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O que é relevante em Sarah Palin?

2 Setembro 2008 | por Palmira Silva

Como o Rogério já referiu, no fim de semana alguma blogosfera norte-americana esteve bastante animada recuperando os rumores que circulavam no Alaskauns tempos sobre a possibilidade de o quinto filho de Sarah Palin ser de facto seu neto. Mas o que fez o tráfico blogosférico aumentar não foram mexeriquices como esta, que poucos subscreveram, mas questões mais relevantes.

Aliás, Obama quando interrogado por um repórter da ABC sobre a gravidez da filha adolescente de Palin fez questão de o frisar:

I hope I am as clear as can be, so in case I’m not, let me repeat: We don’t go after people’s families, we don’t get them involved in the politics. It’s not appropriate and it’s not relevant.

Our people were not involved in any way in this and they will not be. And if I ever thought that it was somebody in my campaign that was involved in something like that, they’d be fired.

O que é então relevante em relação a Palin e que de facto ocupou a esmagadora maioria dos que devotaram o fim-de-semana a investigar a desconhecida candidata?

Não é o facto de ser completamente inexperiente em política internacional ou mesmo federal - a sua experiência política reduz-se a menos de dois anos como governadora do Alasca e a dois mandatos como presidente da câmara de uma cidadezinha com menos de 10 000 habitantes -, embora os comentadores conservadores que tanto atacaram a inexperiência de Obama se tenham apressado a dizer que Palin é mais experiente (?) que o candidato democrata, aparentemente pelo facto de o Alasca ser um estado próximo geograficamente da Rússia.

Embora muitos analistas questionem a escolha de alguém que há tão pouco tempo admitia candidamente não fazer a mínima ideia de quais eram as funções de um vice-presidente, os pontos relevantes a discutir sobre a candidata não advêm da sua falta de experiência política mas do que essa experiência política indica.

Um desses pontos parece ter sido a motivação da tentativa de alteração da entrada da candidata na Wikipedia, o facto de Palin estar a ser investigada por abuso de poder no chamado «troopergate». A história tem a ver com o despedimento de Walter Monegan, o comissário da Segurança Pública, (substituido por um individuo sobre o qual pendia um processo de abuso sexual e que durou quinze dias no cargo) por este se ter recusado a despedir o ex-cunhado de Palin. Não advoga muito em prol da candidata que mal tenha tido algum poder político, como os factos que vieram a lume indicam, o tenha usado para uma vingança pessoal mesquinha.

Também não caiu bem em muitos sectores que na sua primeira intervenção pública como candidata no ticket republicano Palin tenha mentido sobre a sua posição em relação à ponte para nenhures, um daqueles desperdícios do dinheiro dos contribuintes sobre os quais foi baseada boa parte da campanha de McCain. «Pork projects» que McCain promete erradicar mas de que Palin parece gostar muito, aparentemente.

Palin também mentiu em relação ao que pensa sobre o aquecimento global, ou pelo menos mentiu a sua porta-voz, Maria Comella, que afirmou:

«Governor Palin not only stands with John McCain in his belief that global warming is a critical issue that must be addressed, but she has been a leader in addressing climate change.»

Na realidade, a posição de Palin em relação a este tema está nos antípodas do declarado pela sua porta-voz. Aliás, em relação a todas as questões ambientais as decisões políticas de Palin são concordantes com a sua postura anti-ciência. A candidata que não atribui à acção humana quaisquer alterações climáticas não é muito apreciada pela maioria dos ambientalistas, que recordam, por exemplo, o que se empenhou em permitir o uso de helicópteros para matar os lobos, que diminuem as populações de caribus e alces que são o petisco favorito de Palin, ofereceu uma recompensa por cada lobo chacinado e gastou 400 mil dólares em panfletos para convencer a população da bondade da iniciativa. Também o facto de ter processado o Departamento do Interior por este ter declarado o urso polar uma espécie em risco de extinção faz prever que as suas posições em questões ambientais sejam um factor relevante para uma parte do eleitorado.

Diria que são igualmente relevantes as posições de Palin sobre questões sociais, que podem ser apreciadas nas respostas que forneceu a um inquérito elaborado durante a campanha que a elegeu. As respostas de Sarah Palin, uma ultra-conservadora religiosa que se opõe, por exemplo, ao uso de contraceptivos em qualquer circunstância, serão certamente importantes para o eleitorado feminino que apoiava Hilary Clinton. Aliás, diria que muitas mulheres norte-americanas estão completamente chocadas com a escolha de McCain e quanto muito esta escolha as fará voar para votar em Obama.

Os únicos que estão neste momento extasiados com a possibilidade de verem um dos seus na vice-presidência são mesmo os ultra-conservadores religiosos, como Pat Robertson, James Dobson ou John Schmalzbauer, um professor de Estudos Religiosos na Universidade Estadual do Missouri que escreveu:

«[E]vangelicals across the country” are excited about Palin. She is one of their own. The fact that she is open to creationism in the public school might scare non-evangelicals in suburban counties up North, but around here that will play well. So will her strongly pro-gun stance. Folks in the Assemblies of God that I know are extremely proud of her. They are also worried that her religion might be used against her».

De facto, embora Palin nos últimos dias tenha afirmado que não pertence a nenhuma denominação nem igreja, aquela que foi a sua até há relativamente pouco tempo tem ligações com «bat-shit crazy religious fanatics», o Exército de Joel sobre que escrevi no De Rerum Natura, pelo que os membros da sua supostamente ex-congregação têm alguma razão em estarem apreensivos.

Assim, estas são as razões porque acho que a escolha de McCain foi desastrosa e embora sem grande entusiasmo inicial pelo candidato democrata, este fim de semana tornou-me quase mais obamaníaca que o Rui.

Comentários

Comentário de Luis Moreira
Data: 2 Setembro 2008, 21:52

Uma mãe de família que defende fanaticamente a abstinência sexual antes do casamento, deixa que a sua filha de 17 anos engravide ? Com 5 filhos um dos quais deficiente não é melhor ficar em casa para tratar bem da família? É o que uma mulher americana sua apoiante, apareceu a dizer! Obama,inteligentemente,diz que é um assunto de família e, como tal, não tem que ter opinião,mas deixa entendido que quanto a quem tomou a decisão de a escolher….

Comentário de Rogério da Costa Pereira
Data: 2 Setembro 2008, 21:57

5 estrelas.

Embora eu não deixe de achar, como é referido por Scoblic no artigo que linko no meu post, que a notória pouca experiência de Palin faz da escolha um verdadeiro presente dado ao Obama.

Para quem tinha na idade e na inexperiência de Obama um dos principais trunfos, escolher uma candidata cuja principal experiência é ter sido mayor de um lugarejo no Alasca é um verdadeiro tiro no pé. Mesmo que seja mais experiente que Obama, alegação hilariante, retira da campanha a vertente da experiência vs inexperiência, trunfo que, em tese, jogava a favor de McCain.

(O trabalho que este post deve ter dado - tanto link, deus meu.)

Comentário de jc
Data: 2 Setembro 2008, 21:57

é caso para dizer: isso é que foi andar ao link!

Comentário de Luis Moreira
Data: 2 Setembro 2008, 21:59

Excelente artigo.Finalmente, alguem se deu ao trabalho de explicar o que está em causa. E com arte,coisa rara!

Comentário de ezequiel
Data: 2 Setembro 2008, 21:59

Palmira, este post está mega pro.

muito bom mesmo,

congrats, :)

Comentário de ana
Data: 2 Setembro 2008, 22:10

A Palmira não deixa por menos ;). E causa realmente espanto a escolha da senhora…ou não…

Comentário de Luis Rainha
Data: 2 Setembro 2008, 23:11

It had to be you… Até que enfim que alguém escreve coisas com pés e cabeça sobre esta senhora.

Comentário de Rogério da Costa Pereira
Data: 2 Setembro 2008, 23:34

E até convenceste o Luis Rainha que se trata mesmo de uma péssima escolha - o que não parecia fácil atendendo às 1as manifestações a propósito do assunto aqui no blogue. Ganda Palmira.

Comentário de Marco Oliveira
Data: 2 Setembro 2008, 23:35

Gostei do post, Palmira!
Alguns americanos pensam que podem eleger um vice-presidente ainda pior que o Dan Quayle!

Comentário de Palmira Silva
Data: 3 Setembro 2008, 0:40

obrigado pelos comentários.

Quando escrevi o post ainda não tinha a certeza sobre outra história que começou a surgir: de que Palin estava próxima do Alaskan Independence Party, que quer a secessão do Estado.

Entretanto a história já foi mais investigada e parece que tem fundamento.

Não deixa de ser irónico que quase ao mesmo tempo em que os conservadores americanos façam afirmações como Palin ser «the only person that’s a real American family person that’s come out in this election.» venha a lume que:

«This afternoon, the director of Division of Elections in Alaska, Gail Fenumiai, told TPMmuckraker that Todd Palin registered in October 1995 to the Alaska Independence Party, a radical group that advocates for Alaskan secession from the United States.

Besides a short period of a few months in 2000 when he changed his registration to undeclared, Todd Palin remained a registered member of AIP until July 2002 when he registered again as an undeclared voter.»

Mais aqui ou aqui, por exemplo.

Entretanto descobri quem também está deliciado com a escolha de Palin: as casas de apostas britânicas, que aceitam apostas sobre, por exemplo, se Palin durará até ao fim da semana :)

Comentário de LR
Data: 3 Setembro 2008, 10:52

Rogério,
Que péssima escolha? A mulher é sinistra e nunca disse o contrário; nem nenhum dos arguentos aqui apresentados tinha nada a ver com a tua reacção inicial.
Mas ela vai agradar em cheio a quem estava destinada: a turba fundamentalista. Mesmo a gravidez da filha ainda vai enternecer os votantes, com um lindo casório a meio da campanha e tudo.
Quanto a isso da sua “principal experiência é ter sido mayor de um lugarejo”, esqueces-te de que ela era governadora do Alaska há cerca do dois anos, tendo sido a mais jovem governadora da história daquele estado.

Comentário de bloom
Data: 3 Setembro 2008, 10:57

Palmira rules…

Comentário de aires bustorff
Data: 3 Setembro 2008, 10:59

Se é a Palmira do “ateísta”, que prazer relê-la, num excelente comentario bem fundamentado. Abraço

Comentário de M. Abrantes
Data: 3 Setembro 2008, 11:28

Comparado com esta Palin o nosso Sócrates parece porreirito.

Comentário de Rogério da Costa Pereira
Data: 3 Setembro 2008, 11:32

Luis: chegas a ser enternecedor.

Mas eu explico mais devagarinho: o que eu sempre disse foi que a senhora não acrescentava nada à candidatura do McCain; ou, se quiseres, tirava mais do que dava. Até ver, eu acertei e tu erraste. E imagino que para um ser superior como tu seja difícil admitir o erro. Quanto a isso do Alaska, já sei, paredes meias com o Putin e tal - deveras importante.

De qualquer forma, leva lá a bicicleta e, querendo, tem a última palavra.

Comentário de LR
Data: 3 Setembro 2008, 11:37

Sim, sim, Valupi, perdão, Rogério.

Comentário de Marco Alberto Alves
Data: 3 Setembro 2008, 11:39

Nos E. U. A., dois anos a governar o ALASCA está para Portugal, enquanto experiência política (nacional e internacional), assim como dois anos, por exemplo, em Presidente da Câmara de ARRONCHES (para quem não sabe onde fica, adianto que faz fronteira com Espanha, ao contrário do Município de Fronteira, que ouvi um repórter há uns dias qualificar de “raiano”)!

Mas lá que é uma gand’ALASCA…

Comentário de Rogério da Costa Pereira
Data: 3 Setembro 2008, 12:30

“Hey George, the ocean called - they’re running out of shrimp!”

Comentário de MARCUS
Data: 4 Setembro 2008, 15:03

A SITUAÇÃO DO JOHN MCCAIN VAI SE COMPLICAR AGORA, ESSA VICE QUE ELE ESCOLHEU PARA ROUBAR OS VOTOS DAS EX-ELEITORAS DE HILLARY CLINTON FOI UM TIRO N’AGUA, ESSA TAL DE SARAH PALIN FOI PREFEITA DE UMA CIDADE DO ALASCA, CUJA A POPULAÇÃO É MENOR QUE A DO BAIRRO PAULISTANO DE SÃO MATEUS, FORA ISSO O ALASCA É BEM ISOLADO COM UMA POPULAÇÃO MENOR QUE A DA ZONA LESTE PAULISTANA, E SE DE REPENTE MCCAIN É ELEITO E DÁ UM TRECO E MORRE, QUEM ASSUME É ESSA DONZELA QUE É MAIS INEXPERIENTE EM POLÍTICA INTERNACIONAL E MILITAR QUANTO O OBAMA.

Comentário de Manuel
Data: 5 Setembro 2008, 11:07

és linda, Palmira !
todos gostamos de ti…

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