Para Marco Fortes

Oh meu Zeus, meu Zeus, vejam como estou indignado. Estou indignado, indignadíssimo!, com Marco Fortes, atleta português do lançamento do peso. Ao comentar o seu fraco desempenho nos Jogos Olímpico, Marco Fortes reconheceu que o seu corpo não responde tão bem de manhã: “de manhã é para estar na caminha — eu queria esticar as pernas mas elas só queriam estar na caminha”. Que é isto?! Em toda a minha vida, só ouvi um português dizer que “de manhã não funciono”: Sousa Franco. E foi preciso ter sido ministro das finanças duas vezes, presidente do tribunal de contas — um homem sério, portanto — para poder afrontar esse tabu.

Mas Marco Fortes fez pior: ainda teve o descaramento de sugerir aos outros atletas que valia a pena trabalhar para ir a Pequim, aos Jogos Olímpicos, pela “experiência”. O ultraje, o ultraje! Quem se julga este badameco para sugerir que participar num belíssimo evento desportivo, com atletas de todo o mundo, é uma boa experiência? Algum apóstolo do espírito olímpico?

Não sabe ele que o importante é só ganhar, ganhar pela pátria e pelos contribuintes que lhe “deram” uma bolsa, honrar a pátria e os contribuintes, dizer banalidades pela pátria e pelos contribuintes, ter juizinho pela pátria e pelos contribuintes?

Se esteve demasiado distraído enquanto lutava pelos mínimos olímpicos para reparar que neste país toda a gente se levanta cedo, é o melhor das respectivas áreas e vive uma vida de sacrossanto respeito pelo contribuinte, os dias seguintes lho ensinaram, através de um coro escandalizado de comentadores, jornalistas e políticos, que não se pode — não se pode! — fazer humor com coisas sérias e apreciar o desporto e o mundo porque são simplesmente o desporto e o mundo. E se estava demasiado longe para ver toda aquela gente sisuda fazendo tsc-tsc-tsc com os músculos faciais bem espremidos, logo foi recambiado para Lisboa com um bilhete de avião suplementar — que o dinheiro dos contribuintes nunca é demais para dar lições a quem merece.

***

Pois bem, Marco Fortes, deixa-me tratar-te por tu: espero sinceramente que não consigam vergar-te, moldar-te, ajoelhar-te. Que neste país onde inventaram a lobotomia, não consigam lobotomizar-te: o resultado seria ver-te, como já vi na televisão, pedir desculpa pelas declarações “infelizes”. São agora declarações infelizes não culpar o árbitro mas a si mesmo, reagir como se não fosse o fim do mundo e sugerir que estar nos Jogos Olímpicos é, por si só, uma experiência fantástica? Que diz isso sobre nós como país, não desportivamente, mas moralmente?

Como muitos portugueses dei por mim emocionado com a medalha de ouro de Nelson Évora. Mas deixou-me desconfortável saber que, à mesma hora, não poderias estar ali para festejar com o teu colega. Não pensaram os senhores burocratas que para haver um Nelson Évora houve outros Marco Fortes que participaram nas mesmas provas, e que os Jogos Olímpicos são feitos de muitos não-campeões, e feitos para eles também? Não; tinham de condenar-te a um castigo inútil e sem objectivo que deveria estar reservado para quem faz batota ou recorre ao doping.

Quem te condenou, caro Marco, está já condenado: a uma vida sem humor, a ter de provar que é sério, mais sério do que toda a gente. É uma vida triste e seca. Como atleta, poderias só lhes dar ouvidos quando eles conseguirem chegar aos mínimos olímpicos. Eu sugiro outra opção: só ligar à indignação dos comentadores portugueses, dos jornalistas portugueses, dos portugueses portugueses, quando um dia eles conseguirem não estar sempre indignados por qualquer coisa.

Sobre Rui Tavares

Segunda | Rui Tavares
Este artigo foi publicado em cinco dias. Bookmark o permalink.

74 Responses to Para Marco Fortes

  1. Nuno V. diz:

    Ó Luís Moreira! Essa ideia de que o Marco Fortes estava a ironizar é uma invenção do Rui Tavares. O Marco Fortes é mesmo um lobotomizado a priori — daí a história da caminha.

  2. Lamento destoar (para mais num escrito do Rui Tavares), mas o Desporto, a este elevado nível, não é de todo para ser levado “na desportiva”.

    É um pouco como o Humor, que só para quem não sabe o que custa criar pensa que é feito na brincadeira.

    Estou-me marimbando para que o bacano Marco Fortes se vergue ou não. É-me indiferente. E é lá com ele.

    Por mim, prefiro rir-me só quando acho graça e chorar se me sinto triste. Também acho exagerada a punição, mas lá que se pôs a jeito, não são Artigos como este que o vão ilibar…

  3. manuela diz:

    Recentemente foi criado o curso de equivalência ao 9º ano de escolaridade – Jogador/a de Futebol – para jovens com um historial longo de reprovações e do qual não consta uma única disciplina académica. No currículo, para além do manejo da bola e outros adereços, há um capítulo dedicado às relações públicas.

    Assim:

    “Identificar e aplicar os vários aspectos das relações públicas, de forma a construir, manter ou reformar a reputação positiva do jogador de futebol.

    Relações públicas

    As relações públicas
    − Conceito e organização das relações públicas
    − Tipologia das relações públicas
    − Aspectos sociais do trabalho de relações públicas
    − Os jornalistas
    − A conferência de imprensa
    − Etapas de um plano de actividades de relações públicas
    Redigir e enviar uma comunicação
    Organizar uma sessão de fotografias
    A entrevista na rádio
    A entrevista na televisão
    Relações com a imprensa, clube, e com os colegas e treinadores”

    Isto para além de ensinar a passar cheques, gerir créditos bancários e outras práticas desportivas análogas. Do Português, da Matemática, do Inglês ou das Ciências, nem sombra. Só o indispensável para escrever o nome e se fazer entender pelo gestor de conta, o que já por si já constitui um exercício físico considerável.

    Parto do princípio de que o tal Marco terá feito uma escolaridade regular, saberá ler, escrever e contar, e que portanto lhe faltam na formação de atleta conhecimentos de gestão da imagem, que sinceramente me parece que a escola descuida. E mal porque, vendo bem, parece que são determinantes para a boa prestação desportiva e justificar os nossos impostos.

  4. Antónimo diz:

    Vicissitude(s), Li bastamente a Constituição, versão de 1976, que andava por casa dos meus pais. Nunca tal proibição me recordo de ter visto, até por isto não se tratar de um assunto onde Portugal nunca foi tido nem achado. Indique-me por favor o articulado, para que lhe possa dar razão.

  5. Luis Lavoura, entenda uma coisa.

    A “comunicação” social não serve de arremesso ideológico como o Rui Tavares escreve, porque uma coisa é a declaração e os termos de uma declaração, outra é o desempenho do atleta. Outro ainda é o país que temos que não dá apoio aos atletas, mas pede deles uma imagem que não lhe dá.

    Ou, o flip-flap do Presidente do Comité.

    Mas, sejamos claros, para lá da “comunicação” social, todos sabemos o que é a comunicação social e se uma pessoa vai a um evento daquele gabarito, tem de saber o que falar, principalmente à TV Portuguesa.

    Porque é que defendem uma prestação miserável, quando a discussão é sobre A DECLARAÇÃO EM SI?!

  6. z diz:

    olha um kpk’uazona destas

  7. Vicissitude(s): “Mas, sejamos claros, para lá da “comunicação” social, todos sabemos o que é a comunicação social e se uma pessoa vai a um evento daquele gabarito, tem de saber o que falar”.

    Podemos concluir que advoga uma alteração nos métodos de selecção dos atletas?? Além dos mínimos têm que se sujeitar a uma … entrevista de selecção??

  8. Mariana:
    Talvez a “betinha” do Judo tenha o seu Q de razão … Eu, na minha opinião estético-visual, acho que foi o raio daquele tótó palerma que ela passou o tempo a arranjar …

    Outra vez: vai uma aposta em como a China vai por aí abaixo nas medalhas de Ouro nos próximos JO?!

  9. David Fernandes, a sua acefalia é o ónus da cultura Portuguesa.

    Já ouviu a expressão; – Nem tanto ao mar nem tanto à terra. ????

    Ninguém pede que ele recite Proust, verbos, tabuadas.
    Pedem-lhe BRIO e ponderação quando fala principalmente à NOSSA comunicação social, e acima de tudo UMA atitude ponderada.

    Se há quem ache que foi uma atitude PONDERADA com ou sem razão é porque está preso a um debate PARVO.

    Não está nem nunca esteve em questão os “mínimos” e os ditos descontos. Metade de Portugal nem desconta devidamente e ninguém se preocupa com isso. É, acima de tudo a imagem que Portugal tem de si, mas com o sentido inverso; CAI MAL.

    Sim é unânime, que definitivamente se tem de fazer modificações nos métodos de selecção, triagem, FORMAÇÃO….
    Enfim, tudo questões que estão para além do comentário. Só acho parvo, pessoas como o Rui Tavares advogarem e aplaudirem como causa da “esquerda” moderna, uma atitude que faz “oposição” à direita carrancuda e conservadora. Caramba, bastava uma simples frase. Ponto final a coisa morre.

    Resolução? acabou por se tornar paródia e para 2014 acontece a mesma coisa, só que não sai pela comunicação social.

    Como em tudo.

  10. João Nunes diz:

    Deviamos era tar a discutir o anúncio da recandidatura do malfadado Presidente do Comité Olímpico Português.
    Pois eu faço já aqui a minha declaração de voto: a dele foi a pior prestação portuguesa em Pequim!
    Como é que alguém com posturas tão oportunistas pode não ser objecto de relevante censura pública?
    O atirador do peso isto, o atirador do peso aquilo. Mas a alguém passa pela cabeça que os atletas portugueses tenham ido para Pequim fazer turismo?! Já não posso dizer o mesmo do resto da comitiva portuguesa de acompanhamento.
    Ao fim e ao cabo quem mais deve ter ganho com a participação portuguesa no J.O. foram mesmo as marcas que se colaram à imagem de dois ou três atletas portugueses: Nike, Modelo. Quem pagou o Resort?
    “É pá, fogo! Q tenho q ir agora ali correr pela guita”

  11. Eduardo Correia diz:

    Assim, numa entrevista de emprego e cumprindo todos os requisitos demandados, é-me atribuído o lugar na empresa. O último posto de uma linha de produção.
    Não correspondo aos objectivos pretendidos, após, somente, um dia. Sou chamado ao gerente responsável, este que por sua vez havia já conversado com o director de recursos humanos sobre a minha contratação;
    – Então, não está a produzir, que se passa?
    – Nada de especial, é que “de manhã é para estar na caminha — eu quero esticar as pernas mas elas só querem estar na caminha”.
    E esta, hein?!

  12. Renatinho diz:

    Vicissitudes, deixe-se de merdas. O gajo do peso, provavelmente, sua mais num treino do que você sua num ano, fez os mínimos olimpicos, que não está ao alcance de qualquer um, e agora só porque ele cometeu um lapso, você vem falar em brio e em ponderação? Raio de povinho de merda, que está em último em tudo, inclusive na educação e boas maneiras, e vem depois descarregar assim as suas frustações.

  13. Tárique diz:

    Eu gosto muito do Marco Fortes. Além do fantástico sentido de humor é o melhor lançador do peso português e o primeiro a levar portugal aos jogos olímpicos nesta categoria (com o resultado esperado para alguém que estava em 34º do ranking). Ri-me sozinho a ver televisão quando ele se saiu com aquela do “eles podem ser grandes mas não são Fortes”.

    Rui, ao 63º comentário suponho que não estejas a ler, mas caso estejas:

    Eu lembro-me de me deliciar com posts teus no barnabé às 4 da manhã, quando estava acordado a estudar, em particular, quando ouvi as declaraçõs do Marco sobre a “caminha”, além de pensar “porra, o gajo tem mesmo razão” ocorreu-me um post em que referias um estudo que dizia que a super-trabalhadora Singapura acorda para trabalhar às 11 da manhã. Lembras-te dele ? Não consigo encontrar o link.

  14. Caro Vicissitude(s):

    Se estivessemos preocupados com as capacidades oratórias dos nossos atletas, nunca teriamos um Carlos Lopes, uma Rosa Mota, …, e um Eusébio, e um Cristiano Ronaldo, etc, etc.

    Quanto à minha acefalia, e porque não vejo onde o tenha brindado com mimo similar, estou quase certo de que foi um lapso, daqueles que acontecem no calor de uma conversa como estas; de vida ou morte.

    Se não foi lapso olhe, é um argumento de tal peso que me verga, confesso.

    E já agora, o(a) Vicissitude(s) parece mesmo a pessoa indicada para explicar ao Marco Fortes o que significa ponderação.

  15. João Nunes:
    “Deviamos era tar a discutir o anúncio da recandidatura do malfadado Presidente do Comité Olímpico Português.”
    Fiquei fã do Jorge Vieira. … também me pareceu q o Sr. xutou ao sabor do sopro do vento.
    ………..
    Que tal a PT oferecer o Serviço despertar ao Fortes?? …

    ……..
    E já agora: já é tempo da humanidade começar a valorizar mais a NOITE, sem ser pelo tolo lado da Boémia.

    (ÀS 9 horas da manhã todos os dias são medonhos … )

  16. Tárique:

    Acabe de ler a última frase do teu cmtr … já sei para onde vou! Fixe, porreiro, Pá!UAUUUUUUUUUUUUUUUUUUU ( vivo mesmo na aldeia!, n é grave … faz-me lembrar a história da conversa dos meus vizinhos velhotes a censurarem um outro “que, agora, com 83 anos é que tinha começado a trabalhar” … eh eh eh episódios de aldeia)

  17. Rais’ma parta; devo ser mesmo lóló de todo.

    Vicissitude(s), explique como é que a atitude «faz “oposição” à direita carrancuda e conservadora» e, já agora, onde é que o Rui Tavares a aplaude «como causa da “esquerda” moderna.»

  18. Renatinho, o atrasado é quem pensa que os “mínimos” são um feito sobre-humano.

    Há tanta mediocridade, tanto que vão lá todos parar com o erário público.

    Não está em causa o feito ou a prestação do Marco Fortes.
    Está o comentário descabido.

  19. atom diz:

    O novo herói do país favela…

  20. tarique: obrigado pelos comentários. não me lembro exactamente desse estudo sobre singapura. o que eu me lembro é que mais ou menos por essa altura saiu um estudo internacional sobre os países em que as pessoas se deitavam mais tarde ou levantavam mais cedo. portugal estava entre os que se deitavam mais tarde (ou era mesmo o primeiro na lista?), junto com a espanha e a itália — e também o vietname e a coreia do sul. curiosamente, a coreia do sul e o vietname voltavam a aparecer entre os que se levantavam mais cedo (talvez não queira dizer que dormem pouco mas que duas metades da população fazem horários muito diferentes).

    obrigado também a todos pelos outros comentários.

  21. LF diz:

    já fechou a loja?? só queria acrescentar que “avanti, Fortes!”
    pt é assim, projecta os seus falhanços nos atletas e futebolistas. rico património emocional e cultural.
    excelente, caro rui, chapelada.

  22. Laura diz:

    É engraçado este país condena o atleta Marco Fortes – que confessou o seu redondo falhanço nos Jogos Olímpicos, em directo e sem problemas, como a imprensa gosta -, e em simultâneo elege como reis os jogadores de futebol, que estão desde há muito tempo a chegar “quase” lá, e que sempre que lhes perguntam o que falhou acham que não falhou nada…
    Pelo menos com atletas como o Marco Fortes o desporto é vivido com entrega honesta, já com os segundos as competições internacionais servem para a eterna troca de jogadores entre clubes milionários, devidamente patrocinada pelos contribuintes portugueses.
    Os jogadores de futebol não ficam chateados por não levar o futebol português mais longe quando não ultrapassam uma fase importante de qualificação, ficam a fazer contas de cabeça sobre que clube os pode contratar e quanto dinheiro a menos valerão na época seguinte.
    Aliás nem se esforçaram por participar na competição de futebol dos jogos olímpicos, se calhar porque o prémio é muito “pequenino”…
    Um bem haja aos atletas honestos e sem o rei na barriga!

  23. Pingback: cinco dias » Gostamos mesmo é de Governos Fortes!

Os comentários estão fechados.