Cruzadas para todos os gostos

Acho muito interessante o artigo de opinião da Fernanda no DN, embora não concorde com ele e me escandalize mais a pergunta do DN do que a resposta de Pacheco Pereira. Não me parece normal esta pergunta: “Escreve num jornal onde há uma cruzada declarada contra José Sócrates?” . A ter sido feita ao entrevistado, o que se pretende saber aqui? Pelos vistos, dá-se por adquirida a “declarada” “cruzada” (já agora quem a declarou? a direcção do Público? o governo? o DN?) . Estando pretensamente estabelecida essa guerra santa do jornal da Sonae, pelos vistos, o que se pretende confirmar é se Pacheco Pereira escreve no Público, apesar de haver uma cruzada. O que como pergunta… é fraca.
Nunca concordei com o director do Público, mas francamente, não vejo nenhuma “cruzada”. Publicar notícias que podem ser desagráveis, para o governo ou outras entidades, chama-se jornalismo. Chamar-lhe “cruzada”…. chama-se o quê?

Adenda: Tendo lido este post, acho que o problema do jornalismo português não é uma, alegada, vontade de prejudicar o governo, mas uma falta de memória e capacidade de não cair em operações de propaganda governamentais ou outras.

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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15 respostas a Cruzadas para todos os gostos

  1. Nuno Ramos de Almeida,

    Não seria mais fácil fazer como noutros países e simplesmente cada jornal e editor publicar abertamente as suas opiniões pessoais e simpatias políticas para acabar com estas discussões bizantinas? Ao menos iria trazer mais transparência ao jornalismo ao dar mais informação de “contexto” ao leitor mais distraido.

  2. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Pedro Fontela,
    Estou de acordo consigo. Embora, a opinião do director não tem de ser a opinião dos jornalistas e todos sejam obrigados a cumprir as regras do jornalismo (procurar os factos, identificar ou responsabilizar-se pelas fontes e ouvir o contraditório, etc…).

  3. p. diz:

    Muito bem. Vai ser bonito vermos o João Pinto e Castro a chamar-lhe estúpido.

  4. p.,
    O João Pinto e Castro não precisa da sua ajuda para me tentar espancar.

  5. p. diz:

    É natural. Ele também não deve gostar da sua “ética jornalistica”.

  6. Caro NRA,

    Muito bem. O que faz falta em Portugal é um jornalismo que não tenha medo de desvendar o que está mal na política portuguesa. A sensação que fica é que há um receio inaudito em noticiar ou investigar o que está para lá dos press releases ou o que as fontes oficiais transmitem. O que se passou com o Magalhães é a prova do mau jornalismo que por cá se pratica. Se o Publico, ao longo dos últimos anos publicou algumas notícias desagradáveis para o Governo, só fez o seu trabalho. Pena é que outros media não lhe sigam o exemplo. E quando me refiro do PS, também se pode estender ao restante espectro partidário. É necessário investigar, interpretar e confirmar o que os políticos dizem. Não podemos ter um jornalismo meramente descritivo…

    Devo confessar que prefiro um jornalismo do tipo anglo-saxónico, onde os leitores sabem perfeitamente qual a orientação ideológica do jornal que lêem. O NY Times não deixa de ter credibilidade por ser tendencialmente liberal. Em Portugal temos uma mescla de independência e rigor, misturado, por vezes, com um certo jornalismo de causas que confunde o leitor. E existe demasiado apego aos poderes instituídos. É preciso liberalizar, de uma vez por todas, o jornalismo em Portugal.

  7. dsm diz:

    O único comentário que me ocorre é o de que, como é óbvio, os Pedros Namoras não acontecem só ao PCP (aliás, creio que, dado o comportamento de risco que o BE vem assumindo desde há ano e meio, era quase fatal que, mais cedo ou mais tarde, acabaria por ser infectado pela variante Nuno Ramos de Almeida).

  8. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Nuno Gouveia,
    Estou de acordo consigo. Acho, no entanto, que para além de ser necessário haver jornais e orgãos de comunicação plurais e não todos do mesmo lado, como hoje. Pergunte-se aos proprietários e directores de jornais qual a sua posição perante o pacote laboral e vamos descobrir que são todos favoráveis às “reformas”. E, para além disso, todos os jornalistas, independentemente das suas convicções políticas e opiniões, devem cumprir as regras do jornalismo.

    DSM,
    Nem sei o que lhe responder. Você, como de costume, sobre o concreto argumenta nada. Depois, a comparação com o Pedro Namora é muito inteligente, mas quer dizer o quê? Apoiar o governo não devia obrigar a escrever textos pouco inteligentes. Mas é a vida.

  9. PJMODM diz:

    Um bom exemplo de opinião ideologicamente comprometida, que não compromete a capacidade analítica e argumentativa. Os liberais em matéria política (no sentido novecentista, na linha de Stuart Mill) não se revelam nos discursos mas nas práticas, nas tomadas de posição que não são faceis e, por exemplo, envolvem amigos e adversários. Parabéns Nuno Ramos de Ameida
    PS- É óbvio que isso tem custos e o NRA sabe quais são (já os que não têm integridade em regra não sabem o que perdem).

  10. Pingback: cinco dias » ainda a resposta de pacheco pereira e a pergunta do dn e a minha resposta às perguntas sobre a pergunta (uff)

  11. Nuno diz:

    A pergunta parece-lhe fraca? Sinceramente, a mim muito fraca parece-me a posta! Totalmente ao lado do tema!
    Não o comparo ao tal do Namora pq tb não pretendo ofende-lo.
    Cpmts

  12. Sinto muito, gostos não se discutem, mas perante isto que escreve «Não me parece normal esta pergunta: “Escreve num jornal onde há uma cruzada declarada contra José Sócrates?”» só me apetece dizer que

    a mim, o que não me parece nada normal é que haja um jornal diário dito “de referência” cuja orientação editorial consista, unicamente, numa guerra sem tréguas e num combate pessoal à FIGURA do Primeiro-Ministro.

    Já me parece perfeitamente normal a pergunta feita a Pacheco Pereira, pois que simplesmente reflecte aquilo que a QUALQUER PESSOA OBJECTIVA E INTELIGENTE ocorreria de imediato perguntar se entrevistasse o mesmo intelectual e político reformado.

    Então onde é que está o problema da pergunta? Não devem os jornalistas tentar ser o mais possível intérpretes do “sentimento geral” dos seus leitores?

    Que estranhos critério de “normalidade” tem N. R. de Almeida, na minha humilde opinião…

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  14. Nuno Ramos de Almeida diz:

    António Neves Castanho,
    Com todo o respeito por si e pelos outros comentários que deixou neste blogue, acho a sua frase muito infeliz: você acredita , de facto, que o Público e os seus jornalistas não fazem mais do que atacar malevolamente sua excelência o presidente do conselho?
    Quero-lhe esclarecer que acho obscena a pergunta do jornalista do DN: ninguém do Público declarou uma guerra ao político e governante José Sócrates. O Primeiro ministro é que declarou perante as notícias sobre a sua licenciatura que estávamos perante uma cruzada. O que quer dizer que o jornalista DN faz da opinião política de sua excelência o presidente do conselho matéria de verdade absoluta e depois coloca-a como se fosse algo que os próprios jornalistas do Público tivessem declarado por debaixo do cabeçalho.
    Finalmente, nem sequer acho que o cronista Pacheco Pereira tenha admitido ser uma “cruzada”, alías , depois da frase citada pelo Câncio ele diz não achar tratar-se de uma “cuzada”.
    Os apoiantes do primeiro ministro e o próprio têm de habituar-se a viver com as críticas da oposição e as notícias que escrutinam o governo como um aspecto normal da democracia e da comunicação social e não como um “insulto”, “cruzada” ou “crime lesa majestade”.

  15. Prezado Nuno Ramos de Almeida, tenho de concordar que a minha última frase possa ter sido deamsiado dura e injusta para consigo e, por isso, aqui lhe venho apresentar as minhas desculpas.

    Sem prejuízo de mantermos o desacordo sobre o essencial: não estando em causa qualquer apreciação sobre “O Público”, muito menos sobre os respectivos jornalistas (aliás deve ter reparado no comentário que aqui deixei sobre este mesmo assunto, a um Artigo de F. Câncio, em que afirmava considerar perfeitamente aceitável a orientação editorial do jornal, assumida ou não!), continua a parecer-me natural a pergunta (se bem que obviamente provocatória, mas no bom sentido) sobre a suposta “cruzada” contra o P.-M., ideia muito comum que, lá por ter tido origem numa resposta política por parte de J. Sócrates, não deixa de estar generalizada entre os todos os observadores imparciais…

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