Les belles lettres

Neste Verão, para visitar o meu amigo M., que agora mora no sul de Inglaterra, à beira do Avon, entre vários manors de belo efeito, atravessei duas vezes o Canal. Porque percorri rotas ainda desconhecidas, e graças também a uma prudente toma prévia de Vomidrine, pude apreciar devidamente ambas as viagens. A linha das costas, a silhueta das cidades, o tráfego marítimo, a agitação dos portos – tudo foi visto claramente visto, tudo foi motivo de interesse, tudo foi conversado e reflectido. Na viagem de regresso, reconheci a figura de J.-M.D., famoso pensador francês, que deu uma conferência em Lisboa há poucos anos; enquanto eu observava, notava, comparava – e sobretudo me divertia – J.-M.D. não saía do seu lugar, não via nada, parecia permanentemente absorto em algum problema de tão transcendente importância que o impedia de tomar contacto com o cenário exaltante que o rodeava. Devo retirar deste episódio a confirmação da superioridade da inspiração literária sobre a árida filosofia?

(Une histoire du petit Poulou, adaptação livre)

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SEXTA | António Figueira
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2 Responses to Les belles lettres

  1. ezequiel says:

    Não, caro António, não me parece. Depende dos escritores e dos filósofos que considerares na tua avaliação. A filosofia analítica é árida, de facto. Mas não é inconsequente ou irrelevante. Literatura árida? basta dares uma vista de olhos por tudo aquilo que se vende à saída do Continente (supermercados). A aridez está democraticamente distribuída por todas as áreas, julgo eu.

    AF: Caro Ezequiel, obrigado pelo comentário, mas repara que o próprio petit Poulou, quando adulto e filósofo, confessava que mais facilmente lia a Série noire que Wittgenstein.

  2. ezequiel says:

    Caro António,

    Eu não reparei no teu comentário. Não tenho por hábito reler o que escrevo. É sempre a 500kms p/h. Por vezes nem leio o q escrevo..enquanto escrevo, como já devem ter reparado.

    Este teu post deixou-me a pensar. Comecei a pensar nos escritores (q são poucos, nunca fui grande leitor de literatura, não sei porquê.) que conheço e nos filósofos que já li. A pergunta que me saltou para o córtex frontal foi a seguinte: quais foram os filósofos que li como se fossem escritores?? Lembrei-me destes:

    skip intro, (acaba na página 32)

    http://books.google.com/books?id=Rbu8w7Pz8ggC&printsec=frontcover&dq=totality+and+infinity&sig=ACfU3U2NLuBq4CamawA3bQ3f2N2ZRwKt1g#PPA33,M1

    http://books.google.com/books?id=cSeMJnLkEgMC&printsec=frontcover&dq=martin+I+thou&sig=ACfU3U1kMlEdnJIe5uxrOXVRf7YVRgwYfw#PPA16,M1

    http://books.google.com/books?id=pXxTAo8BKH0C&printsec=frontcover&dq=franz+rosenzweig&sig=ACfU3U1wKBGUKp9wFmpAkEWIB58xWstP2w#PPA9,M1

    http://books.google.com/books?id=yUhYYJ92r1gC&printsec=frontcover&dq=stanley+cavell&lr=&sig=ACfU3U2KE8_P7XrYGUgfGVOMi7OhYFRxtg#PPA3,M1

    existirão muitos mais, certamente. mas estes são os que eu conheço.

    Tens escrito muito pouco, António. :(

    E o nosso Sporting?? Este ano é que é. O Moutinho, que jogador magnifico!! Aquele guarda redes tem que ter juízo. Não se dá socos na bola assim, naquele tipo de situação (jogo com o Braga). Vamos lá a ver se é este ano que vejo os gatones na Champions’ League, comme il faut.

    Abraço,
    ezequiel

    AF: Querido Ezequiel, o petit Poulou não é senão o Jean-Paul Sartre e o meu episódio do Canal um remake da história do avô dele a atravessar o Lac Léman com o Henri Bergson ao lado (página 23 desta edição do Les mots). Quanto ao nosso Sporting, a Liga parece-me obviamente no papo (ainda não sei é de quem). Grande abraço, A.