Dormindo com o inimigo

Longe de mim menorizar o papel do homem na perpetuação de tradições aberrantes que resultam em agressões quotidianas a incontáveis mulheres. Mas olhem que quando se chega ao ponto de, como confessou um nosso comentador, se sentir, «como homem»,«uma imensa e profunda vergonha por sermos responsáveis por tanto, tanto sofrimento inútil», já fomos longe de mais. É que eu não sou só filho de homens (mesmo as feministas mais ferozes têm de viver com a secreta vergonha de terem mais material genético além do das mitocôndrias); e nada tenho em comum as criaturas que incendeiam as esposas, excepto o facto de ter pilinha.
Last but not least, olhem que aquele velho estereótipo da mulher agredida que se vira contra quem se interpõe, subitamente cheia de pena do seu “homem”, não vive apenas nos rosados sonhos catódicos da TV. Anda por aí, sempre mais perto do que imaginamos.

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10 respostas a Dormindo com o inimigo

  1. Luis Moreira diz:

    Eu não sei porque lhe bato mas ela sabe! Estão bem uns para os outros,as mais das vezes.

  2. o sátiro diz:

    Creio k o art’ 86′ do Código Penal do Irão institucionaliza a selvajaria.

  3. Se bem percebi o rapaz (António) é consumidor de ayahuasca e aquilo eram apenas toques rituais.
    Viva a liberdade religiosa.
    (curiosamente já vi a «diversidade cultural» defendida muitas vezes neste «blog»)
    Aquilo que Neira considerou uma agressão não seria, apenas, um transe místico consentido?

  4. ezequiel diz:

    não és filho de homens?!

    como é que conseguiste esta proeza?

  5. Luis Rainha diz:

    “só”

  6. ezequiel diz:

    ah, ok, não és filho SÓ de homenS…ou de mulhereS…

    obrigadinho pelo esclarecimento

  7. Rui diz:

    Luís,
    Claro que há mulheres responsáveis por muito do sofrimento das próprias mulheres. Sabemo-lo e há mesmo fotos que o documentam.
    No entanto, temos de admitir que o grosso da fatia da responsabilidade no horror cai sobre a parte masculina da humanidade, no passado e hoje em dia. Como é que eu sinto também essa responsabilidade, ou pelo menos parte dela, nos meus ombros? De várias maneiras.
    É como ser professor. Quando actuo, eu sei que estou a ser visto não só como a pessoa “Rui”, mas também como o “professor Rui”, ou seja, como alguém que se identifica e é identificado com uma determinada classe de pessoas. Pode ser irracional, mas eu não sou imune a isto e assumo essa responsabilidade.
    Por outro lado, eu não sou pessoalmente responsável pelos abusos violentos a mulheres, nem directa nem indirectamente (que eu saiba). Mas de cada vez que num jantar deixo as mulheres levantarem a mesa e eu fico sentado na conversa (ou de cada vez que acho piada a uma anedota misógina, ou outras coisas deste e doutros géneros), estou de certa forma a dar o meu aval a um certo grau de abuso; ou quando uma mulher me rejeita e eu sinto vontade de lhe fazer mal (por exemplo, dizendo mal dela), e bem tenho que me esforçar às vezes para não o fazer… bom, a verdade é que em nenhum destes casos me mantenho à parte, inocente e puro.
    Estou a tentar explicar, mas admito que não tenha razão. Mas é assim que eu me sinto. Sim, realmente com culpa.

  8. Luis Moreira diz:

    Rui quando um malandro bate numa mulher,por ser mais forte,é a lei da selva. Mas se ela o desculpa porque no seu conceito de “homem” subjaz o conceito de “macho” e aprecia , só podemos estar atentos se ela solicitar ajuda.E mesmo assim podemos ir parar ao hospital!

  9. Rui diz:

    Luís e Luís,
    Aprecia? Cheia de pena do seu “homem? Acreditam sinceramente nisso? Ou estão a deixar-se arrastar por estafados mitos masculinos?
    Eu aposto é que ela não tem confiança nas instituições (policiais e judiciais) e sabe que, mais tarde ou mais cedo, se tomar uma atitude que prejudique o seu “homem”, há-de acabar por ser espancada por ele (ou pela família dele, ou pelos amigos dele, quem sabe?), se calhar até à morte. É por medo e instinto de sobrevivência que ela vem defendê-lo, disso podem ter a certeza.

    (Mas realmente, realmente, nenhum de nós sabe mesmo o que a leva a fazer aquilo, apenas podemos fazer suposições. E eu acho que opto simplesmente pela que é mais verosímil)

  10. Luce diz:

    A psicologia não é a minha área, mas já li referências que associam essa “defesa” dos maridos por parte de mulheres abusadas a uma variante do Síndrome de Estocolmo e também a abusos psicológicos que podem fazer com que a mulher acredite que “merece”, ou que o abusador tome dimensões de tal modo maléficas que ela o acredita capaz de a matar ou aos seus familiares se não se mantiver calada….
    “My two cents…”

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