Dos conflitos e das ideias

João,
É esclarecedor argumentar sobre as virtualidades dos programas dos dois candidatos americanos. Mas é cegueira querer fechar os olhos à componente de horse–race que a política eleitoral por ali (e não só) hoje apresenta. É, mais do que pueril, absurdo escrever que um tipo de análise deve «ser evitado a todo o custo, em nome de uma racionalidade política». Ninguém aqui acha que «o debate político é puro conflito»; analisar a Batalha de Inglaterra em termos de estratégia militar não equivale a esquecer que Hitler estava de um lado e o mundo livre do outro – é sim uma tarefa útil, esclarecedora e importante, que não tira lugar a um estudo sobre o nazismo, antes o complementa.
A deliberação na famosa “Esfera Pública” de Habermas continuará existir; e não sou eu quem o impedirá ou dificultará. Mas se a cobertura noticiosa de uma campanha eleitoral não se deve limitar a dispositivos publicitários ou meras manobras tácticas, também não os pode excluir, sob pena de começar a operar numa dimensão alheia à realidade; note-se que no meu post inseri declarações de um decisor da campanha do Obama, integralmente preocupado com essa vertente que tanta repulsa te causa, João. E atenção: um meio de comunicação assume um complexo compromisso com o público e com a qualidade do debate cívico (vigilância, criação de agendas e de actores, plataforma para advocacias, diálogos entre pontos de vista e entre os poderes e as massas, mecanismos de vigia, incentivos à participação, resistência à perda de integridade, respeito pelas audiências) que um cronista (ou um blogger, no meu ínfimo caso), não pode abarcar.
João: todos por aqui lemos Schumpeter e Pareto. Todos sabemos que a instância da cidadania não pode ser reduzida à condição de consumidor; também lemos Jay G. Blumler, com a sua preocupação sobre a despolitização do conteúdo da comunicação cívica, seguida pela universalização do entendimento da política como um mero jogo. Mas escrever sobre tácticas de campanha está longe de ser uma «posição essencialmente acrítica» nem um factor de acefalia da política, enquanto nobre arte de governar; é sim olhar para a realidade por um outro ângulo, sob um ponto de vista também crucial para o resultado final. Já aqui escrevi sobre as implicações sociológicas da Obamania e sei lá mais o quê. Por acaso, tenho algum know-how que me permite perscrutar outros aspectos de uma campanha e escrever sobre eles. E mais: «recusarmos jogar o jogo tal como ele actualmente nos é apresentado» pode ser coisa elevada, mas se levado às últimas consequências, resultará apenas numa coisa singela: perdermos o tal “jogo”.

Eu não almejo «derrotar o partido republicano» (safa!). Aliás, duvido que o meu texto venha a ser lido por um só cidadão americano. Apenas usei a minha experiência de propagandista em várias eleições para analisar uma vertente que qualquer candidato com esperança de sucesso hoje não pode descurar. A realidade é o que «legitima o post do Luís», João. E, felizmente (digo eu), ela é coisa multifacetada e complexa, a exigir sempre uma enorme variedade de olhares. Se é que a queremos mesmo entender, nem que seja só um bocadinho.

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17 respostas a Dos conflitos e das ideias

  1. Antónimo diz:

    Será que todos por aqui (mesmo que em referência aos bloggers residentes) já leram Schumpeter e Pareto? Pessoalmente, gente assim da alta fico-me pelo Fermi, Landau ou Feynman que esses outros são gente que só para doutorandos de filosofia.

  2. Eu “gente da alta” fico-me por “A Bola”. O futebol explica muita coisa; o João Galamba, pelos vistos, preferia o Peseiro ao Paulo Bento.

  3. Eu cá o Shumpeter só leio com a Maria. O tamanho da História da Análise Económica equilibra bem com a pequenez da revista. E Pareto só quando havia a mítica Ana Mais Atrevida.

  4. admiradorsecreto diz:

    E aliás a fany mae e a mac chula são leituras recomendadas ..com os pigas ands bric da autoria do feniman timas…

  5. JOSE TROCAS diz:

    e ALIÁS O FANY MAE E O MAC CHULA SÃO BOAS LEITURA..pigs and bricks de fenimam times também são recomendadas..

  6. RAF diz:

    “João: todos por aqui lemos Schumpeter e Pareto. Todos sabemos que a instância da cidadania não pode ser reduzida à condição de consumidor”.

    Não percebo porque não.

  7. ezequiel diz:

    Também concordo contigo Luís. Pelas mesmas razões que apresento no comentário que fiz ao post do João. Penso que o João confunde “tentar compreender” com “sucumbir a.”

    O post do João e o teu contra-post estão excelentes. São complementares.

    Congrats para os dois,

    cumps, ezequiel

  8. Carlos Fernandes diz:

    Por falar em Bola e Filosofia, lembro-me de um professor meu do ISE (que só se começou a chamar ISEG no ano a seguir) de Introdução às Ciências Sociais que adorava Pareto, M. Weber, Mosca e etc., e que ensinava com paixão, mas quando o seu Sporting tinha jogos importantes faltava sempre ás aulas…

  9. LR diz:

    RAF,
    “Não pode” no sentido de “não deve” se não quisermos empobrecer de forma irreversível a participação cívica e a democracia. Suponho que não tenhas em mente ideias como a de compra e venda de votos; mas nem essa situação-limite descartaria ou elidiria completamente a condição de cidadão.

  10. PJMODM diz:

    Para além da ciência política e da ética da comunicação objecto deste diálogo, o primeiro dos 3 posts pareceu-me que dizia respeito essencialmente ao que se destaca no último parágrafo deste post: «Apenas usei a minha experiência de propagandista em várias eleições para analisar uma vertente que qualquer candidato com esperança de sucesso hoje não pode descurar».
    Quanto a esse ponto importa destacar 3 aspectos do aparente «turning point» (provisório?) da corrida presidencial pós convenções – curiosamente depois de um discurso de Obama que aparentemente foi exemplar em todos os aspectos retóricos político-eleitorais (da forma ao conteúdo).
    1- Existem fortes elementos para suspeitar que a viragem destes dias foi em larga medida potenciada pelo ataque frenético de alguns sectores democratas a aspectos da candidata a VP relativos às suas visões conservadores e condução de vida à luz desses valores. Mesmo que depois houvesse um tentar emendar da mão, falando «do que mais interessa». Obama não teve qualquer responsabilidade mas é vítima desses apoiantes «fracturantes» que podem ter fracturado a sua candidatura. É óbvio que a candidata (para além de padecer, beneficiar de uma ausência de ideias substantivas sobre os EUA e o mundo, e de qualquer noção estratégica sobre a condução de um governo, conhecimentos básicos para quem pretende ser VP, mas o Busch é presidente…), revela-se enquanto um estereótipo, a reacção anti foi genuína e pode ter sido fatal (um reverso que pode ter custos para além de uma corrida eleitoral).
    2- Em relação ao impacto no segmento eleitoral feminino o LR não tem em atenção os estudos mais recentes que apontam para que a alteração dramática das intenções de voto numa semana tenha ocorrido praticamente num único subgrupo: mulheres brancas (os democratas antes das convenções lideravam folgados e neste momento estão atrás). Um grupo que “só” corresponde a mais de 30 % dos eleitores (a resposta H. Clinton parecia evidente mas os dois discursos dela mais recentes são mais facadas no que não se diz sobre obama e até a insistência na crítica mais acesa a Palin que não leva a crer que seja por aí que os democratas vão responder com eficácia).
    3- Neste momento Obama está por si, e continua a fazer intervenções brilhantes (para um ouvinte de centro-esquerda e mesmo de centro-direita, com sensibilidade social e alguma cultura, mas não é aí que ele pode perder a eleição). Mas o novo ênfase, não se escolhem pessoas mas programas, revela uma postura defensiva perigosa em eleições altamente personalizadas (racionalmente fundada mas reveladora de que terá informação que o obriga a sair para esse terreno, quando é certo que nem sequer corresponde ao seu percurso, a sua primeira biografia foi escrita com menos de 40 anos…).

    É verdade que Obama tem uma força eleitoral acrescida em relação aos 2 últimos candidatos democratas que perderam por muito pouco (o Gore até ganhou nas urnas): quase o pleno no eleitorado negro (que contudo tem votado sempre de forma claramente maioritária nos democratas) e maior mobilização dos eleitores jovens.
    Em contraponto McCain é uma personalidade sem comparação com o W para os eleitores urbanos moderados, integro e agora arranjou um busch de saias, com menos pecados e levando à prática as suas convicções (é preciso lembrar que o W até fugiu à guerra e o seu staff deu-se ao luxo de atacar um heroi medalhado do Vietname por ter criticado a intervenção militar depois de regressar a casa).

  11. o sátiro diz:

    A realidade é que Obama parecia ter um “passeio por Capitol Hill” e agora surgiu um Obama de saias, com mais substância do que o Barack, e que desorientou a task force Democrata…

  12. Antónimo diz:

    um tipo que se chama sátiro acha que a candidata de saias tem substância e o preto não. estranho, achava que um sátiro não gostaria de quem lhe fizesse a vida sexual difícil. talvez deva mudar o apodo para masoch, ou assim!

  13. ezequiel diz:

    sátiro

    keep in it your pants, boy 🙂

    o jogo ainda não acabou e, como sabes, os ases guardam-se para as ocasiões oportunas….não devem ser desperdiçados…

    “um Obama de saias” eh ehe heh e he he h esta é boa.

  14. ezequiel diz:

    como diria o outro, timing is everything

  15. ezequiel diz:

    Luís,

    este seria tema juicy para um ganda post.

    O estado Americano, pervertendo a máxima de que o free market espontâneo é intrinsecamente racional (assim justificando o não intervencionismo), interveio na bendita economia para salvar o Fannie Mae e o Freddie Mac. O colapso destes dois lenders teria sido devastador. Muitos banqueiros europeus, incluindo o Deutsche Bank e outros bancos nacionais, investiram nestes dois lenders. A imprensa Americana fala de “quasi-nacionalização” evitando a todo o custo o termo nacionalização (com a qual discordo). Um analista Francês , que falava há pouco no France24, afirma que se trata de uma manipulação semântica. Unregulated markets also fuck up. (no meio está a virtude)

    Uma grande lição para todos os acérrimos defensores do free market aqui por terras lusas. Trata-se de uma mudança de paradigma em Wall Street. Greenspan, o mais feroz defensor de unregulated free markets, aplaudiu a medida. Uauu! E o Bush foi forçado a ceder pelos seus conselheiros económicos.

    May you live in interesting times, dizem os chineses.

  16. Luis Rainha diz:

    Olha; nem de propósito, tendo em vista o tema subjacente a esta discussão. A Palin, aparentemente, estava algo confusa quanto à natureza dessas duas instituições: http://www.cbsnews.com/stories/2008/09/08/politics/animal/main4426309.shtml

  17. buiça diz:

    e o limão brothers..next please..

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