O problema dos ecopontos explicado por quem sabe, ou o estranho caso do chimpanzé que não era daltónico

Dei com este excerto de uma entrevista a José Rodrigues dos Santos graças à Liliana. Se já leram isto mil vezes, desculpem a insistência de quem esteve fora. Se ainda não conhecem, preparem-se para entrar num estranho e maravilhoso mundo:

«Há pouco tempo confessou à SÁBADO que não fazia reciclagem. Como é que escreveu um livro sobre causas ambientais?
Nunca faço falsas declarações. Se me perguntar objectivamente ‘Separa o lixo?’, podia dizer que sim…mas estava a mentir. Não, não reciclo. Porquê? Porque me faz confusão as cores e não tenho os ecopontos na minha rua. então, deixo de dizer a verdade? O sistema é com cores e eu sei lá qual é a cor do vidro! Devia ter um sistema de sinalização mais friendly e muitos mais ecopontos espalhados pelas ruas. Tudo o que é simples funciona, o que é complicado não funciona. Quem inventou isso, inventou mal.
Mas a campanha aos ecopontos até tinha um chimpanzé que aprendia a separar o lixo em poucos dias pelo facto de ser de fácil entendimento…
Mas não é! Você sabe para qual é o vermelho? Então escreva também isso, que você não sabe! Como o comum das pessoas a não ser que seja muito activista. É como fazer jornalismo: se eu digo uma coisa no ar e as pessoas não entendem, a culpa não é delas, é minha. Se as pessoas não estão a registar o sistema das cores a culpa é de quem concebeu o sistema, têm que pensar de maneira diferente. Em vez de se indignarem têm é que resolver o problema.»

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14 Responses to O problema dos ecopontos explicado por quem sabe, ou o estranho caso do chimpanzé que não era daltónico

  1. A generalização é deliciosa: se eu não sei, logo ninguém sabe. Mas o que acho mais surpreendente não é o facto de J.R.S. não conseguir relacionar as cores com a funcionalidade, mas sim o facto de não perceber as instruções inscritas em cada um dos contentores: é que o homem nem precisava saber ler.

  2. o rodrigues dos santos não tem razão no que respeita às cores e à sinalização dos ecopontos, mas tem no resto.

    há, por exemplo em lx, bairros onde não há ecopontos. o meu, a sé, é um deles. logo, se eu quero reciclar, isso implica uma dose de trabalho espantosa, que nem toda a gente está disposta a ter. eu tenho-a — mas isso implica acumular quilos de papel, vidros e embalagens em casa, ou, mais concretamente, no patamar da minha casa, coisa que os meus vizinhos decerto não apreciam. quando tenho a quantidade suficiente, telefono para a linha azul do lisboeta e solicito uma recolha. no dia aprazado, deixo tudo na entrada do prédio (do lado de dentro, de outro modo ocuparia todo o passeio) e o serviço da câmara toca à porta e carrega aquela bodegada — que, obviamente, tive o cuidado de limpar por causa de cheiros e bichos.

    imagino que nem toda a gente tenha pachorra para isto — e acho mesmo que não tem de ter. parece-me óbvio que o sistema deve ser facilitador e não árduo, e é nisso que jrs tem razão.

    depois, claro, há gente que abusa da estupidez, como quem enfia lixo comum nos ecopontos ou os transforma em lixeiras, com dezenas de sacos a escorrer porcaria lá encostados. e há a limpeza ineficiente dos ecopontos — uma vez, há uns anos, liguei para a câmara a questionar esse facto e foi-me dito que os ditos equipamentos eram lavados 2 vezes por ano. o que explica o cheiro e a sujidade indescritíveis que caracteriza a maior parte e que obviamente não contribui em nada para a consciencialização ambiental.

  3. Luis Moreira says:

    Este é o gajo “…do mar de leite em que se afogavam as mamas…” extraordinária vertigem poética de quem vende 500 000 livros.Mas o rapaz não sabe ler nem ver onde colocar o lixo.Este gajo escritor devia ter vergonha de dizer uma barbaridade destas,mas não,pelo contrário,dá uma de grande gajo que não está para as coisas comesinhas,merdas do dia a dia,que estão bem para os compradores dos seus livros.Ele nem sequer compreende que ocupando algum tempo com uma tarefa meritória e cívica talvez lhe restasse menos tempo para figuras rídiculas de grande intelectual.

    Oh! Zé, chafurda no lixo que ajudas a acumular! —————————————————————————————————————————————————————————-

  4. Maria João Pires says:

    Luis, tens o link do post marado.

  5. Ze dos Reis says:

    O problema do JRS nao é se ele recicla ou nao, é que “verde – vidro, amarelo – plastico e latas, azul – papel”, fazem-lhe confusao as cores. o facto de muitas embalagens terem indicado a cor do respectivo ecoponto passa-lhe ao lado. JRS quer um sistema mais friendly, so se tiver um macaco em cima do contentor a dizer-lhe onde deitar a garrafa. alias ate esta escrito no contentor, em letras, e em bonecos. como JRS nao tem um QI inferior a 50 aposto que se esta a cagar para a coisa, senao nao ia pelas desculpas asininas das cores serem complicadas. mencionava unicamente o facto de nao ter um ecoponto ao pe de casa. e disso a fernanda ja falou.

  6. dsm says:

    Realmente, tudo isto é demasiado complicado: queremos separar o lixo e deparamo-nos com uma salganhada de cores (não seria mais simples separar cuidadosamente o lixo e depois deitá-lo todo… num mesmo recipiente?), queremos votar e confrontamo-nos com vermelhos, rosas, laranjas e azuis variamente matizados e associados (não seria mais simples se houvesse apenas dois partidos, o branco e o preto, ou mesmo apenas um, tão cinzento quanto possível?); queremos conduzir e obrigam-nos a decorar os significados do verde, do vermelho e do amarelo (não poderiam ser todos recobertos de um tom tá-a-andar-e-fé-em-deus o mais reluzente possível?)…

    E, depois, se há muitos ecopontos, é porque – e até é verdade – são inestéticos, dificultam a circulação nos passeios, reduzem os lugares de estacionamento, etc.; se há poucos, é porque – e não é mentira – não incentiva a separação, obriga a grandes deslocações, eu sei lá.

    A propósito: alguém me sabe dizer em que recipente devo deitar o velho, em que recipiente devo deitar o rapaz e em que recipiente devo deitar o burro da velha história a que, como é óbvio, já ninguém liga e de que, portanto, me quero desfazer?

  7. Fernanda, concordo contigo, a organização do sistema é mal-feita e a quantidade de locais de despejo pouca, o que torna isto mais difícil de se fazer do que devia. A inacreditável má educação no espaço público do cidadão português não melhora as coisas nem facilita o exigir de mais às autarquias, que são quem gere isto.

    Nada disso desculpa as confrangedoras declarações de JRS – ele que diga que dá trabalho e não está para isso, mas não tente passar culpas. A minha filha tem 3 anos e já sabe de cor e salteado as cores da reciclagem, aprendeu na escola este ano; se um jornalista adulto tem menos capacidades cognitivas que ela, então devemos preocupar-nos ainda mais do que eu pensava com o jornalismo que se anda fazendo.

  8. Se o problema é onde deitar fora os livros (dele), só tem que decorar uma cor: AZUL! AZUL! AZUL! AZUL! AZUL! AZUL! AZUL! AZUL! AZUL! AZUL! AZUL! AZUL! AZUL! AZUL! AZUL! AZUL! AZUL!…

  9. Luis Rainha says:

    :)
    Acho que ele não os deita lá. Tira-os de lá.

  10. Ines Meneses says:

    Bem-visto, Luís. Devem ser as tais lamas orgânicas, com alguma embalagem à volta.

  11. AC says:

    Existem atrasados mentais que ao pe’ deste senhor sao pessoas absolutamente normais e com imensas capacidades.

  12. AGG says:

    Bem, acho que toda a gente está a atacar o homem mas tenho de concordar com ele no ponto mais importante: “Se me perguntar objectivamente ‘Separa o lixo?’, podia dizer que sim…mas estava a mentir. Não, não reciclo. (…) então, deixo de dizer a verdade?”

    Não percebo, o painel preferia que ele tivesse mentido ou não mentido para criar esta celeuma? claro que o óbvio é querer que toda a gente recicle, mas na eventualidade de uma pessoa não o fazer é correcto mentir numa entrevista e dizer que sim só para parecer muito moderno e eco-desenvolvido.

    Sauações

  13. LR says:

    Não. O que me parece grotesco é a desculpa inventada: a cena das cores é complicada. Mas o máximo é mesmo o topete do jornalista em mencionar o chimpanzé: o JRS deve ter espumado.