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Continuando a discussão

25 de Julho de 2008 por Ana Matos Pires

Depois de ler este post não resisto a recordar que a enormíssima maioria das campanhas é dirigida, e bem, à prevenção da infecção e não à informação sobre a doença. Já em relação às “reais probabilidades” e ao “risco de infecção”, como dizia noutro dia a infecciologista Emília Valada “estar vivo é condição necessária para ser infectado”.

Continuando a leitura - e depois de um breve momento de perplexidade porque achei que o autor estava numa conversa de “sigo para sigo”, a monologar – acenei com cabeça em sinal de concordância quando percebi que o João estava preocupado (está, não está?) e que considerava muito grave (considera, não considera?) ainda haver gente a achar “as probabilidades de infecção surpreendentemente baixas e a não perceber a noção de risco”. Por isso mesmo penso que nunca é demais passar a mensagem de que o bicho não tem afinidades electivas - é um igualitarista, digamos assim - e que a infecção não diz respeito a um qualquer grupo de risco restrito nem é própria de quem “frequenta a prostituição”.

O João Miranda, que tanto pugna pela informação, desanca as campanhas no seu todo e acaba por relevar como factor de eficácia das ditas o rigoroso conhecimento da percentagem de eficácia do uso de preservativo. Se não fosse grave tinha graça. Só por curiosidade gostava de saber se o João tem as vacinas em dia e se sabe a percentagem de eficácia de cada uma das vacinas que integram o Plano Nacional de Vacinação.

De uma vez por todas adoraria perceber qual é a alternativa preventiva ao uso de preservativo na infecção pelos HIV’s por via sexual - não paternalizando nem controlando as normas de conduta dos sujeitos, claro. Faço notar que, em rigor, é impossível garantir 100% de eficácia a qualquer medida preventiva dirigida à patologia infecciosa em geral, não só ao HIV.

A propósito de paternalismos e imposição de comportamentos, o que dizer de quem defende que a “melhoria dos hábitos conjugais”* - seja lá isso o que for - é um modo de controlar a infecção e de quem declara que o grosso da população é estúpida que nem um atum e, sem qualquer juízo crítico, “acredita”, “crê”, “tem a fezada” que deve usar o preservativo porque sim ou porque a mandam e que os homossexuais, contra toda a lógica ”mirandiana”, não devem ser discriminados na doação de sangue? Estas posições fazem-me lembrar uma frase que ouvi um dia a um Professor, “vim agora de um congresso em Genebra onde só génios éramos oito”.

Para terminar, juro que ficaria agradecida se alguém fizesse o obséquio de me explicar como é que se fica muito indignado com o facto de três décadas de campanhas terem essencialmente servido “para transmitir algumas normas conduta, normalmente inspiradas em movimentos alternativos de luta pelos direitos dos homossexuais” quando se defende que esta história da infecção pelo HIV diz respeito aos “grupos de risco”, em particular aos homossexuais. Em que ficamos? Então não é dirigindo as campanhas para “os grupos de risco” que se aumenta a sua eficácia e se poupa uma pipa de massa? Não percebo.

* a afirmação não pertence ao JM, como se pode comprovar no som acima, só a chamei à colação porque o Rodrigo Adão da Fonseca subscreve por inteiro o texto, considerando-o “mais um texto que acerta na mouche”.

 

Comentários

Comentário de jc
Data: 25 de Julho de 2008, 16:38

“De uma vez por todas adoraria perceber qual é a alternativa preventiva ao uso de preservativo na infecção pelos HIV’s por via sexual”
segundo 1 em cada dez estudantes da universidade de coimbra a alternativa é a pílula:

http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1322332

Comentário de Vasco
Data: 25 de Julho de 2008, 16:58

Só faltou referir que o Miranda tem sido absurdamente ilógico nesta sua série de posts sobre as campanhas. Só para dar um exemplo: como pode ele concluir que as campanhas só serviram para transmitir algumas normas de conduta? Qual é o termo de comparação de Miranda? Um Portugal imaginário onde não se fizeram estas campanhas?

Há aqui um fenómeno curioso: o cepticismo do Miranda que contesta o aquecimento global destruiria a argumentação do Miranda que está contra as campanhas de prevenção da SIDA. Isto humaniza-o um pouco, ainda que involuntariamente.

Comentário de Nuno
Data: 25 de Julho de 2008, 18:25

A alternativa, para o escriba JM e para outros dementes (eu não papo esses grupos) é a abstinência! Só pode!
Claro que passado uns anos(meses) da dita abstinência fica-se a com a mioleir afectada e escreve-se como o Miranda ou o abominável César das Neves!
Ou pior (sim existe pior!), veja-se o caso do abuso de crianças por parte dos padres!

Comentário de Aires da Costa
Data: 25 de Julho de 2008, 20:00

Nuno

Desculpe a correcção ortográfica: Não se diz pior diz-se Prior

Comentário de Aires da Costa
Data: 25 de Julho de 2008, 20:27

Ana Matos Pires
Parece-me que não entendeu bem o espírito do post do João Miranda, ora atente bem nesta frase:
“Os promotores podiam ter optado por transmitir informação realista a um público adulto capaz de aprender a interpretar a informação e de agir de acordo com os seus próprios princípios e de escolher as suas normas de conduta….”

As campanhas não devem ser dirigidas a qualquer um, primeiro tem de se ser adulto. Depois tem de se ter capacidade de aprendizagem e interpretação. Mais! Estas campanhas só devem ser dirigidas a quem tem princípios próprios ( presumo que éticos) e maturidade suficiente para escolher as suas normas de conduta.

Face aos elevados níveis morais e comportamentais exigíveis para se puder ser alvo duma campanha de prevenção da Sida, penso mesmo que o autor do post está a sugerir que estas campanhas deviam ser constituidas por um Workshop de fim de curso nos seminários, e umas pósgraduações para os já formados

Comentário de anonymouse
Data: 25 de Julho de 2008, 21:11

os blogues tem méritos que não se esgotam no incremento da discussão infértil. Democratizou o acesso à rádio de pessoas com fraca eloquência e outras com uma voz engraçada.

Comentário de Nuno
Data: 25 de Julho de 2008, 21:47

Caríssima Ana Matos Pires

Eu não acredito que a Ana não saiba mesmo o que possa significar a “melhoria dos hábitos conjugais”, pelo que arrisco pensar que a Ana compreenderá que uma das formas possíveis para se diminuir o risco de contrair a doença seja a adopção de um comportamento sexual responsável.
Infelizmente, estando as coisas como estão, e para as quais muito contribuiu as tais campanhas que estamos aqui a discutir, confundimos hoje em dia comportamento sexual responsável com o uso do preservativo. Mas é claro que a redução da responsabilidade sexual ao uso do preservativo constitui um empobrecimento da noção de responsabilidade.
Eu pergunto-lhe: porque razão não se fazem campanhas nacionais que visem a promoção de relações estáveis, duradouras, fiéis, etc. Não seria esta uma forma eficaz de prevenir a doença?
Pense lá bem e depois conclua se o João Miranda não tem (pelo menos alguma) razão quando fala em campanhas inspiradas e promovidas por movimentos alternativos.

Comentário de l.rodrigues
Data: 26 de Julho de 2008, 9:59

O que eu acho graça é tipos como o RAF hesitarem em falar em “educar as pessoas” por causa das suas costelas liberais. Informar sim, educar não.

“Olhe faz favor, eu queria informá-lo de que a sida é uma doença complicadíssima, está aqui o folheto, e é melhor não ter sexo com estranhos, ou com conhecidos que possam ter tido sexo com estranhos (ooopsss, como é que se vai saber isto?) ou tomar drogas em geral”.

Deve ser assim uma campanha deste género que saía daquelas cabeças.

Comentário de jorge c.
Data: 26 de Julho de 2008, 9:59

Estou espantado. A Ana Matos Pires conseguiu fazer um post sem uma única citação, com ideias suas e com sentido. Um milagre da bloga. Agora compreendo, estava fragilizada. Espero que esteja melhor.

Comentário de pedro oliveira
Data: 26 de Julho de 2008, 14:18

Não tem nada que ver com o post,apesar da pertinencia do mesmo, mas como se celebra o dia dos avós hoje, fica o convite para irem ao http://vilaforte.blog.com para comentar a homenagem lá feita pelo joão carlos de 10 anos.Obrigado!

Comentário de RAF
Data: 26 de Julho de 2008, 17:59

Olá Ana,

Desde já agradeço o “som”, porque ainda não tinha tido a oportunidade de ouvir a minha intervenção no programa (ainda por cima, entrei em directo a partir de uma praia perdida no barlavento algarvio, onde a Pessimus têm má cobertura de rede, o que significa que perdi o “fio à meada” do debate).

Quanto às questões que resultam do seu texto:

a) Concordo com o post do JM, no sentido em que continuo convencido que apesar dos mihões gastos, a generalidade dos cidadãos nada sabem sobre SIDA, além da obrigatoridade de usarem preservativo em qualquer relação sexual; concordo ainda que a generalidade das campanhas se inspira na propagação de uma onda de pânico, onde parece que há uma pandemia que atinge a todos por igual; é que, todos somos infectáveis - como diz, basta estar vivo - mas os níveis de risco são maiores consoante tenhamos ou não certos e determinados comportamentos (falo em comportamentos, e não em pertença a “grupos de referência”, que em si não contagiam ninguém); aliás, no programa, a directora de serviço do Hospital de Santa Maria, melhor do que qualquer um de nós, deixou esta ideia bem clara; talvez eu ache que a informação é pobre, por estar mal habituado, porque o meu avô, médico especialista nestas áreas, tem por mau hábito, na adolescência, ir convidando os netos, acompanhadas de fotos do seu acervo, para sessões informativas, ou da minha avó, que era médica especialista em neurologia e psiquiatria, e que sempre nos ensinava as contingências e os mecanismos da nossa mente, sem hipocrisias. Fala-se tanto de “educação sexual”, e no fim, informa-se tão pouco, além do uso do preservativo, da ergonomia e anatomia do corpo, e dos chavões afectivos. Pensando naquilo que recebi, e olhando para a pobreza daquilo que se “informa”, talvez por isso ache que se atira dinheiro pela janela, mas enfim…

b) Quanto à “melhoria dos hábitos conjugais”, a que me referi no programa, pelos vistos, ouvindo a gravação, e lendo este post, noto que causou um certo frisson no estúdio, talvez porque isso aponte, se calhar, em algumas cabecinhas, para a “monogamia”, esse conceito-tabu, que não pode ser referido sem causar risinhos quando se discute HIV;

c) Em qualquer caso, aquilo que me referia é de outra natureza, diz respeito a algo que qualquer pessoa que conheça minimamente Africa sabe; “melhoria dos hábitos conjugais”, em concreto, e no contexto da minha intervenção, traduz-se, sobretudo, na diminuição da poligamia masculina (é específico de várias regiões de África, mais do que a existência de múltiplos parceiros, a manutenção de várias famílias), e pela submissão voluntária e regular a testes de HIV por parte de ambos os elementos do casal, em conjunto; estes dois factores ajudaram a reforçar os níveis de responsabilização e compromisso mútuo. Há ainda muito a fazer, mas mudanças nestes dois aspectos têm um grande impacto no controle da doença. Há também outros factores, que têm ajudado a fortalecer a estabilidade da familia, e que contribuem para uma melhoria marginal dos resultados: a diminuição da pobreza em algumas regiões (que ajudou a que em certas zonas tenham melhorado as condições de habitação, e a uma timida emancipação das mulheres mais pobres), a estabilização de conflitos que desagregavam os tecidos sociais e os hábitos comunitários de certos países; todos estes factores contribuem para que muitos homens tenham passado a ser um pouco mais “caseiros”, mais comprometidos com a economia do lar, e menos “nómadas” e “saltitantes”, deixando, também, menos as mulheres numa situação crónica de abandono.

Espero que, aqui desta minha bancada repleta de ignorância, possa pelo menos ter ajudado a fazer luz sobre a minha posição, que é, certamente, pouco consistente (como tenho sempre frisado nas minhas intervenções sobre a matéria, especialmente quando estou lado a lado de quem tanto investe no assunto), mas que pelo menos é interessada, olha para a realidade, sem vestir a falsa capa de neutralidade, e não está influenciada por um complexo de superioridade que tenta menorizar os interlocutores (privilégio que só têm os “especialistas” e os iluminados, pretensamente livres de “dogmas”).

Comentário de RAF
Data: 26 de Julho de 2008, 18:13

Caro(a) anonymouse [face ao seu comentário, o nick é de facto adequado, rato(a) anónimo(a)],

“os blogues tem méritos que não se esgotam no incremento da discussão infértil. Democratizou o acesso à rádio de pessoas com fraca eloquência e outras com uma voz engraçada.”

É, a minha voz, e outras contingências do meu aspecto físico, não são os melhores cartões de visita, mas quando se tem níveis adequados de auto-estima, essas questões são irrelevantes; agora, se eu, por exemplo, não tivesse uma orelha, ou por acaso me tivessem amputado uma perna, ou fosse paraplégico, estaria diminuido na possibilidade de intervir? Ela seria imputada a uma espécie de “democratização do acesso aos órgãos de comunicação social”?.

De facto, você não é “mouse”, é “rat” mesmo…

Comentário de Ana Matos Pires
Data: 26 de Julho de 2008, 18:19

aaaah, tá bem, Aires da Costa ;-)

Comentário de Ana Matos Pires
Data: 26 de Julho de 2008, 18:19

Tenho uma ideia, Nuno, mas prefiro não fazer interpretações.

Quanto ao resto, esta frase resume o que me parece ser o mais correcto relativamente ao assunto “Exemplo de sucesso no mundo inteiro, a campanha brasileira de combate à Aids assume que as pessoas farão sexo quando, como e com quem quiserem – e insiste com uma mensagem simples e fácil de entender, a da proteção permanente.”

Comentário de Ana Matos Pires
Data: 26 de Julho de 2008, 18:23

Vai-se andando, Jorge, vai-se andando. Mas obrigadinha pelo cuidado e pela simpatia, “amiguinho” (que seca, não tenho bonequinhos daqueles)

Comentário de anonymouse
Data: 27 de Julho de 2008, 0:12

não era o meu intento o insulto baixo, quando muito o fácil. Assim e de uma pessoa com pouca eloquencia e voz monocórdica, fica o retracto.

Comentário de Nuno
Data: 27 de Julho de 2008, 1:01

Caríssima Matos Pires

Óptimo: “Quando, como e com quem quiserem.” Continuem assim que terão muito sucesso no combate à SIDA e outras coisas mais que decorrem de tão responsável assunção.

Comentário de Ana Matos Pires
Data: 27 de Julho de 2008, 14:00

Rodrigo,

Sou o mais possível anti-alarmismos – se mais razões não existissem, tenho uma filha adolescente para quem desejo a melhor e mais gratificante vivência da sexualidade – por isso mesmo nunca poderia estar de acordo com mensagens “pró-sidofóbicas”. Defendo, isso sim, abordagens “agressivas” na passagem da informação, com mensagens simples, claras e concisas, dirigidas a diferentes públicos alvo (estes, por exemplo). Uma das coisas que crítico na posição do João Miranda é exactamente a “leveza generalista” com que olha para as ditas campanhas. Focalizando-nos no nosso país, já houve de tudo, desde campanhas muitíssimo boas até verdadeiras merdas. Qualquer coisa é melhor que nada? Acho que sim. É preciso repensar estratégias continuadamente? Completamente de acordo. É importante ter em conta os gastos? Naturalmente.

Em Saúde Pública pode pretender-se maximizar, ou não, o âmbito de uma campanha preventiva. Tendo em conta os objectivos particulares a atingir, podem delinear-se campanhas de alto, médio e baixo linear, o que determina a possibilidade de, perante um mesmo assunto, se desenharem campanhas de diferentes limiares, não mutuamente exclusivas. Enfiar tudo num saco e dizer mal porque sim não me parece a atitude mais pedagógica.

Como o Rodrigo muito bem sabe, a realidade que descreve como sua não é representativa, daí que me pareça preferível um movimento empático que o traga ao terreno – digo eu, que nada tenho a ver com isso, claro. Quanto ao que chama “conceito-tabu”, deixe-me dizer-lhe que está redondamente enganado no que à minha “cabecinha” diz respeito - cada um sabe de si, faz o que entende, o que quer, o que pode. Não são os aspectos éticos e morais das relações interpessoais nem as práticas sexuais individuais de per si que norteiam as minhas posições nesta matéria – e faça o favor de não ver aqui qualquer tipo de sobranceria, pode ser?

Deixe-me dizer-lhe, para terminar, que não podia estar mais de acordo consigo quando diz “Fala-se tanto de “educação sexual”, e no fim, informa-se tão pouco, além do uso do preservativo, da ergonomia e anatomia do corpo, e dos chavões afectivos”.

Ps: Se lhe apetecer e lhe fizer sentido, havemos de conversar sobre África, as ONG’s, o papel das religiões e mais tudo aquilo que achar interessante debater no que à SIDA diz respeito.

Um abraço,
ana

Comentário de Ana Matos Pires
Data: 27 de Julho de 2008, 14:30

“podem delinear-se campanhas de alto, médio e baixo linear” é limiar e não linear, sorry.

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