Os snipers no BES e nas FARC

Regressando de viagem verifico que pelo Blasfémias pouco mudou.
João Miranda continua entretido com as suas teses libertárias, mas não percebo como pode falar em “presunção de inocência” (neste caso necessariamente do falecido assaltante) num crime que era flagrante e que estava a ser transmitido em directo pela TV. Se a polícia tivesse que pressupor sempre inocência, nunca poderia actuar e mais valia acabar com ela. No fundo, segundo a lógica habitual de Miranda milícias privadas não custariam dinheiro ao contribuinte.
Mas ocorreu-me uma comparação interessante entre o assaltante do BEs e o membro das FARC assassinado no resgate de Ingrid Betancourt e outros reféns das FARC. Este último resgate teve o júbilo merecido e justificado da maioria da blogosfera portuguesa (o meu incluído). No entanto, e embora este motivo não seja suficiente para eu lamentar a operação, tenho pena de que tenha havido uma baixa, de um guerrilheiro das FARC. Embora não defenda nem um bocadinho procedimentos das FARC (apesar de achar que existem justas razões de queixa contra o governo colombiano), aqui admito que tive pena de que aquele homem tinha morrido. E tive pena por várias razões: ele não era um dos comandos principais das FARC e, sobretudo, teve azar – estava no momento errado na hora errada. Ao contrário do assaltante do BES, que em conjunto com o seu colega era totalmente responsável pelo que se estava a passar e deveria saber os riscos que corria, ainda assim tomando a decisão de manter o rapto e não se render, quando teve oportunidades para isso. O guerrilheiro das FARC está certo que se juntou à organização por escolha sua, e um pouco responsável seria sempre, mas não era de longe o único responsável por aquela situação. Não sabemos se teve oportunidade de se render no acto do resgate. E não há dúvida de que, em vez dele, poderia ter sido outro qualquer a morrer, pelo que evidentemente teve azar. Eu tive pena dele.
Cronistas como Ferreira Fernandes dedicaram uma crónica inteira a dizer que a morte do guerrilheiro das FARC foi justa e valeu a pena. Mas coerentemente Ferreira Fernandes também defendeu a morte do assaltante do BES.
O resgate de Ingrid Betancourt foi efusivamente comemorado no Blasfémias, onde João Miranda continua a lamentar a morte do assaltante do BES por parte da polícia do Estado. Por que razão não lamentou então João Miranda a morte do combatente das FARC?

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14 respostas a Os snipers no BES e nas FARC

  1. Luis Rainha diz:

    Sem querer botar faladura pelo JM, não me parece que seja o mesmo uma situação de guerra e outra de paz. Por isso existem coisas como o posse comitatus act, como sabes.

  2. Sei o que é a lei marcial, que que eu saiba não é oficialmente válida na Colômbia.

  3. Um bom exercício de Ética-aplicada …

  4. Alfredo P. diz:

    posse comitatus act

    Isso está em que língua, Luís? E quer dizer o quê? Só para saber, claro.

  5. Luis Rainha diz:

    Não me parece que o estado de guerra leve obrigatoriamente à lei marcial. Mas as situações de facto são diversas.

    Alfredo, está em duas línguas. E pretende minimizar o uso de violência militar sobre os cidadãos. Lembrei-me disso precisamente pela diferença que deve existir entre soldado com ordens para matar tudo o que esteja “do outro lado”, sem mais perguntas, e um polícia.

  6. «no momento errado na hora errada»

    «Pai e filho perderam a vida, ontem de manhã, vítimas de um aparatoso acidente de viação, que envolveu o motociclo onde seguiam e um veículo ligeiro conduzido por um militar da GNR (…)
    O desastre ocorreu cerca das 7.30 horas, ao quilómetro 52,2 da Estrada Nacional 226, junto à aldeia de Prados de Baixo, a seis quilómetros da vila de Moimenta da Beira, sede de concelho, de onde eram naturais e residentes as duas vítimas mortais.
    Morreram quando iam a caminho do trabalho, para uma obra de construção civil.
    João Paulo Ramos Augusto (filho), de 17 anos, faleceu no local do acidente. O pai, Manuel Cardoso Augusto (Manuel Gaio, como é conhecido), de 41 anos, morreu menos de horas depois nos cuidados intensivos dos Hospitais da Universidade de Coimbra, para onde tinha sido transportado de helicóptero, dada a gravidade das lesões sofridas.
    O ligeiro ia a ultrapassar o motociclo quando este estava a mudar de direcção, colidindo e arrastando-o mais de vinte metros pela estrada”, contou ao JN o comandante dos Bombeiros Voluntários de Moimenta da Beira, José Alberto Requeijo.
    O Núcleo de Investigação Criminal (NIC) da Brigada de Trânsito (BT) da GNR de Viseu, esteve no local a fazer a peritagem, e leva em conta o facto de naquele troço as ultrapassagens serem proibidas e a estrada ter traço contínuo (…)
    in: http://jn.sapo.pt/paginainicial/pais/concelho.aspx?Distrito=Viseu&Concelho=Moimenta%20da%20Beira&Option=Interior&content_id=1008997

    Lembrei-me deste caso…
    Quando o referi no meu «blog» um comentador disse o mesmo, Filipe.
    – Estavam no momento errado na hora errada…
    Pai e filho iam trabalhar, foram mortos por um GNR (cf. com caso BES).
    Vamos desresponsabilizar as forças policiais de todos os actos que praticam (julgo que é esse o ponto de João Miranda)?
    O caso dos sequestradores das FARC é muito diferente.
    Sabe quantas pessoas morreram em sequestros em bancos portugueses?
    Um.
    Pois.
    Nada fazia prever que «daquilo» resultasse a perda de uma vida humana, João Miranda, já provou por A+B que os sequestrados só correram risco de vida graças à actuação trapalhona da PSP/Governo PS.

  7. Pois!

    “Sabe quantas pessoas morreram em sequestros em bancos portugueses?
    Um.
    Pois.”

    Pois. Pois. Pois.
    ………………
    AI, JESUS!
    “Nada fazia prever que «daquilo» resultasse a perda de uma vida humana, João Miranda, já provou por A+B que os sequestrados só correram risco de vida graças à actuação trapalhona da PSP/Governo PS.”
    “já provou por A+B” UAU! Hercule Poirot? O JM? Fixe. Mas, a Agatha Christie já morreu …
    Pois, aquilo fazia prever o quê? Que morressem só os ácaros do pó??

    A vida é um pouquinho coisa, mas pedro oliveira a tua versão dá-me moca

  8. LA-C diz:

    Filipe Moura, espero, sinceramente, que não estejas a defender que a polícia portuguesa, mesmo a GNR que tem caractísticas de força militar, actue como se Portugal estivesse a viver em guerra civil. Compreenderás que tempos de guerra e de paz exigem comportamentos diferentes por parte das autoridades armadas de um país.

  9. Alfredo P. diz:

    “Alfredo, está em duas línguas”, diz o Luís.
    Mas quais?

  10. Alfredo P. diz:

    Ó Pedro Oliveira, descanse, a parvoíce ainda não paga imposto e muito menos mata. Pode continuar.

  11. Luis Rainha diz:

    Latim e Inglês.

  12. j diz:

    Existe a forma recorrente de dizer “o sargento” ou “foram mortos por um militar da GNR”, citando apenas estes dois casos.

    Se repararem, em ambos os casos, o sargento é o “sargento”, ou seja é tratado em função da sua profissão, mas o Baltazar já não é tratado por “o carpinteiro”, ou lá que profissão o homem tenha, que nem sei nem me interessa.

    No caso do “militar da GNR”, ao que sei, trata-se de um cidadão ainda jovem que conduzia a sua viatura “particular” no acidente em questão, mas é tratado por “o militar da GNR”, enquanto os outros intervenientes no acidente já são “o pai e filho”.

    Acho lamentável esta forma de escrever notícias por parte de muitos jornalistas, que só contribuem para a “A merdatização da Comunicação Social”, servindo-me do título do nosso “coronel” Rogério da Costa Pereira, num post excelente e muito oportuno, aí para baixo.

    É que não foi o “sargento” (nem me lembra o nome do homem) que foi (mal) condenado por um crime de sequestro.
    Nem foi o “militar da GNR” que foi interveniente no acidente com “o pai e filho” que seguiam num motociclo.
    Antes, são cidadãos que cometeram actos no âmbito da sua vida “privada” e que, sobretudo, têm um nome, não fazendo sentido a forma de os identificar, manifestando falta de respeito e estupidez de quem escreve as notícias.

    Bem que nestas alturas, faziam falta as luvas de boxe compradas pelo Nuno ::))

  13. O Aprendiz de Jurista diz:

    Essa é a pergunta que faço a JM desde o incio.
    Um sequestrador, com a sua arma apontada à cabeça de uma refém, é presumível inocente de quê?
    Ainda não respondeu.

  14. Ricardo Guerra diz:

    E se o sniper fosse israelita e o raptor palestiniano? Aí mudavas logo de cantiga, era canja.

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