mentira. acontece que as pressões existiram, foram noticiadas muito antes de a senhora Palin ser escolhida para candidata, e não podem ser refutadas por uma lista que nada tem a ver com o assunto. Para a maioria de nós, a mera intenção de banir livros da biblioteca pública já é matéria bastante feia — chame-nos picuinhas, se quiser.

    quanto aos fundos para crianças deficientes. eu li o artigo da weekly standard que a marian cita, e ele não muda este dado fundamental: o congresso do alaska determinou certos fundos para crianças deficientes, e sarah palin achou que era muito e diminuiu-o. a mesma coisa se passou com os fundos para mães adolescentes. pode ler aqui a notícia do washington post, com os próprios cortes da mão da governadora na folha:

    http://voices.washingtonpost.com/the-trail/2008/09/02/palin_slashed_funding_to_help.html?hpid=artslot

    a notícia de que todd palin foi eleitor registado do partido da independência do alaska foi confirmada pela própria secretaria eleitoral do alaska. a notícia de que a filha adolescente engravidou fora do matrimónio — que, julgo que todos concordarão, seria uma bomba se acontecesse à campanha de Obama — foi dada pela própria família Palin, e tratada pelo partido como uma coisa fantástica, apesar de Palin ser contra o sexo antes do casamento, a favor da educação exclusivamente pela abstinência, etc. a notícia de que John McCain falou com Sarah Palin uma única vez, cara a cara, por quinze minutos, foi confirmada pelo próprio em entrevista. e por aí adiante.

  11. GL diz:

    A verdade é que a investidura de Palin foi um tiro de misericórdia em Obama. O Partido Democrata pagará caro a ingenuidade de ter escolhido Obama no lugar de Hillary, e mais uma vez entregará de mão beijada uma eleição para os Republicanos.

  12. Nuno V. diz:

    “As ideias péssimas, é claro, também têm consequências: consequências péssimas. A esquerda passou boa parte do século XX a descobri-lo da pior maneira. Nos dias de hoje é a vez da direita.” Ficamos imediatamente a saber que a proporção não é o forte do Rui Tavares.

    Curiosa a sua preocupação com a ortodoxia económica do Partido Republicano. Ontem andou por aí a circular um ad do McCain + Palin: “The Original Mavericks”.

    “Ninguém se incomoda com ela ter cortado sessenta por cento dos fundos para apoio escolar a crianças deficientes. Ninguém se incomoda? Ninguém o noticia, sequer.” Noticia, noticia. No blog da neoconservadora WS: “So the Netroots and CNN allege that Palin cut special needs funding by 62 percent, by crediting her with the budget proposed by a political opponent. And the truth is that rather than a 62 percent cut, she’s actually increasing special needs funding by 175 percent.”

    “É suposto levar a sério o desprezo dos republicanos pelos ‘intelectuais’.” Sim, a não ser que os intelectuais em causa sejam republicanos.

    “Ao mesmo tempo, ninguém investiga a sério as notícias de que Sarah Palin pressionou a bibliotecária do seu município para censurar os livros do seu acervo.” Notícias, blogs, bocas. Segundo o Anchorage Daily News: “It all happened 12 years ago and the controversy long ago disappeared into musty files. Until this week. (…) It has been mentioned in news stories in Time Magazine and The New York Times (olha que 2!) and is spreading like a virus through the blogosphere (ah, então está bem!). The stories are all suggestive, but facts are hard to come by.” But facts are hard to quê?! Porra, pá…

    “A imprensa tem o dever de ser imparcial e equidistante. Isso significa tratar com a mesma frieza verdades e mentiras, de onde quer que venham – e não tratar verdades de um lado e mentiras do outro como se fossem a mesma coisa, o que apenas beneficia os infractores e degrada o espaço público.” Desculpe lá, mas foi o Rui Tavares que escreveu isto? E foi também o Rui Tavares que escreveu o resto do post? O Rui Tavares e o Rui Tavares são a mesma pessoa? Não acredito.

    Em relação ao resto (“Imaginamos todos o que aconteceria se Obama…”), não se preocupe: se Obama conseguiu resistir ao escândalo da sua relação com o Rev. Wright, é porque ele consegue resistir a tudo!

    Post scriptum dirigido a Maria João Pires

    “Uma coisa chamada realidade” exige as referências, caso contrário só acedemos à coisa e ficamos longe da realidade.

  13. Nuno diz:

    O que me parece uma realidade é que os comentadores que não gostam do que o que o Rui Tavares escreve só desconversam nas caixas de comentários e não enfrentam a……..realidade!
    Em termos de realidade acho que deveria ser pacifico que os EUA estão bem pior agora que há 8 anos! Assim sem pesquisa alguma, o déficit é bem maior agora q há 8 anos, qd havia superavit, a cotação do USD veio por aí abaixo, os impostos para os mais abastados desceram cavando a desigualdade, o desemprego aumentou para numeros recordes dos últimos 5 anos, o mercado livre e desregulado não se equilibrou antes criou a crise subprime, a Bear Sterns, Fannie Mae, o Freddie Mac foram nacionalizados, menos estado não foi igual a melhor estado. Esta é a realidade!
    As razões para tudo isto ter acontecido podem ser várias, mas são as causas para realidade ser esta. Suspeito q terá alguma coisa que ver com a administração no poder há 8 anos!

  14. marian diz:

    Rui, então é um problema de semântica. Ela não cortou os fundos, diminuiu os fundos que estavam em negociação, tendo mesmo assim existido um aumento em relação aos anos anteriores. É isso não é?

  15. antonio lobo xavier diz:

    RT é o comentador que, sendo de uma àrea política obviamente diferente da minha, leio com mais atenção e proveito, pelo rigor e inteligência. Desta vez, porém, acontece que quase tudo o que RT imputa a Palin foi verificado e categoricamente desmentido, pode-se verificar no site da Newsweek.

  16. Caro António Lobo Xavier, obrigado pelos comentários elogiosos. Quanto aos factos:

    Palin cortou fundos propostos pelo Congresso do Alaska para crianças deficientes; também cortou fundos propostos para apoio a mães adolescentes. No caso das mães adolescentes riscou os fundos propostos, na própria folha do orçamento, pelo seu próprio punho. A notícia do Washington Post, com a prova documental dos cortes feitos pela governadora (para os fundos de apoio a mães adolescentes), está aqui:

    http://voices.washingtonpost.com/the-trail/2008/09/02/palin_slashed_funding_to_help.html?hpid=artslot

    Sarah Palin não é uma “conservadora fiscal”: vale a pena ler este artigo do Michael Kinsley na Time magazine. É comentário, mas factualmente suportado em muito outro material noticioso que eu vi, e dá um bom panorama do que é a realidade orçamental do Alaska (para comparação nacional: uma espécie de Madeira com gelo e petróleo).

    http://www.time.com/time/politics/article/0,8599,1839724,00.html

    Todd Palin foi membro registado do Alaska Independence Party durante quase sete anos. Facto documentado pela própria secretaria eleitoral do estado. O director dessa divisão confirmou o facto à ABC news. Ver aqui:

    http://blogs.abcnews.com/politicalpunch/2008/09/the-alaska-divi.html

    Sarah Palin pressionou a bibliotecária do seu município. Facto noticiado pelo jornal local, The Frontiersman, e pelo Anchorage Daily News à época, muito antes de ela se tornar numa política célebre. A ABC news acabou de fazer uma primeira reportagem sobre o assunto:

    http://www.youtube.com/watch?v=VcdqcXZ1jqU

    O que se passa aqui? Uma técnica velha e muito simples. Negar uma história ainda mais escandalosa para alegar que tudo não passa de boato, incluindo os factos documentados. No caso da biblioteca, andava para aí uma lista de livros que não tinha nada a ver com o assunto, e que incluía todos os Harry Potter, e todo o Stephen King. A campanha de John McCain usa a falsidade dessa lista para refutar a história da pressão sobre a bibliotecária. Mas uma coisa não tem nada a ver com a outra. Tal como o facto de haver um bloguer que tenha escrito alegações infundadas sobre o quinto filho de Sarah Palin não invalida que a história (real, e confirmada pela própria campanha) da sua filha adolescente grávida não fosse uma bomba caso ocorresse na campanha de Obama.

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