ainda a quinta da fonte e a esquerda e a direita e assim
23 Julho 2008 | por Fernanda Câncio‘há quem viva melhor com o rendimento mínimo garantido do que quem trabalhe nas limpezas da estação fluvial e não tenha onde deixar a filha menor’, diz o maradona, neste texto citado pelo joão pinto e castro. e acrescenta: ‘Vejo uma pessoa de Direita quando vejo alguém mais peocupado em acabar com esta injustiça do que em acabar com a pobreza’.
é capaz de ser por isso que alguns dos meus amigos que se dizem de direita insistem comigo para que eu admita sê-lo também. eu, porém, resisto. e resisto ainda mais a esta idiotice que domina a maioria das discussões políticas ou sobre políticas e que tem o seu apogeu na blogosfera, a saber, a insistência em discutir a propósito de um dado assunto as vantagens e desvantagens daquilo que cada ‘lado’ acha ser a ‘posição’ do ‘outro lado’ sobre o assunto, ao invés de se tentar pensar sobre o dito assunto e procurar, na medida do possível, respostas, saídas, soluções. o texto de rui ramos que jpc cita é um exemplo dessa suprema idiotice, como aliás muito do que se tem escrito e dito sobre a quinta da fonte.
a primeira frase de maradona é absolutamente verdadeira e deve fazer-nos reflectir. é intolerável, do ponto de vista de qualquer pessoa com sentido de justiça, seja de esquerda, direita ou do raio que a parta, que alguém que se esforça a trabalhar viva em piores condições que alguém que não o faz e recebe o rendimento social de inserção. e essa realidade é demasiado frequente para ser alegremente ignorada ou tratada como um mito urbano.
significa isso que as políticas sociais são erradas e devem ser anuladas, como parece propor rui ramos (e digo parece porque na verdade ele não se compromete com o propor seja o que for)? não, não e não. creio nas vantagens de um sistema redistributivo e os dados existentes há décadas no mundo inteiro demonstram que esse sistema funciona — e funciona com vantagem para a comunidade, além da vantagem oferecida aos beneficiários. tem perversões? tem, claro. é preciso olhar para elas de frente, aceitando que existem, e tentar diminui-las.
o assistencialismo que faz crianças intratáveis das pessoas crescidas, oferecendo-nos espectáculos como o das famílias ciganas da quinta da fonte ou o dos moradores em fúria do bairro do aleixo (porto) é um erro. e surge tanto mais como um erro quanto há todos os dias gente a ter de sair de casas compradas a preços histéricos por não conseguir pagar as prestações ao banco enquanto em bairros sociais há quem não pague a renda há mais de 10 anos ou venda a chave a um primo enquanto recebe o rsi, tem uma antena meo na janela, três telemóveis topo de gama e se queixa de não ter esquentador para dar banho quente às crianças (e não estou a inventar). não é admissível que isto se passe, e tem de ser possível encontrar respostas e soluções para isto.
agora falar da criação de bairros sociais como se tivesse sido uma invenção da esquerda — a ignorância das pessoas, nomeadamente das que se apresentam como historiadoras, às vezes é um bocadinho encanitante de mais — e como se a solução fosse mandar toda a gente que lá vive para o olho da rua, acabar com o rsi e quem morresse morria é um bocadinho pouco sério de mais. a próxima vez que o professor doutor rui ramos quiser, ao fim de uma semana de notícias, falar de um assunto como a quinta da fonte e os bairros sociais em geral pode espremer as meninges para, em vez de fazer um discurso sobre o que acha que é a esquerda, apresentar as suas ideias para a forma como os países, as comunidades, os estados devem tratar os desfavorecidos. e, já agora, dizer de quem fala quando se refere às ‘opiniões da esquerda’. é que se não se importa, entre o rui tavares e o josé falcão do sos racismo, mais o rui rio (que, se calhar o rui ramos não reparou, mas se propõe deitar abaixo as torres do aleixo e realojar os seus habitantes no centro histórico do porto, em casas requalificadas para o efeito) mais aqui esta sua criada, entre muitas outras pessoas, há umas diferençazinhas. mandava a honestidade não nos colocar a todos no mesmo saco — mas é tão mais fácil, não é, professor doutor?

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