A sede tem destas coisas
28 de Agosto de 2008 por Rui TavaresNo blogue da ex-revista Atlântico, Miguel Morgado escreve um interessante post de resposta ao meu comentário “Roosevelt contra Roosevelt” aqui abaixo. Começa assim:
Começo por um apontamento de estilo.
Independentemente do número de ocasiões em que todos os colunistas conservadores ou liberais-de-direita portugueses usarem o bordão “o facto em si mesmo não merece qualquer comentário“, independentemente de esse bordão parecer jeitoso e prático e de bom gosto, e independentemente do facto de (por exemplo) João Pereira Coutinho ou (por exemplo) Diogo Mainardi também estarem viciados nesse tipo de expressões, não se deve dizer que “x em si mesmo não merece qualquer comentário” e depois escrever três mil caracteres de comentário a x, e ainda por cima chamar x para o título “A Obamania tem destas coisas”. Por exemplo: para mim merece comentário o facto de Miguel Morgado dizer que x não lhe merece comentário e depois comentar x. Se não merecesse comentário, não escreveria estas linhas; escrevendo-as, ficaria muito esquisito dizer que Miguel Morgado não merece comentário mas mesmo assim estou a escrever este comentário a uma coisa que não merece comentário. Miguel Morgado não deve ter medo de dizer que uma coisa merece comentário quando deseja comentá-la: o merecimento é diferente do mérito; uma coisa pode perfeitamente merecer comentário por ser inábil, ou incorrecta ou simplesmente mal enjorcada.
É esse o caso do que vem a seguir. Segundo Miguel Morgado, eu comparo os dois Roosevelts não para daí extrair um qualquer sentido mas “para dar um erudito”. Pois segundo Rui Tavares, Miguel Morgado descompara Roosevelt e Obama não “para dar um ar erudito” mas para deixar claro que não sabe o que é uma comparação — não como intenção, note-se, mas como resultado. Por exemplo: será que eu sei que no tempo de FD Roosevelt foram arrebanhados para ”campos de concentração de dezenas [na verdade, centenas] de milhares de cidadãos americanos de ascendência japonesa [na verdade, todos os imigrantes de nacionalidade japonesa — issei —, mais filhos e netos mesmo que de nacionalidade americana — nissei e sensei —, em todo o território dos estados de Washington, Oregon, Califórnia e metade do Nevada sob o comando do general De Witt "um japa é sempre um japa" — neste livro é capaz de encontrar alguma coisa sobre o assunto]“. E daí? Será que eu sei que Roosevelt andava de cadeira de rodas? Será que eu sei que Roosevelt viveu um romance com a secretária da mulher? Será que eu já reparei que o Roosevelt tem a pele mais clara do que o Obama?
Acontece que eu escrevi em que plano eu desejaria que a comparação entre Roosevelt e Obama se confirmasse, e é até um argumento bastante elementar:
Apesar de elementar, é impressionante como muita gente acha que é esta questão que não merece comentário, mesmo quando é ela que está à frente dos nossos olhos, mesmo quando ela é apresentada como a conclusão inescapável do texto. Barack Obama, tal como Roosevelt, não foge a esta questão. Convido Miguel Morgado a comparar isto com o seguinte trecho de um discurso em que Barack Obama resume o seu pensamento geral:
Também pode aproveitar e olhar para esta imagem:
Suponho que a conclusão a retirar é que o candidato mais parecido com Franklin Delano Roosevelt afinal é John McCain: também tem o cabelo branco.
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Um nota final: Miguel Morgado escreve que «dizer que FDR, “tal como Obama”, “apareceu com um discurso moderado e unificador” é roçar o absurdo» porque FDR em 1936 pronunciou estas estupendas palavras:
«We had to struggle with the old enemies of peace — business and financial monopoly, speculation, reckless banking, class antagonism, sectionalism, war profiteering. (…) Never before in all our history have these forces been so united against one candidate as they stand today. They are unanimous in their hate for me — and I welcome their hatred»
Basta notar o verbo “apareceu” e a data “1936″. Em 1936 Roosevelt não tinha acabado de aparecer com o discurso centrista que o caracterizou no início: já era presidente em fim de primeiro mandato. Vou cruzar os dedos — com pouca esperança — para que Obama diga coisas destas daqui a quatro anos. Entretanto vou também cruzar os dedos — com um pouco mais de esperança — para que Miguel Morgado perceba uma coisa: quando queremos refutar algo que alguém escreveu é melhor não usar argumentos que confirmam aquilo que esse alguém escreveu.


Comentário de Marco Alberto Alves
Data: 28 de Agosto de 2008, 17:55
Lá mais abaixo há um Artigo em que se enunciam resumidamente algumas das formas de arrasar qualquer espécie de elevação intelectual num debate, sobretudo se ele é público, mais ainda quando ao vivo, principalmente na Rádio ou, ainda mais, na Televisão e também, bem entendido, na “blogosfera”.
Tenho curiosidade para ler a resposta do tal M. Morgado, assim o tempo mo permita. Mas sei já que, mesmo sem o ler, pela breve descrição aqui apresentada, me parece padecer de um dos piores métodos de arruinar uma discussão séria e que até (penso que) faltou à listagem “gibel” e que é o clássico “quando não houver um bom argumento à mão para defender aquilo que eu pensava à partida, mas que os factos provaram estar errado, deve-se deitar a mão a algo tido generalizadamente por bem-pensante àcerca do assunto e arremessá-lo para a discussão, ainda que descontextualizadamente, ou sobretudo nesse caso!”.
É como estar numa discussão sobre trânsito, por causa por exemplo de um acidente, e alguém vir dizer ao suposto culpado: “O sr. sabe que este gajo que diz que a culpa é sua tem o cão em casa e o maltrata selvàticamente” (a estupidez do exemplo é voluntária e consciente, apesar da falta de tempo…)!
É o que faz M. Morgado ao invocar outras decisões do Presidente Roosevelt para defender a sua argumentação sobre um assunto que nada tem que ver com a raíz dessa invocação.
Se perco tempo com isto, que não me afecta pessoalmente em nada, é porque constato ser um método muito utilizado pelos pensadores, ou vá lá, opinadores da Direita e que, curiosamente, como muito da arte retórica do actual neo-liberalismo, foi copiada dos velhos métodos de discussão marxista, que muito devem ter afectado os genes que originam a formação das meninges da ala anti-canhota.
É que este argumento é tão usado e abusado pelos prosadores e oradores desta sensibilidade política, que pode até constituir um caso de estudo sociológico…
Quanto à essência do tema, e apesar de não ser “obamaníaco”, acho que as palavras de Obama revelam pelos menos intenções louváveis e que eu próprio partilho e desejo para Portugal…