Nem se vai dar por isso

Agora que o Acordo Ortográfico está ratificado, os seus adversários fazem dois tipos de profecias: que ninguém lhe obedecerá ou que a sua aplicação será uma calamidade. Não acredito em nenhuma das duas hipóteses e vou explicar porquê.

Quem tem de obedecer ao acordo em primeiro lugar são os próprios Estados que o assinaram. Eu escrevo e continuarei a escrever da forma como quiser sem punição do Estado (na verdade, muitas vezes são os poderes privados que interferem: eu escrevo sempre “estado” com minúscula, e tanto este jornal como a minha editora costumam alterar para maiúscula). Mas reconheço legitimidade ao Estado [maiúscula introduzida pelo editor para confirmar declaração anterior] para escolher uma ortografia para os seus actos escritos, nomeadamente para que as leis estejam escritas de forma homogénea. O primeiro objecto do acordo será, nesse sentido, o Diário da República. O resto da sociedade só segue se quiser.

Dito isto, é natural que o acordo vá progressivamente entrando nos hábitos de escrita dos portugueses e outros lusófonos, e isto por uma razão que neste momento talvez provoque algum escândalo. Ele, de facto, simplifica-nos a vida.

No Brasil irão ocorrer duas mudanças fundamentais. A primeira é cair o trema em palavras como “seqüência” ou “lingüiça”. É até compreensível a resistência a esta mudança. Ela facilita no momento da escrita, mas pode dificultar a leitura. Algumas pessoas, dizem os opositores, podem passar a dizer “sekencia”, como se aquele “u” não fosse para pronunciar. Mas nós portugueses, que não usamos o trema, sabemos que esta confusão é rara: que me lembre, só na palavra “sequestro” há quem leia “secuestro” ou “sekestro”. E não só esta confusão é rara como não vem daí mal ao mundo, no sentido em que ninguém deixa de se compreender por ela.

A segunda é cair o acento que os brasileiros usam em “idéia” ou “assembléia”. Li uma entrevista de um poeta brasileiro (à revista Língua Portuguesa, que se edita naquele país) protestando contra o que neste caso seria uma “vitória” da pronúncia portuguesa. Segundo ele, os portugueses pronunciariam “idêia” e “assemblêia” com o “e” fechado, e a queda do acento consagraria isto, que nós sabemos que é um disparate. Os portugueses pronunciam o “e” aberto em ambas as palavras.

Estas misturadas dos oponentes do lado de lá do Atlântico ajudam-nos a entender melhor as misturadas que se fazem do lado de cá.

Em Portugal, a grande mudança é a queda das consoantes mudas. Já se falou muito sobre as suas desvantagens. Vejamos agora o outro lado da moeda. Frequentemente vejo escrito “contracto” (no sentido de “acordo” e não de “contraído”, claro) com um “c” a mais. E não é raro encontrar a forma “conductor” ou até “traducção”. Isso acontece porque, como as consoantes mudas não se lêem, acabamos por inventá-las no momento da escrita em palavras onde elas “poderiam” estar.

A partir de agora passa a haver uma regra simples. No momento de escrever, pense-se: eu pronuncio aquele “c”? Se sim, escrevo. Caso contrário, não escrevo (ou, em alternativa: se desejo continuar a escrevê-lo, devo pronunciá-lo). Esta regra vai facilitar a vida a muita gente no momento da escrita. E ela é, por si só, a grande mudança que o cidadão comum vai ter de fazer. Quando começar a ser utilizada, pouca gente quererá voltar atrás.

Sempre o disse: esta reforma ortográfica é relativamente modesta (quando comparada, por exemplo, com a que a língua alemã fez recentemente). Se estamos numa de palpites, deixo o meu: daqui a cinco anos ninguém se vai lembrar das razões de tanta resistência.

23.07.2008, Rui Tavares

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Segunda | Rui Tavares
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33 respostas a Nem se vai dar por isso

  1. Luís Lavoura diz:

    É falso que os portugueses pronunciem “idéia” ou “assembléia”. Isso pode talvez ser verdade para alguns portugueses, em algumas regiões do país. Mas não é certamente verdade em geral.

    Convem o Rui Tavares estar consciente de que os lisboetas têm uma pronúncia muito especial.

  2. Se bem percebo, o facto é um falso problema, porque em facto o c não é uma consoante muda. Correto?(este custou a escrever…)

  3. Model500 diz:

    O handicap destas vantagens do Acordo, que o Rui muito bem refere no texto – e que só os míopes não querem ver -, é o facto de elas não resultarem de uma ordem natural e espontânea, bem pelo contrário, são obra de um conjunto de sábios que, de certa forma, determinam o percurso das coisas. E isso para um neoliberal como eu é uma chatice. Os meus dogmas não ficam lá muito bem.

  4. manuela diz:

    “(… se desejo continuar a escrevê-lo, devo pronunciá-lo)”

    Não sei se vai ser deixada essa opção ao falante. Creio que não. Tanto quanto sei, falta ainda ser publicada a lista do vocabulário comum na qual a nova ortografia já vem fixada. E que quem vai decidir se passa a escrever-se ‘concepção’, ‘conceção’ ou permitir a dupla grafia será a norma culta.

    Eu digo ‘espectador’, a maioria das pessoas ‘espetador’. Será que a dita norma culta me permitirá continuar a escrever como pronuncio ou vai decidir-se pela uniformização?
    E isto palavra a palavra.

    Penso que era uma reforma evitável, vai custar muito dinheiro e nada tem a ver com facilitação de escrita ou com entendimentos com o Brasil. Pela primeira vez, parece-me, vai mexer-se na ortografia por motivos de estratégia política e não de simples ajustamento linguístico. E isto é que é um precedente perigoso e não o facto de tirarem as mudas ou algumas maiúsculas (o que até era escusado, mas enfim… Qual era o problema de se continuar a escrever ‘Verão’ em vez de ‘verão’? Para se simplificar umas coisas, complicam-se outras).

  5. C. diz:

    concordo em absoluto consigo. sou professora de português (e até aqui prefiro as minúsculas…) e debato-me constantemente com estas resistências. e ninguém percebe como é que eu, ensinando a língua, estou de acordo com o acordo. acho que vou imprimir o seu texto… porque eu não sei explicar melhor.

  6. Miguel RM diz:

    Também concordo inteiramente com o que tem escrito sobre o AO. Oxalá tenha razão e daqui a uns anos possamos contar com todos os que defendem a língua portuguesa para de facto a defenderem, em vez de andarem a empolar resistências à mudança, em aliança com as mentalidades mais retrógradas em matéria de relações com os outros países de língua portuguesa.

  7. Nuno diz:

    E nas escolas? Como vai ser ensinada a língua portuguesa? Ficará ao critério de cada um dos professores ou do Estado? Progressivamente ou por imposição? Será que os professores também terão a liberdade de seguir o acordo apenas se quiserem? Será que os alunos também terão a liberdade de seguir o acordo apenas se quiserem? E desde quando é que a simplicidade passou a ser a medida da ortografia? Se a simplicidade é a medida, porque não passarmos a escrever como muitas pessoas escrevem nos telefones móveis?

  8. Concortdo totalmente com Rui Tavares nesta questão.

    Depois de ouvir e ler muito sobre o tema cheguei à conclusão de que não virá ao mundo nem grande bem, nem grande mal, por causa deste acordo.
    Ele é fundamentalmente um sinal diplomático, um gesto simbólico com o qual eu estou totalmente de acordo. É preciso pensar largo, universalmente, tendo sempre em mente a comunidade mundial dos falantes.

    Depois há um outro nível de irrelevância da ortografia. Trata-se de uma “lei” sem sanções. Passada a fase dos ditados escolares cada um escreve como calha e não sofre qualquer sanção por isso. Até nos meios de comunicação e nos documentos oficiais podem encontrar-se “variações” ortográficas que não invalidam as notícias nem os contratos.

    No plano da comunicação pode argumentar-se que algumas regras têm que ser respeitadas sob risco da incomunicabilidade. Mas também é verdade que certas manipulações da ortografia enriquecem a comunicação, em vez de empobrecer, pela sugestão de novas semânticas.

    O mesmo se passa aliás com a sintaxe que, a ser sempre respeitada, limitaria gravemente a linguagem poética.

    Num mundo ideal cada pessoa deveria, em cada momento, ter liberdade para gerir a sua comunicação através do equilíbrio entre a inteligibilidade, a ortografia criativa e a linguagem poética. A “ortografia oficial” seria usada nos documentos formais ou de carácter científico.

  9. Nuno diz:

    e a palavra húmido ou úmido como eles dizem?

    Ok, vai ser bom uniformizar estas assimetrias mas já agora, será ainda mais complicado aprender línguas novas. Os ingleses e espanhóis continuam a escrever húmido com “h”, façam o favor de pedir aos brasileiros para modificarem isso também já que não o leiem

  10. De “L.rodrigues”:

    «Se bem percebo, o facto é um falso problema, porque em facto o c não é uma consoante muda. Correto?(este custou a escrever…)»

    Sim, corretíssimo! Apesar de circular pela “net” uma lamentável petição que VERGONHOSAMENTE induz em erro, insistindo na “confusão” que supostamente passará a haver entre “fato” e fato, disseminando conscientemente (?) a IGNORÂNCIA elegendo-a como um dos principais argumentos de peso contra o Acordo!

    O que é uma concludente prova da “seriedade” de muitos que ao mesmo se dizem opor…

  11. Perdão. Reformulo:

    «(…) “confusão” que supostamente passará a haver entre “fato” e fato, disseminando conscientemente (?) a IGNORÂNCIA e elegendo-a até (à citada “confusão”) como um dos principais argumentos de peso contra o Acordo!

    O que é uma concludente prova da “seriedade” de muitos que ao mesmo se dizem opor…

  12. manuela diz:

    Em reposta ao Nuno, as escolas e o estado terão que adoptar a grafia oficial e basta habituar os alunos e os cidadãos à ideia de dupla grafia. Num ano um professor escreve ‘Egipto’, no ano seguinte um outro ‘Egipto’. Um legislador decreta sobre a ‘contracepção’, outro sobre a ‘contraceção’. Depois o ciclo repete-se e o ‘único’ senão é que uma língua tem dificuldade em ser interiorizada a partir de um certo grau de incerteza. A prazo instala-se a dúvida. Terei mesmo que escrever ‘acionar’ ou ‘accionar’ também existe?
    Espero que não se volte ao século XIX, em que ‘Sintra’ ou ‘Cintra’ apenas dependiam dos gostos ou hábitos pessoais.

    O Rui refere a reforma do alemão. Esta foi bastante mais complicada e um dos países, o Luxemburgo, não aderiu. Fora das escolas foi deixada ao cidadão a escolha da ortografia a utilizar. Sabe-se o que aconteceu com os jornais e com a edição livreira, cada cor seu paladar. E um dia lá terá que surgir inevitavelmente uma reforma como a de 1911 ou de 1945, que não deixavam alternativas a ninguém a não ser residualmente e sempre vistas como indesejáveis.

  13. Luís Lavoura, por genuína curiosidade, que portugueses pronunciam “assemblêia” — estou aqui a tentar pensar nos diversos sotaques nacionais e parece-me que é até difícil fechar aquele “é” final quando se vem com o balanço da nasal anterior. Já ideia concedo que talvez alguns alentejanos pronunciem “idêia”, mas nem me parece que se trate da maioria. Eu não estava a pensar no sotaque lisboeta, até porque o meu sotaque familiar de base é do ribatejo/oeste. Não me parece que nenhum sotaque nortenho feche o “e” de ideia. Talvez nas beiras se pronuncie idêia? Ou nas ilhas?

    Já agora: onde há diferença isso sim é em europeia, que os brasileiros pronunciam sempre európéia (provavelmente por causa do O aberto anterior) e os portugueses pronunciam eurupêia (mais uma vez, provavelmente por causa do “o” pronunciado como “u” que vem de trás). O mesmo se passa com épópéia / êpupêia. Se experimentarem pronunciar épópêia verão que é um pouco mais difícil.

  14. Rui Tavares, a sua análise faz algum sentido, no entanto, no que respeita aos “c” suspostamente mudos, não é bem assim. O “c” antes de uma consoante, como em “tecto” serve para abrir a vogal que o precede, sendo por isso que lemos “této” ou “corréto”. Sem o “c”, “corréto” passa a “corrêto” porque a vogal fica fechada. No caso de “condutor”, o “u” não pode ser aberto ou fechado, a mesma coisa acontece com o “i”, por essa razão nunca existem “c” “mudos” a seguir a essas letras. O problema é que muitas pessoas não sabem estas picuinhices linguísticas e pensam que o “c” não faz lá falta nenhuma.

  15. -Pois eu enquanto cliente, reconheço-me no direito de preterir qualquer proposta/orçamento elaborada por clientes portugueses, escrita em Português do Brasil. Porque não obedeço ao estado, as acções são minhas, e porque sim. (Brasileiros não incluidos, porque esses continuo a recebê-los, e percebê-los em português do Brasil, como sempre o fiz).

  16. al diz:

    O “acordo ortográfico” é típico de países 1º com altos índices de analfabetismo ou analfabetismo funcional; 2º de países pobres e habituados a formas ditatoriais de governo.
    As consoantes mudas (e as semi-mudas?) – e isto é o essencial do acordo, para agradar aos brasileiros – mantêm-se no inglês que se quer pôr nas escolas primárias. Aí, na grande língua franca do mundo, tudo se mantém. Ao contrário de nós, não evoluíram e os nossos filhos vão ter de as aprender. Estranho, não é?
    Leio todos os dias os jornais brasileiros on line e nunca vi o trema em sequencia. No Brasil o acordo é um pro forma para não ser claramente uma compra. Toda a ideia é grotesta e os objectivos políticos -brasileiros – são risíveis. As linguas estão fora do âmbito legislativo.

  17. al diz:

    Ah, verdade, esteve no Brasil há pouco tempo. Pode-se saber quem pagou a viagem e estadia?

  18. Caro Tiago Ramalho: se a consoante muda serve para abrir a vogal anterior, isso não explica a pronúncia de actividade, actualidade, actual. Você pronuncia átual ou âtual ou até âctual?

    Al: se insiste em saber, foi tudo tratado pela minha editora no Brasil e pelos organizadores do evento para que fui convidado. Mas é extraordinário que pense que isso tem alguma relação com as minhas opiniões. Sou a favor do acordo ortográfico desde 1995 ou 1996 (antes era contra, mas informei-me e mudei de opinião) e isto foi muito antes de ter posto os pés no Brasil.

  19. manuela diz:

    caro Rui

    Embora isto nada tenha a ver com o acordo em si, eu digo ‘eurupaia’, ‘idaia’, (‘a’ fechado, como o final), e julgo que o ouço a toda a gente, mas admito que esta generalização já possa ser ilusão auditiva. Eu, definitivamente, digo ‘assêmblaia’.

    Em transcrição fonética esse som representa-se assim: ә

  20. Rui Tavares, se prestar atenção, nos exemplos que dei, a consoante que “abria” estava na sílaba tónica (a penúltima). Nos exemplos que deu isso não se verifica. Realmente esqueci-me de escrever este pormenor.

  21. Manuela: curiosamente, e ao contrário do que sugeria o Luís Lavoura, esse eurupaia é bem Lisboeta, e o idaia e assêmblaia parece-me mais lisboeta ainda. mas não confundir isso com idêia rimando com feia, como defendia o tal poeta brasileiro que era a pronúncia portuguesa. ideia ou assembleia não rimam com feia ou europeia, pelo menos ao meu ouvido.

  22. Helena Velho diz:

    e treze continua a escrever-se assim ou passa ao treuze???
    Isto(o AO), se lermos( com acento circunflexo no “e” ou sem ele) com atenção , é como diz o Rui Tavares : não passa de um medíocre [este adjectivo(com c que eu que não leio)é de minha autoria] acordo diplomático…e lembram-se das brincadeiras giríiiiiiiiiiiiiiiissimas que se poderão fazer à custa de palavras e grafias que já não estejam em uso??( lembrem-se do ph que se lia f!). Estou consigo Rui, se bué entrou nos anais da língua portuguesa, daqui a uns cinco( exagero com toda a certeza!) anitos já ninguém se lembra do fato/facto e ninguém comprará um fato por um facto, ou comprovará um facto pensando( o gerúndio é bem português!) no fato cinza de risca branca, american-style.
    Mas isto sou eu a falar , certo?

  23. Caro Rui,
    Também acho que estás enganado quanto à terminação “eia”. Confiando na minha (falível) memória auditiva, parece-me que há em Portugal pelo menos três formas de concretizar foneticamente essa sequência, sendo que em nenhuma delas há vogais abertas ou semi-abertas: “êia” (no Norte), “âia” (em Lisboa) e “êa” (no Alentejo). Mas dentro de cada variante regional, as palavras ideia, assembleia, feia, meia, areia e europeia são sempre pronunciadas com a mesma terminação. O que quer dizer que em Portugal, independentemente das suas concretizações fonéticas, há no nível fonológico apenas um ditongo, que na escrita representamos convencionalmente por “ei”. Já no Brasil há dois fonemas, dois ditongos nesta lista de palavras: “êi” (em feia, meia, areia) e “éi” (em idéia, assembléia, européia). Ou seja, no Brasil e ao contrário de Portugal é possível imaginar palavras (pares mínimos) que se distinguem apenas por uma ter o fonema “ei” e outra o fonema “éi” (e não é preciso imaginar apenas: “aréia” é o feminino de “aréu”). Portanto antes do acordo temos: em Portugal, um fonema, uma grafia; no Brasil, dois fonemas, duas grafias. Não admira portanto que os brasileiros resistam a uma perda da adequação da escrita à fonética.
    Também acho que a Manuela tem toda a razão ao pôr em causa a ingenuidade do “se desejo continuar a escrevê-lo, devo pronunciá-lo”. É óbvio que se eu passar a pronunciar as consoantes mudas de acção, correcto e espectáculo vou apenas afastar-me da pronúncia-padrão, sem com isso ter o bónus de poder conservá-las na escrita… Já quanto às grafias duplas previstas no acordo veremos: no par recepção/receção, que antes do acordo se escrevia da mesma maneira, certamente que apenas a primeira forma será aceitável no Brasil e apenas a segunda em Portugal; quanto a casos como característica/caraterística admito que possa ficar ao critério de cada um, mas não estou a ver os revisores dos jornais e das editoras a telefonarem aos autores para os ouvirem a dizer determinadas palavras – caso aliás mais complicado para as reedições de autores mortos.
    Não duvidando eu da bondade da tua posição ao veres vantagens neste acordo, o problema desta tua afirmação é a ideologia que lhe subjaz, a de uma crença ingénua na capacidade individual de usar e mudar a língua, falando e escrevendo como queremos – acho que é o Barthes que nos lembra que a linguagem é totalitária (a literatura é que pode ser uma forma de resistência). Tu próprio dás um exemplo desta máquina implacável a funcionar: bem podes na tua liberdade escrever “estado” (logo a escolha da palavra é sintomática, podias ter optado por “primavera”!) que te corrigem para “Estado”. Este individualismo que preconizas faz-me lembrar uma citação da Eduarda Dionísio:
    “Pouco tempo antes, [António-Pedro Vasconcelos] defendia na televisão, depois da emissão de uma Casablanca a cores, versão aggiornada que a técnica e o marketing coloriram, que quem quisesse podia vê-la a preto e branco: bastava rodar um botão… Tinhas percebido nessa noite o liberalismo em toda a sua dimensão.” (Títulos, Acções, Obrigações, p. 72)

  24. pedrooliveira diz:

    Eu pronuncio ‘idêia’ e ‘assemblêia’ e a generalidade das pessoas que conheço também. Já agora, sou transmontano e vivo em Braga.

    Aliás, quando li o artigo de Rui Tavares no Público, chamaram-me logo a atenção estes exemplos francamente infelizes… e por coincidência um amigo meu nesse mesmo dia comentou-os comigo.

  25. Luís Lavoura diz:

    Manuela,

    essa de substituir o som ê pelo som â é um traço típico da pronúncia lisboeta. Não é português, é prnuúncia lisboeta.

    Helena Velho,

    “treuze” é lisboeta. Em português diz-se “trêze”.

  26. manuela diz:

    meus caros Rui e Luís Lavoura, eu sou nascida e criada no norte.
    É verdade que vivi muitos anos em Lisboa e portanto tenho que considerar alguma corrupção na pronúncia, mas voltei às origens e à minha volta ouço toda a gente pronunciar como eu.

    Não é que isso seja muito significativo, mas ainda ontem tive o cuidado de ‘espetar’ o ouvido para o confirmar. Não ponho de lado a possibilidade de os meus hábitos linguísticos e a minha acuidade auditiva me iludirem. Nesse caso só uma análise ao espectro fonético para examinar a qualidade das vogais de uma determinada região conseguiria deslindar isto, mas não é assim tão importante porque variantes quase indetectáveis a ouvido nu há-as aos milhares no léxico português.

    Eu pronuncio todos esses vocábulos do mesmo modo, ‘assêmblaia’, ‘faia’, ‘’eurupaia’, o tal әzinho fechado que mencionei atrás.

    No entanto queria sair deste desbulhar das pronúncias porque penso que a abordagem que o Rui faz neste artigo tem um outro enquadramento, que é o da oportunidade política e das vantagens que daí advirão para nós, portugueses. Como já disse, preocupam-me essencialmente dois aspectos:

    1. Indefinição e futuras hesitações quanto à ortografia, principalmente nas idades de aprendizagem e interiorização da língua. Parece-me que a quantidade de grafias duplas é excessiva para que se possa assimilar uma regra de modo eficaz e as indecisões vão surgir inevitavelmente, mesmo entre os adultos escolarizados. Sei lá se a norma afinal admite ‘percepção’ ou não! Eu não pronuncio o ‘p’, portanto devia eliminá-lo. Mas e os brasileiros? E os supostos utentes da norma culta, dizem-no ou não? Como vou saber sem decorar uma extensa lista de palavras, de que me vou esquecer a todo o momento?

    2. O precedente que abre quanto a intervenções ex-machina na grafia da língua.

    De resto, mais ‘c’ menos ‘p’, é irrelevante, embora tenha que admitir que me custa um bocadinho afastar-me do étimo comum às outras línguas latinas (com excepção do italiano) e às germânicas que entretanto incorporaram esse vocabulário. Mas é um mal menor, aceito.

  27. joão viegas diz:

    Subscrevo completamente ao post de Rui Tavares (como aos anteriores).

    O rigor obriga no entanto a acresentar um ponto importante, que está na origem de alguns comentários críticos. Obviamente, a norma gráfica nunca poderá traduzir a diversidade da prática fonética. Isto é uma fantasia pura. Da mesma forma que a norma anterior ao acordo era utilizada por pessoas que pronunciavam a língua das mais diversas maneiras (do Açoreano ao Transmontano), haverá no futuro uma distância entre a forma convencionada de representar graficamente os sons (vulgo ortografia) e a realidade linguística. Isso é inevitavel e uma ortografia puramente fonética parece-me ser uma utopia. Por esta razão, alias, é que devemos ouvir os argumentos (válidos) daqueles que dizem que a ortografia não é só uma reprodução da língua viva (embora seja principalmente isso), é também uma memória da língua morta, da sua história, etc. A ortografia deve procurar facilitar a vida aos locutores, por forma a que escrevam mais facilmente. Mas seria redutor limitá-la a isso.

    O que é verdadeiramente novo com o Acordo, não é tanto propôr-se uma norma “melhor” (afinal, ninguém se queixava sobremaneira das anteriores, o problema é que era tido como artificial e contraproducente que fossem duas normas diferentes), mas propôr-se um modelo único, um padrão único.

    Gastei horas a tentar explicar ao D. Murcho (no blogue dele) que um padrão não é uma norma imposta directamente. Trata-se antes de um modelo. Isto tem duas implicações importantes que, em meu entender, permitem responder à maior parte das críticas (pelo menos às que li):

    1/ Um padrão convive por natureza com uma certa margem de diversidade : para nós, o Alentejano fala português, o Lisboeta também, o Açoreano, etc. Não pensamos que a lingua padrão esteja em causa por haver práticas diversas (pelo menos até certo ponto).

    2/ Um padrão só tem validade na medida, e enquanto, é adoptado e utilizado na prática. Sendo apenas um modelo, um padrão nunca pode ser imposto por fora. O seu valor dependerá sempre de uma adesão da população. Nunca ninguém conseguirá pôr a população a falar Esperanto. O padrão tem de ser definido com vista à prática social. Nesse aspecto, o Acordo é uma aposta. Mas é uma aposta realista porque, tanto em Portugal como no Brasil, os locutores estão convencidos que falam a mesma língua. O que o Acordo faz é pegar nessa convicção e fazer um passo a mais : incitando (e não obrigando) os cidadãos dos dois países a utilizar uma norma única nas suas práticas de escrita e de leitura. Não podemos ter a certeza que isso sucederá na prática (e se não fôr o caso, teremos criado uma ortografiae e uma língua puramente burocráticas, e não seria a primeira vez que isto acontece), mas eu confio que sim, que o novo padrão vai ser adoptado, até porque vejo que as alterações introduzidas são de facto menores e proporcionadas aos objectivos (criar uma norma intermédia entre a « portuguesa » e a « brasileira »).

  28. francisco frazão, manuela, lavoura, pedro oliveira, tiago ramalho e todos:

    – tal como vocês, os meus ouvidos podem enganar-me. mas não estou a ver (a ouvir) assembleia rimar com tareia ou ideia com matei-a. aliás, a origem de ideia em idea (do grego, mas que se mantém por exemplo em castelhano) faz-me supor que aquele “e” se pronuncia aberto. no entanto, isto não altera (e provavelmente reforça) que os brasileiros devam suprimir o acento em idéia e assembléia. a palavra passa a escrever-se da mesma forma em todo o lado e a pronúncia varia regionalmente. como comboio, que em Lisboa se pronuncia combóio, mas que os brasileiros pronunciam (quando não dizem trem) combôio.

    – quanto à influência da pronúncia individual na ortografia, ela é reduzida, mas este é um processo duplo. isso vai notar-se nas consoantes em processo de emudecimento: percepção, que a manuela usa como exemplo. após a entrada em vigor do acordo, vai haver uma separação de águas. a maioria irá certamente terminar o seu processo de emudecimento (o “p” de óptimo é residual, embora às vezes ainda se possa pressentir); noutros casos a referência fonética que passa a imperar no momento da escrita pode até inverter o processo. consoantes que estavam em processo de emudecimento são “redescobertas” e começam a ser pronunciadas de forma mais vincada. prevejo que isto possa acontecer em percepção e recepção, onde o p se tornará mais audível. daqui a uns anos podemos voltar a esta caixa de comentários e ver se é verdade.

    – voltando aos sotaques regionais (ou antes, aos dialectos). é uma das minhas taras. gosto da maneira como os portuenses, mesmo estando em lisboa há anos, pronunciam cumo em vez de como, ou não distinguem entre pagámos e pagamos. por influência ribatejana, pronuncio cômigo em vez de cumigo, e gáfanhoto em vez de gâfanhoto, o que sempre me valeu ser gozado em lisboa. e aqui há uns anos comecei a descobrir a variedade dos sotaques brasileiros, desde o r paulista que não é dobrado como o carioca, ao andano mineiro (por andando), e ao fantástico sotaque catarinense que é quase igual ao nosso. também gosto do “r” do norrrte de Angola, que é quase igual ao de Setúbal. e nem me ponham a falar das diferenças entre os crioulos do fogo, da praia e de são vicente. sou quase um drogado. é por isso que vocês ainda não me convenceram com esses idêia e assemblêia.

  29. Helena Velho diz:

    Luís Lavoura

    o Treuze também é de Coimbra!!!Mas obrigada pela deferência e pela informação. ( mas eu estava a, digamos, ironizar, certo?)
    Abraço

  30. Ok, só mais uma contribuição para esta reunião de Linguistas Amadores que dizem não à rehab:
    Fui buscar a gramática e a História da Língua e não estava longe da verdade com a minha distribuição dos “eis”. De facto, segundo a proposta de Lindley Cintra para os dialectos portugueses, a pronúncia deste ditongo é um dos traços relevantes: conservação a norte (“êi”), monotongação a sul (“ê”) e diferenciação em Lisboa (“âi”). Num rápido “trabalho de campo” (pronto, perguntei a 3 pessoas) pude comprovar que os falantes de Lisboa pronunciam ideia, assembleia, tareia, comprei-a, areia, etc. sempre com a mesma terminação.
    Mas tomando como bom o testemunho do Rui Tavares aceito que haja dialectos a norte onde pelo menos ideia e assembleia são ditos com o “e” aberto (na verdade, semi-aberto). É aliás isso que se subentende ao ler o acordo de 1945, que os brasileiros acabaram por não implementar: não se põe acento em “éia” porque há oscilações de pronúncia não só entre Portugal e Brasil mas também entre os dialectos portugueses. De qualquer modo a frase do artigo “Os portugueses pronunciam o “e” aberto em ambas as palavras” é uma evidente sinédoque, tomando a parte (Rui Tavares) pelo todo (os portugueses).
    Mas mesmo aceitando a oscilação de pronúncia nestas palavras (e em que outras) não me parece que a distinção entre palavras em “eia” e em “éia” seja tão marcada como no Brasil, onde foi consagrada na grafia. O Houaiss dá-me 95 palavras com a terminação “eia” (aldeia, areia, baleia, cheia, meia, teia…) e 257 acabando em “éia” (alcatéia, apnéia, boléia, dragéia, geléia, platéia…). Esta divisão não é de carácter regional, não é apenas fonética mas fonológica – permite formar pares mínimos, quer dizer, pares de palavras parónimas onde o traço distintivo é o facto de se abrir ou não o “e”. Assim com Medéia/medeia (do verbo mediar), areia/aréia (fem. de aréu), boléia/boleia (do verbo bolear). Este acento gráfico tem a mesma função no Brasil que aquele que, para não sairmos do mesmo ditongo, pomos em “papéis” (e em pastéis, anéis, farnéis…) para distinguir do som da forma do verbo “papar” (e de todas as formas verbais com esta terminação). Ao tirar-se o acento no Brasil está-se então a perder uma informação gráfica de carácter não só fonético mas fonológico, que em Portugal não tem expressão. Nos Lusíadas (I, 34), “Citereia” e “Deia” (que no Brasil têm acento) rimam com “arreceia” (que não tem).
    Não quero fazer previsões sobre as consequências do acordo para a fala. Não faço ideia se os brasileiros vão passar a dizer “idêia” ou se os portugueses, com a perda das consoantes mudas, vão fechar ainda mais vogais e tornar-se ainda mais incompreensíveis para os restantes povos latinos (incluindo os brasileiros). Mas não deixa de ser curioso que as duas previsões feitas pelo Rui no comentário de ontem sejam precisamente aquelas que dão jeito à uniformização da escrita: queda do “p” de “óptimo” (ok, nunca o ouvi) e regresso conveniente do “p” de “percepção” e “recepção” – duas palavras que com o acordo se vão passar a escrever de maneira diferente em Portugal (receção, perceção) e no Brasil (recepção, percepção). É oPtimismo a mais. Numa língua sem acordo ortográfico diz-se “wishful thinking”.

  31. acabei de escrever um comentário quilométrico que se perdeu no éter quando carreguei no submit. Nele dizia:
    1. que na minha contribuição anterior acertei por acaso na proposta de Lindley Cintra para os dialectos portugueses quanto à distribuição do ditongo “ei” (conservação do “êi” a norte, monotongação “ê” a sul e diferenciação “âi” em Lisboa);
    2. que aceitava o testemunho do Rui Tavares para a diferença entre “ideia” e “tareia” nalguns dialectos portugueses (a norte?), apesar de pelo menos em Lisboa isso não se verificar – o que de qualquer modo transforma a frase “Os portugueses pronunciam o “e” aberto em ambas as palavras [ideia e assembleia]” numa sinédoque onde se toma a parte (Rui Tavares) pelo todo (os portugueses);
    3. que mesmo admitindo essa variação de pronúncia ela não tem a mesma expressão que no Brasil, onde é consagrada pela escrita e tem carácter não só fonético mas fonológico – no Houaiss há 95 palavras em “eia” (aldeia, areia, teia) e 257 em “éia” (boléia, geléia, platéia) e o grau de abertura do “e” é o traço distintivo que permite separar pares de palavras (pares mínimos) como Medéia/medeia (do verbo medear) e boléia/boleia (do verbo bolear), tal como em Portugal e no mesmo ditongo o acento distingue “papéis” de “papeis”;
    4. que nos Lusíadas (I, 34) “Citereia” e “Deia” (que no Brasil têm acento) rimam com “arreceia” (que não tem);
    5. que, recusando catastrofismos de um lado e de outro, via as previsões do Rui Tavares, no comentário de ontem, para a influência do acordo na fala como puro “wishful thinking”, chegando a anunciar um conveniente regresso em Portugal do “p” mudo em “recepção” e “percepção” (nunca os ouvi): precisamente duas das palavras que com o acordo se vão passar a escrever de maneira diferente…
    Bom, se por acaso o outro comentário aparecer podem apagar este; ou o outro; ou os dois. Vou agora cruzar os dedos quando carregar no submit, não sem antes copiar tudo para o blogue porque mais vale prevenir. Assina mais um linguista amador que diz não à rehab.

  32. Toda a flosofia deste acordo reside numa solução de dualidade, o que contradiz aquele que deveria ser o objectivo principal, a uniformização do Português escrito. O resulta é exactamente o oposto e, onde antes havia duas normas mais ou menos aceites, agora vão existir até cinco escritas correntes: as duas dos que recusam o acordo ou nem dão por ele; as duas que o seguem à letra consoante o seu país de origem; e, por último, aquela que resulta da misturada de escolhas individuais.

    Sinceramente, não entendo porque a forma da escrita é levada a peito por tanta gente e parece-me embirração de bizantinos. Haja uma norma qualquer e sigamo-la à risca, é tudo o que precisamos para comunicar sem mal-entendidos.

    Agora, que a grande preocupação com o acordo seja com as dúvidas de leitura não me comove. Acho eu que quem conhece e usa as palavras reconhece-as facilmente mesmo apesar dos chapelinhos ou consoantes intersticiais. Quem não as conhece não vai ser por saber pronunciá-las que enriquece o vocabulário.

  33. A Rodrigues diz:

    É nivelar por baixo, por quem sabe menos. É descaracterizar-se sem necessidade. É tonar mais ambígua a escrita, quando se deveria trabalhar sempre no sentido da desambiguação. Ainda hei-de ver documentos jurídicos escritos com os “c” todos não vá haver dúvidas sobre o sentido daquilo que se pretende afirmar. Quando a confusão for muita talvez que ainda o veja retractar-se (eu não disse retratar-se, é sem fotógrafo, entende?).

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