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O que é o “novo progressismo”

2 de Setembro de 2008 por Rui Tavares

Vocês decidam-se, pá. Ou Obama é um político de plástico, ou Obama é demasiado radical. Ou Obama não quer saber da Europa, como diz Vasco Pulido Valtente, ou Obama cometeu um crime de lesa-pátria ao discursar para 200 mil pessoas em Berlim, como diz a direita americana. Ou Obama é um risco demasiado grande num mundo perigoso, ou não há risco, porque nenhum presidente consegue mudar a política internacional dos EUA (e como se explica Bush?). Ou Obama é um intervencionista ou um isolacionista (nenhuma das duas: em política internacional parece ser mais institucionalista e multilateralista do que é comum nos EUA). Ou o pessoal vota em Obama só por ser negro, ou por ele ser um intelectual com ideias a mais. Ou a esquerda europeia é cega no seu antiamericanismo, ou a esquerda europeia está cega na sua paixão por Obama. Não pode ser tudo verdade ao mesmo tempo.

Mas provavelmente a explicação para as contradições está nisto mesmo: a preocupação não é com o que está a acontecer, mas em reagir à reacção da esquerda europeia. É uma lástima, porque o que está a acontecer é mais interessante.

Obama é mais do que um candidato histórico por ser negro. O que ele fez na semana passada foi propor a reinvenção de uma tradição política: a do progressismo americano.

Mesmo neste curto espaço, sou forçado a precisar um pouco a terminologia. Na Europa, “progressista” significou em tempos um comunista que não queria dizer que era comunista. Não é disso que estamos a falar. No panorama americano o “progressivism” é uma tradição que tenta superar a polarização habitual em duas famílias: conservadores mais à direita e liberais mais à esquerda, com claríssimo ascendente dos primeiros na última geração.

O domínio ideológico conservador, que vem dos tempos de Reagan, trouxe consigo o triunfo da “trickle-down economics”: cuidar do topo da pirâmide onde estão as grandes empresas e os ricos e esperar que os seus investimentos acabem por “pingar” para quem está em baixo. Só que em tempos de crise não pinga nada, e a ideologia dominante diz que tudo o que o governo fizer para ajudar quem está em baixo é pernicioso. É o momento para virar esta narrativa do avesso.

Nenhum candidato presidencial democrata da última geração foi tão claro, como Obama na semana passada, ao denunciar a “sociedade de proprietários” (ownership society) como não passando da sociedade do “desenrasca-te a ti próprio” e ao defender que uma sociedade com justiça social resiste melhor às crises e as supera mais depressa. Coisa curiosa: o trecho onde ele expôs o seu ataque veio de um discurso feito há mais de três anos numa universidade americana, muito antes de ser candidato. Não o digo para lhe elogiar a coerência, mas para notar uma coisa muito mais importante. Ele acredita, com razão, que este discurso pode ganhar.

O entusiasmo da esquerda europeia explica-se então facilmente. Há muito tempo que ela vê os buracos na narrativa liberal-financeira dominante; mas não tem nada para propor em troca (a prestação de Ségolène Royal em França foi uma espécie de apogeu do vácuo). Pessoalmente, nem tudo me agrada no “novo progressismo” de Obama, a começar pelo seu genuíno paternalismo; digo também, desde a primeira crónica do ano, que nenhuma das suas propostas se concretizará sem forte oposição dos beneficiários da política dominante.

Mas confesso: é uma beleza ver surgir um discurso claro à esquerda, com o qual teremos muito a aprender na Europa. E uma beleza maior ainda ver que os seus adversários só lhe sabem reagir, mas não lhe conseguem dar resposta.

01.09.2008, Rui Tavares

Comentários

Comentário de Fernando Penim Redondo
Data: 2 de Setembro de 2008, 10:09

Rui Tavares lança neste texto um conjunto de confusões.

Será que ele está convencido de que Obama vai mesmo “virar esta narrativa do avesso” e pôr em causa a “sociedade de proprietários” ? Ou serão apenas figuras de estilo para comunicar que vai reforçar as políticas sociais ?

Rui Tavares esclarece que Obama não é “um comunista que não quer dizer que é comunista” mas será Obama um social-democrata que quer parecer um comunista ?

Os políticos europeus, como Sócrates, descobriram muito antes de Obama a “terceira via”. Como “superar a polarização habitual” através das políticas sociais que disfarçam a “sociedade de proprietários”. Por isso Rui Tavares diz, com razão, que não “têm nada para propor em troca”.

A única novidade parece ser tudo isto estar agora, para gáudio da esquerda europeia, a acontecer na América. Se Obama fizesse os seus discursos na Europa, se fosse um político europeu, estaria agora a ser tratado como uma fonte de esperança ? Duvido.

Comentário de l.rodrigues
Data: 2 de Setembro de 2008, 10:15

Só uma pequena correcção quanto ao “trickle down economics”. Em tempos normais, pinga pouco ou nada, em tempos de crise, chove para cima.

Comentário de A.Silva
Data: 2 de Setembro de 2008, 11:10

Do pouco que consegui ouvir das intervenções do senador Obama pareceu-me efectivamente que até agora as suas opiniões são bastante diferentes para melhor dos politicos americanos que temos conhecido de há bastantes anos até agora.Vi na CNN alguns directos da Convenção com entrevistas aos delegados e tocou-me especialmente ver homens e mulheres negros da minha idade e mais velhos com as lágrimas a correr nas faces quando o candidato foi aclamado na Convenção,ganhe ou não as eleições aquela dia é um dia histórico na democracia americana.Em relação ás propostas no que toca á segurança e á politica externa não estou ainda bem esclarecida mas espero pelos debates entre os candidatos para verificar quais as diferenças.

Comentário de Gilson
Data: 2 de Setembro de 2008, 11:10

Lido num comentário de um leitor d’”O Globo” (www.oglobo.com.br) numa notícia sobre as eleições americanas:

sandrabarret
01/09/2008 – 23h 22m

Elsupremo, é isso aí.
Já disseram no Rio que o Obama tem a elegância do Cartola com o sorriso do Paulinho da Viola!

Comentário de Ant.º das Neves Castanho
Data: 2 de Setembro de 2008, 11:39

Obama é um peito cheio de ar e vento? Obama é uma moda tola e passageira? Obama não tem “unhas” para a “guitarra” a que se está a “fazer”?

Acho que a melhor resposta a estas perguntas é dada pelos seus próprios opositores e detractores: se ele não tivesse importância nem representasse qualquer ameaça, ninguém perderia tempo com ele!

Pois eu digo que se um Candidato já incomoda tanta gente, um PRESIDENTE incomodará muito mais…

Comentário de jcd
Data: 2 de Setembro de 2008, 11:47

“Ou Obama é um político de plástico, ou Obama é demasiado radical. Ou Obama não quer saber da Europa, como diz Vasco Pulido Valtente, ou Obama cometeu um crime de lesa-pátria ao discursar para 200 mil pessoas em Berlim, como diz a direita americana. Ou Obama é um risco demasiado grande num mundo perigoso, ou não há risco, porque nenhum presidente consegue mudar a política internacional dos EUA (e como se explica Bush?). Ou Obama é um intervencionista ou um isolacionista (nenhuma das duas: em política internacional parece ser mais institucionalista e multilateralista do que é comum nos EUA). Ou o pessoal vota em Obama só por ser negro, ou por ele ser um intelectual com ideias a mais. Ou a esquerda europeia é cega no seu antiamericanismo, ou a esquerda europeia está cega na sua paixão por Obama. Não pode ser tudo verdade ao mesmo tempo.”

Quase tudo meias-verdades. Mesmo para falácias, são muito básicas.

Comentário de Model 500
Data: 2 de Setembro de 2008, 12:23

“Ou Obama é um político de plástico, ou Obama é demasiado radical. Ou Obama não quer saber da Europa, como diz Vasco Pulido Valtente, ou Obama cometeu um crime de lesa-pátria ao discursar para 200 mil pessoas em Berlim, como diz a direita americana. Ou Obama é um risco demasiado grande num mundo perigoso, ou não há risco, porque nenhum presidente consegue mudar a política internacional dos EUA (e como se explica Bush?). Ou Obama é um intervencionista ou um isolacionista (nenhuma das duas: em política internacional parece ser mais institucionalista e multilateralista do que é comum nos EUA). Ou o pessoal vota em Obama só por ser negro, ou por ele ser um intelectual com ideias a mais. Ou a esquerda europeia é cega no seu antiamericanismo, ou a esquerda europeia está cega na sua paixão por Obama. Não pode ser tudo verdade ao mesmo tempo.”

Bravo!! Pelos vistos algumas verdades magoam mesmo. O JCD não conseguiu resistir. Já esperneou. Terá sido a dor assim tão grande?

Pingback de As eleições americanas e o “novo progressismo” « No fim da picada
Data: 2 de Setembro de 2008, 12:24

[...] economia, internacional Rui Tavares escreve no Cinco dias um interessante e esclarecedor post (O que é o “novo progressismo”) sobre as reacções de comentadores europeus (e portugueses em particular) a Barack Obama, que [...]

Comentário de Nuno
Data: 2 de Setembro de 2008, 13:03

Eu gosto do Obama, espero q ganhe e acredito q as coisas vão mesmo mudar, com mta resistência, mas vão mudar e só pode ser para melhor pq estes 8 anos do C student, provaram isso mesmo é um C student rodeado de “ladrões e chupistas”! Em resumo vão deixar aquilo na m…a e quem vier atrás que feche a porta!!
Mesmo que não gostasse do sujeito não me parece que McCain seja algum tipo de alternativa! É assim tipo o comentário do sr jcd! Não adianta nada, não diz nada, não justifica nada, são falácias e meias verdades porque sim!

Comentário de Luis Moreira
Data: 2 de Setembro de 2008, 13:20

O que Obama está a gritar ao mundo é que esta política neoLiberal não passa de ” ataquem que está aí á mão” e que tem como resultado esta crise
profunda,mais desigualdades e problemas novos que ninguem sabe como enfrentar.Já tive ocasião de dizer ao JCD que há teorias económicas que só são possíveis com cerceamento dos direitos das pessoas.Os boys de Friedman no Chile levaram a cabo medidas económicas que só foram possíveis com um sistema político antodemocrático.Nos US há 40 Milhões de pobres e 30 Milhões de pessoas que não têm acesso á saúde.Isto tem que ter uma resposta.E não é dar a cidadania americana aos jovens mexicanos para eles irem para a guerra no Iraque,por não haver jovens americanos que queiram defender a pátria…

Comentário de ezequiel
Data: 2 de Setembro de 2008, 14:42

bolas, é Obamania mesmo…

Rui, Obama Não é um esquerdista…e o seu discurso não é esquerdista …é progressista …Americano..

Comentário de ezequiel
Data: 2 de Setembro de 2008, 14:50

à esquerda e não DE esquerda

li o teu texto mt depressa. my mistake
sorry

à esquerda…ok :)

Comentário de De Puta Madre
Data: 2 de Setembro de 2008, 14:54

O Obama é Bo-ni-to! A mulher, não!

Comentário de PMA
Data: 2 de Setembro de 2008, 15:07

um político é apreciado pela sua rectórica? é claro q sim..política é percepção..
mas para analistas com o objectivo de mais alguma profundidade, basta-lhes ouvir palavras bonitas, misturadas com retóricas baratas?
claro q me agrada ver um negro como candidato a presidente..só mesmo nesse país tão vilipendiado tal poderia acontecer..
mas aparte disso, alguém tem acompanhado as análises feitas ao percurso político efectivo do senhor Obama no senado estadual de Illinois e no senado federal!? as suas efectivas votações? os seu efectivos discursos e escolhas políticas!?
Eu concordo q o gajo fala muito bem e q isso é muito importante..
mas será o “mais ” importante?!? o q ele fez qd teve de tomar as escolhas e opções decorrentes do seu cargo político não são tb relevantes, quiça mais até, para aferir do seu substrato!?

Comentário de rui tavares
Data: 2 de Setembro de 2008, 16:02

“Rui, Obama Não é um esquerdista…e o seu discurso não é esquerdista …é progressista …Americano..”

Ezequiel: lê o texto. É exactamente isso que eu escrevo:

“e fez na semana passada foi propor a reinvenção de uma tradição política: a do progressismo americano.

Mesmo neste curto espaço, sou forçado a precisar um pouco a terminologia. Na Europa, “progressista” significou em tempos um comunista que não queria dizer que era comunista. Não é disso que estamos a falar. No panorama americano o “progressivism” é uma tradição que tenta superar a polarização habitual em duas famílias: conservadores mais à direita e liberais mais à esquerda…”

Comentário de ezequiel
Data: 2 de Setembro de 2008, 16:29

sim, já li e pedi desculpas…

Comentário de ezequiel
Data: 2 de Setembro de 2008, 16:33

“progressivism” é uma tradição que tenta superar a polarização habitual em duas famílias: conservadores mais à direita e liberais mais à esquerda…”

sim, é isto mesmo…colocaria as coisa de forma diference: é um movimento ou tendência onde se juntam os conservadores + à esquerda com os liberais + à direita…eh eh ehe é o chamado “espaço de síntese” que pouco ou nada tem q ver com o dito “centrão”

Comentário de Carlos Santos
Data: 5 de Setembro de 2008, 16:00

Caro Rui Tavares,

Eu concordo com o que diz sobre Barack Obama. Mas isso é metade do copo. A outra metade é o susto que a RNC me pregou esta semana. Os discursos foram dominados pelo radicalismo conservador. O melhor ainda foi o do próprio McCain, ainda assim fraco, mas que analiso em http://ovalordasideias.blogspot.com/2008/09/anlise-do-discurso-de-john-mccain.html

Carlos Santos