O besteirol dos 500 anos

No rescaldo da atribuição do Prémio Camões 2008 a João Ubaldo Ribeiro, achei que vinha a propósito recordar aqui um artigo deste autor, publicado em 2000, sobre a famosa polémica do “achamento” versus “descobrimento” do Brasil. Sobre este assunto, creio que o autor de Viva o Povo Brasileiro sabe muito bem o que diz. É um texto polémico, porém.

O besteirol dos 500 anos, João Ubaldo Ribeiro, O Estado de S. Paulo, 24/04/2000

Levando-se em conta nossa pitoresca realidade contemporânea, até que a quantidade de besteiras ditas e escritas sobre o controvertido aniversário do Brasil não dá para surpreender. O que chateia um pouquinho é que diversas dessas besteiras continuarão a perseguir-nos pela vida afora, algumas talvez trazendo conseqüências indesejadas. A principal delas, naturalmente, é a de que o Brasil começou em 1500, quando nem mesmo no nome isso aconteceu, posto que éramos uma ilha quando os portugueses primeiro viram as terras daqui e, durante muito tempo, o Brasil que duvidosamente existia não tinha nada a ver com o Brasil de hoje.

A impressão que se tem é que, do povo às autoridades e mesmo aos entendidos, acha-se que o Brasil já estava no mapa, com as fronteiras e características atuais, no momento em que Cabral chegou. Teria tido até um nome nativo, já proposto, pelos mais exaltados, para substituir “Brasil”: Pindorama, designação supostamente dada pelos índios ao nosso país. Não sou historiador, mas também não sou tão burro assim para acreditar que os índios tinham qualquer noção geopolítica, ou alguma idéia de que pertenciam a um “país” chamado Pindorama. Não havia qualquer país, é claro, nem sequer a palavra Pindorama devia fazer sentido para os ocupantes que os portugueses encontraram aqui, se é que ela era usada mesmo. No máximo, significaria o único mundo conhecido deles. Parece assim que os nossos índios administravam impérios e cidades como os dos maias, astecas ou incas, quando na verdade, que perdura até hoje, viviam neoliticamente e a maioria esgotava o numerais em três – era o máximo que conseguiam contar e o resto se designava como “muito”.

Como corolário disso, vem a tese de que fomos invadidos. Com perdão da formulação pouco ortodoxa da pergunta, quem fomos invadidos? Todos nós, salvante os mais ou menos 400 mil índios que sobraram por aí, somos descendentes dos invasores, inclusive os negros, que não vieram por livre e espontânea vontade, mas também não viviam aqui na época de Cabral e hoje constituem parte indissolúvel de nossa, digamos assim, identidade. Imagino que haja quem pense que, diante de uma delegação portuguesa, algum diplomata ou general índio tenha argumentado que se tratava da ocupação ilegal de um Estado soberano do Oiapoque ao Chuí e que aquilo não estava certo, cabendo talvez a intervenção das Nações Unidas.

Se a História tivesse tomado rumos um pouquinho diferentes, nossa área hoje podia estar subdividida em vários países diferentes, uns falando português, outros espanhol, outros holandês, outros francês. Do Tratado de Tordesilhas às capitanias hereditárias, aos movimentos separatistas e à ação do barão do Rio Branco, muita coisa se passou para que nos tenhamos tornado o Brasil que somos hoje. Ninguém chegou aqui e descobriu o Brasil já pronto e acabado (se é que podemos falar assim mesmo agora), isto é uma perfeita maluquice. O Brasil, é mais do que óbvio, se construiu lentamente e às vezes aos trancos e barrancos.

Compreende-se que nativos de países como o Peru, o México e outros, notadamente na América Central, se sintam invadidos. Até hoje são numerosos e discriminados, muitos nem falam espanhol e, quando aportaram os conquistadores, tinham cidades maiores do que as européias. Mas nós? Quem, com a notável exceção do amigo pataxó e da jovem senhora xavante que ora me lêem, foi aqui invadido? Vamos supor, já jogando no terreno da absoluta impossibilidade, que o chamado mundo civilizado ignorasse a existência destas terras até hoje. Teríamos aqui, não o Brasil, mas uns 4 milhões de nativos de beiço furado e pintados de urucu e jenipapo (nada contra, até porque furamos as orelhas, nos tatuamos e usamos batom, é uma questão de estilo), que não falavam as línguas uns dos outros, matavam-se entre si com alguma regularidade e cuja tecnologia não era propriamente da era informática. Brasil mesmo, nenhum.

Mas está ficando politicamente correto, suspeito eu que por motivos incorretíssimos, abraçar a tese da invasão do Brasil. “Nós fomos invadidos, fomos invadidos!”, grita em português brasileiro, a única língua que sabe, um manifestante mulato, em Porto Seguro. Será possível que não se perceba a vastidão dessa sandice? Daqui a pouco – e aí é que mora o perigo – entra na moda de vez e os resquícios das nações indígenas que ainda subsistem deverão aspirar à soberania sobre os territórios que ocupam. Como na Europa Oriental, cada etnia quererá ter seu Estado e sua autonomia, com bandeira, hino, moeda (dólar, para facilitar) e passaporte. Que beleza, forma-se-á por exemplo, depois de um plebiscito entre os índios, o Estado Ianomâmi, completamente independente e ocupando área bem maior do que muitos outros países do mundo juntos, reconhecido pelas organizações internacionais e protegido pelo grande paladino da liberdade dos povos, os Estados Unidos, que mandariam missionários e ajuda econômica e tecnológica e, dessa forma, investiriam desinteressadamente numa área tão pobre em recursos econômicos e que tão pouca cobiça desperta, como a Amazônia. E, se protestássemos, a Otan bombardearia o Viaduto do Chá, a ponte Rio-Niterói e o Elevador Lacerda, como advertência.

Cometeram-se e cometem-se crimes inomináveis contra os índios, que devem ter seus direitos assegurados. Também se cometeram e cometem crimes contra grande parte dos brasileiros não-índios, outra vergonha que precisa ser abolida. Mas isso não tem nada a ver com a tal invasão, assim como a outra série de besteiras intensamente veiculada, segundo a qual, se não houvéssemos sido colonizados pelos portugueses, estaríamos em melhor situação, assim como estão em melhor situação a antiga Guiana Inglesa, o Suriname, a Indonésia, a Nigéria, a Somália, o Sudão e um rosário interminável de ex-colônias européias, quando na verdade se trata de um caso claro de o buraco achar-se bem mais embaixo. Como é que se diz “babaquice” em tupi-guarani?

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14 respostas a O besteirol dos 500 anos

  1. AlbertoH diz:

    «se não houvéssemos sido colonizados pelos portugueses, estaríamos em melhor situação, assim como estão em melhor situação »
    Isso não convém nada, porque o Brasil quer abrasileirar o português daqui para servir as suas ambições e interesses, e um dos insultos combinados para atirar à cara dos defensores da Língua Portuguesa é o «nacionalismo português e o anti-brasileirismo».
    De facto há no Brasil um anti-portuguesismo evidente (que Jorge de Sena – naturalizado brasileiro – experimentou na pele e no bolso) que é um dos alimentos preferidos de um nacionalismo inflamado e bacoco alimentado muito querido pela esquerda de lá.

  2. António Figueira diz:

    Eu temo que o comentador anterior não tenha percebido que o João Ubaldo Ribeiro estava a brincar – porque ninguém no seu perfeito juízo pode achar que a Somália ou a Nigéria estão melhor do que o Brasil. E quanto ao anti-portuguesismo de alguns brasileiros, é tal e qual o anti-brasileirismo de alguns portugueses: não é de direita nem de esquerda, é estúpido apenas.

  3. A fina ironía e maior inteligença de J. Ubaldo R. pon ó dedo na chaga da inmensa estupidez e maluquice que arrastra a invençom da Historia, da que se alimentan todo-los nacionalismos, das cales temos cumpridas probas cos nacionalismos vasco, catalán e galego (espanhois mal que lhes pese), maestros da negaçom da Historia común, e recreadores dun pasado perfecto, nos que os respectivos povos vivían nunha ditosa ‘age d’or’, finalizada abruptamente pola chegada dos invasores espanhois. ¡Vivir para ver!

  4. Luis Oliveira diz:

    Excelente escolha!

  5. JDuarte diz:

    O povo é tão burrinho. Pensar dois dedos acima dá direito a prémio.

  6. Carlos Fonseca diz:

    O AlbertoH sofre de deslexia incurável. Até ao fim da vida, jamais compreenderá o que lê e provavelmente o que vê e ouve.

  7. Um texto sábio e hilariante.

  8. AlbertoH diz:

    A interrogação idiota que transcrevo não é do JUR, mas é comum no Brasil. JUR limita-se a brincar com essa bacoquice brasílica de que o exercício de história alternativa quanto à nacionalidade dos descobridores é umas das mais comuns e vulgares manifestações. E o patrioteirismo e nacionalismo vários, até ao anti-portuguesismo mais extreme, também são comus e cultivados pelas esquerdas. A colonização portuguesa ligada sobretudo à ideia de genocídio encontra-se em quase todos os manuais escolares. Se os leitores do 5dias desconheciam essas coisas comuns da vida brasileira – país que, de tão provinciano não produziu até hoje nenhuma figura universal (não há Borges – ou Pessoa – brasileiros – nem aproximações credíveis deles).

  9. Pedro diz:

    Machado de Assis?

    E até Jorge Amado ou Drummond estão perfeitamente ao nível do que se faz/fez em Portugal.

  10. AlbertoH diz:

    Caro Pedro,
    Nenhum deles é universal. Poderão vir a ser. Agora não são. O Brasil de universal tem a bossa nova, o samba e, em pessoa, talvez a imagem de uma portuguesa de Marco de Canavezes.
    Não digo se estão ao nível ou não, mas se são universais. E não são. Quanto a Machado, até o Bloom não conseguiu dizer dele senão que era o maior escritor de cor (o que para Machado teria constituído um insulto).

  11. Alberto H, tem andado distraído, a literatura brasileira está viva e recomenda-se – eu arriscava dizer, bem mais que a nossa. E isto é assumindo que o interesse de um país se mede pela literatura, o que já é assumir bastante.

  12. António Figueira diz:

    Al,
    A propósito de universalismo ou falta dele, V. parece-me um incurável provinciano, e do tipo ignorante. Machado de Assis é, usando qualquer padrão, um grande escritor universal (leia as “Memórias Póstumas” ou o “Memorial de Aires” e perceberá porque é que o insuspeito Harold Bloom o inclui entre os maiores prosadores mundiais do século XIX – de todas as cores) e, como já disse acima a Inês Meneses, a literatura brasileira está viva e recomenda-se: leia Rubem Fonseca ou Bernardo Carvalho e entenderá porquê. Quanto ao anti-portuguesismo brasileiro (o termo corrente na historiografia é anti-lusitanismo), tem duas fontes principais, por assim dizer: muito esquematicamente, uma é de “esquerda”, e resulta do jacobinismo brasileiro tardio, do fim do século XIX, e da identificação de Portugal com os Braganças, e outra é de “direita” e resulta do desprezo da burguesia fluminense, sobretudo, pelos Manueis e Joaquins analfabetos que constituiam o imigrante típico português da 2ª metade do séc.XIX/1ª parte do século XX. Permita-me um conselho: não fale do que não sabe e não tome os seus ressentimentos (anti-Brasil, anti-esquerda ou seja lá o que for) por iluminações; nunca são.

    PS Presumo que a prova do seu “universalismo” seja a adopção da heteronímia pessoana para fins de comentários nos blogues: Alberto.H, al, anónimo, etc. A diferença está em que os heterónimos de Pessoa eram de facto diferentes: V. topa-se à légua, porque é sempre igual: ressentido, preconceituoso, anónimo. Em suma, pequenino.

  13. al diz:

    Para o caso – não esperado, aliás – de algum estimado ( ou menos estimado) leitor deste blogue estranhar que não responda ao comentário supra, esclarece-se que al ou albertoH ou seja o que for de há muito que assentou não dirigir uma linha ao sr. figueira.

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