Espírito reformista

Quando me falam de contas lembro-me, muitas vezes, da cena do Fight Club onde o protagonista explica, ao seu outro eu, o seu trabalho na seguradora. Ele é pago para calcular o volume de indemnizações que um defeito de um carro pode gerar e, quando o custo das compensações e processos é superior ao custo de retirar o modelo defeituoso de circulação, manda retirar os carros assassinos. É toda uma lógica que só se demove, sem comover-se, com os mortos e feridos, quando eles ultrapassam o custo da correcção do erro.

Ontem, tive um exemplo das virtudes reformistas do nosso governo, há quem se preocupe com a oposição, eu prefiro preocupar-me com quem tem a mão na massa… Adiante, uma amiga minha foi ter a criança à maternidade Alfredo da Costa, onde tinha feito todo o acompanhamento do parto. Quando entrou em trabalho de parto gerou-se o pânico: a Alfredo da Costa e todas as maternidades públicas de Lisboa estavam lotadas. No meio do trabalho de parto, com a criança já a sair,  foi mandada para o Barreiro…podia ser pior, também existe hospital em Bragança, embora, provalmente, já tenham fechado a maternidade.

Consultados os médicos, parece tratar-se de um problema habitual, desde que o grande reformador Correia de Campos fechou várias maternidades.

As desgraças de uns são as alegrias de outros: a excelente reforma poupa dinheiro ao orçamento, para coisas verdadeiramente importantes, e manda mais clientes para o privado. Se alguém morrer numa ambulância, estaremos perante um pequeno dano colateral, perfeitamente suportável perante a nobre missão reformadora do nosso governo.

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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24 respostas a Espírito reformista

  1. A história que contas não perde relevância e gravidade por causa disso, mas talvez fiques contente por saber que, até agora, não só este governo não poupou um cêntimo com o Serviço Nacional de Saúde, como investiu mais nele em cada ano que passou. Na conjuntura actual, é obra.

    Outra coisa: fechou alguma maternidade em Lisboa? Aumentou em Lisboa o número de partos nos últimos anos? Então, se a oferta permaneceu estável e a procura diminuíu, que relação tem o programa de fecho de maternidades com o facto de “todas as maternidades públicas de Lisboa estarem lotadas” naquele dia?

  2. me diz:

    “a procura diminuíu”

    O problema é que, provavelmente, a procura aumentou (em Lisboa) à conta de casais que tinham os filhos noutros hospitais e agora aqui se concentram.

  3. Nuno Ramos de Almeida diz:

    JPC,
    Isso não vale: mudaste o teu comentário eu pareço a responder ao boneco. Vou apagar a minha resposta.

  4. Maria João Pires diz:

    Esta é uma velha guerra minha por isso cá venho eu meter o bedelho. O exemplo do fecho das maternidades como ilustração dos males que afectam o SNS é uma falácia e uma tremenda injustiça. Defender o SNS é, também, pugnar pela sua qualidade e só se conseguem blocos de partos de qualidade e excelência em hospitais onde existam inúmeras valências (obstretas, neonatalogistas, anestesistas, pediatras, etc) em permanência e, pormenor não despiciendo, é mais do q sabido q o número de partos que cada serviço tem influi na capacidade técnica desse mm serviço, a excelência neste domínio tem muito a ver com o número, por isso mesmo é que para mim – q defendo que todos devem ter direito a cuidados de saúde gratuitos e de QUALIDADE – faz sentido fecharem-se maternidades, sim.Não é olhando para o fecho de maternidades de forma cega e populista (“ai credo q o meu filho já não nasce aqui na terra, vai nascer a 30 km de distância”) q se defende um SNS de qualidade. Aliás, esta tendência para o fecho de maternidades não é de agora, relembremos o que aconteceu qdo Leonor Beleza era Ministra da Saúde e fechou a maior parte das pintelhices em q se faziam partos neste país. Deo Gratia! Por alguma razão Portugal está tão bem cotado nos rankings de saúde materno-infantil.

  5. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Maria João Pires,
    É tudo falácias e acusações ignóbeis ao governo e mesmo uma conspiração internacional e a subida do petróleo. Lamento desiludir-te. Mas, responde a isto o quê que isso tem que ver COM AS MATERNIDADES DE LISBOA ESTAREM FREQUENTEMENTE LOTADAS E AS PESSOAS OBRIGADAS A IR DE AMBULÂNCIA, EM TRABALHO DE PARTO, PARA HOSPITAIS DOS ARREDORES.
    Parece-me uma situação anormal, a menos que tu recomendes passeios terapeûticos de ambulância. Depois essa conversa de encerramento de serviços hospitalares, tribunais e outros serviços públicos para bem das populações do interior tem mt que se diga.

  6. Maria João Pires diz:

    Digo-te que não é verdade que as maternidades de Lisboa estejam frequentemente lotadas e q as pessoas sejam obrigadas a ir de ambulância, em trabalho de parto, para hospitais dos arredores. Acontecerá em situações pontuais, como neste momento em que, por o bloco de partos de Vila Franca de Xira estar provisoriamente encerrado (estão a substitui-lhe o telhado), o afluxo de mulheres a Lisboa é maior. Anyway, não estou a dizer que não se devam AUMENTAR, se necessário, os blocos de partos existentes, o que te estou a dizer é que a política de fecho de maternidades não é nenhum atentado ao SNS, antes pelo contrário.

  7. Maria João Pires diz:

    mais uma coisinha: tb. não é drama nenhum ser-se transportado em trabalho de parto (aquilo demora q se farta). Se me falares em ataques cardíacos aí o caso já muda de figura. Por isso mesmo é q insisto que o exemplo dos blocos de partos é uma falácia.

  8. Maria João Pires diz:

    e outra coisa mais. Não mistures “Depois essa conversa de encerramento de serviços hospitalares, tribunais e outros serviços públicos para bem das populações do interior tem mt que se diga.”, limitei-me a falar dos blocos de partos, certo?

  9. Nuno Ramos de Almeida diz:

    MJP,
    Desculpa lá, mas eu tenho direito a misturar tudo se acho que fazem parte da mesma política. Até tenho direito a não concordar com o encerramento de muitos serviços do SNS, mesmo que tu não estejas de acordo. Como diria alguém, é a vida.

  10. Maria João Pires diz:

    Não mistures esses argumentos na conversa que estavas a ter comigo, era o que eu queria dizer, porque, insisto e tal como te disse por mail logo no início, a política de encerramento de blocos de partos tem motivações muito particulares.

  11. MJP,
    Volto a repetir-te na minha opinião as insuficiências crescentes do SNS (vê o caso da falta de médicos), o encerramento de serviços, entre os quais as maternidades, a perda progressiva do seu carácter gratuíto, e mais uns trocos, fazem parte da mesma política. E eu não concordo com essa linha de conduta. Sobre as maternidades, conheço muitos médicos e enfermeiros, a maioria deles que não ambicionam chegar a chefe de serviço e até alguns directores e ex-directores hospitalares que reputo de honestos e que não se vendem por cargos, que têm uma opinião diferente da tua e da do governo.

  12. rvn diz:

    caríssimos,
    interessante diálogo, de surdos em largos excertos, mas raspando a essência aqui e ali. Parece-me um post escritopela emoção e com a parte do coração que se afligiu com o caso particular, o que não só não é crime como se percebe e aceita. Até porque não diz disparates, nem um, quanto muito generaliza e trata pela rama questões mais complexas, como terá dito a mjp. A quem, de resto, se fica a dever a pérola a reter deste episódio, na minha opinião. Devia ser obrigatório, para todas as parturientes em plena hora que esbarrarem nas portas cerradas das tais ‘pintelhices’ onde seria suposto darem à luz, a leitura desta preciosa informação sobre quão bem cotado estará Portugal nos rankings de saúde materno-infantil. Não resolveria porra nenhuma e os riscos mantinham-se, num tempo onde qualquer situação de uma parturiente em bolandas pelo país profundo é obscena e imperdoável (a não ser para as estatísticas da chicana política). Mas sempre matava o tempo enquanto a pobre fechava as pernas até ter autorização, não para parar mas sim para parir.

  13. Maria João Pires diz:

    Quem o leia até pode pensar que parir é coisa assim de uns minutos, Rui. Ohh, antes fosse, antes fosse… como bem sabemos todos, a não ser em casos absolutamente originais, há tempo mais que suficiente até para ir de Lisboa ao Porto e voltar, por isso convém não dramatizar. Dramáticas eram, mantenho, as condições em que as mais de 180 pintelhices funcionavam antes de serem encerradas nos anos 80. Infelizmente algumas demoraram um pouco mais tempo a fechar.

    Já agora, e porque costumamos invejar as boas práticas que vêm do exterior, é capaz de ser boa ideia relembrar que em países com sistemas de saúde muito elogiados, caso da França, os partos tb. são concentrados nos grandes centros hospitalares regionais.

  14. Não sei a que te referes, Nuno. Não mudei comentário nenhum.

  15. me diz:

    “é capaz de ser boa ideia relembrar que em países com sistemas de saúde muito elogiados, caso da França, os partos tb. são concentrados nos grandes centros hospitalares regionais.”

    O problema é que, por cá, já nem nos grandes centros hospitalares regionais. Estamos a falar de Lisboa!…

  16. Nuno Ramos de Almeida diz:

    JPC,
    Devo ter lido em corrida. Li que a história não era relevante na primeira leitura.

  17. rvn diz:

    mj,
    claro que sim, haverá seguramente tempo para essa viagem ou até maior, o que não me parece que haja é necessidade de passar por ela ou sequer lógica em fazê-la… veja-se por onde se vir, o tinóni não dá grande ambiente de relaxe ao processo, fora os solavancos..:-))

  18. Maria João Pires diz:

    Eheh, só mesmo um gajo para falar em relaxar num momento daqueles. Aquilo dá lá para relaxes? Acho que aqui nunca fiz uma vénia à epidural, agora é um bom momento: abençoadinha epidural que é a melhor invenção que existe à face da terra! 😉

    (me, é capaz de ser boa ideia não tomar como ilustrativo da realidade uma situação pontual para a qual, como aliás referi antes, pode ter contribuído o facto de, neste momento, um bloco de partos da região de Lisboa estar encerrado para obras.)

  19. o sátiro diz:

    Creio q não há dúvida q o fecho de maternidades, centros de saúde, escolas e por aí fora é muito negativo para essas regiões.
    O q o Estado devia fazer era melhorar esses serviços.
    Com o fecho dos centros de saúde, por exemplo, há doentes q estão 10 ou 11 horas em urgências(posso dar exemplos), porque as doenças menos graves têm q ir parar ao hospital.
    E há muitos anos q se sabe q os doentes têm q ir de madrugada para os Centros de saúde, esperar, às vezes, na rua meia dúzia de horas para serem atendidos à pressa.
    Assim, o SNS é uma fraude.
    Quando barril do petróleo andava pelos 10 ou 12 $, no final dos 90 é q deviam ter sido feitas as reformas.
    Agora é muito difícil não andar para trás.

  20. is a bel diz:

    NRA,
    pensei em comentar com exemplos (reais) das consequências do número insuficiente de incubadoras nas maternidades ainda existentes. Mas depois lembrei-me desta canção
    http://www.youtube.com/watch?v=hvrbowDdsms
    ‘y’a longtemps qu’on fait d’la politique /Vingt ans de guerre contre les moustiques’

  21. Nuno diz:

    Cara MJP
    Está a pregar no deserto. O NRA nunca na vida irá concordar com os seus argumentos por mais válidos que sejam atirando bugalhos para a discussão, pq o que se pretende aqui é criticar o governo, esses bandidos que andam para aí a fechar maternidades!! É preconceito ideológico!
    A taxa de mortalidade infantil em Portugal é das melhores do mundo, factor a que não é alheio o fecho de maternidades nos anos 80 sem condições e com poucos nascimentos! Se dependesse do NRA teriamos maternidades em todas as aldeias, mas taxas de mortalidade infantil iguais aos paises subdesenvolvidos!
    E a senhora em questão já é mãe?

  22. Junu diz:

    Maria João, apenas duas ou três considerações.
    Em primeiro lugar Portugal não é França, nem tem a rede viária francesa,suponho eu. O que sei, porque conheço muito bem o interior do nosso país é que uma distância de vinte e tal quilómetros pode ser dramática de se fazer, sobretudo no Inverno. Em sítios onde nem sequer há transportes públicos, onde as pessoas se sentem realmente desamparadas e onde o taxista de serviço quando o há, pode estar com uma valente carraspana e onde o bombeiral da moda não tem recursos suficientes. Este continua, também, a ser o Portugal dos nossos dias que é, não poucas vezes, apelidado de populista quando decide vir para a rua manifestar-se. Pois bem, é este o povo que, também, é Portugal. “Eduque-se o Povo”, porque assim não há quem os aguente!

    Mas já me alonguei, a outra consideração prende-se com o facto de achar o teu discurso um grande contracenso: se por um lado dizes, e com razão, que os blocos de partos devem ter ao seu dispôr todos os meios (neonatologistas, pediatras, obstetras, etc, etc) para prestar um serviço de excelência, não percebo como é que não te incomoda que para que possa haver esse mesmo serviço de excelência nalguns sítios, não haja nos outros. E, ainda neste sentido, nem sequer te repugna que uma mulher numa altura vulnerável possa ter a criança na ambulância, onde não me parece que possa ter essa assistência de excelsa qualidade e dignidade. Esse argumento é que me parece uma falácia.

  23. Maria João Pires diz:

    Conheces muito mal a realidade francesa, nesse caso. Eu q já lá vivi, longe de Paris e de grandes centros urbanos, afianço-te q em certas zonas é bem mais difícil chegar a um hospital do q em qqr ponto de Portugal. By the way, como presumo q tb. saibas não vale a pena trazeres-me exemplos da zona-limite, a saber o nordeste transmontano, porq a conheço bem, oh se conheço. E foi, aliás, essa zona a minha bitola de comparação para a afirmação q fiz acima.
    Muito rapidamente porq estou mm cheia de pressa: é impensável dotar todos os hospitais de qqr país que seja com as equipas multidisciplinares q um parto exige para estarem cobertos todos os riscos. Não tem a ver só com gestão financeira mas com recursos humanos, formação médica, necessidade de prática clínica incompatível com hospitais com poucos partos, etc etc…

    Qto à história da ambulância parece-me óbvio q qdo se fala em casos destes estaremos sempre em situações de “margem” ou seja, são situações q ultrapassarão sempre qqr previsão.

  24. Junu diz:

    Maria João, antes de começar:

    Errata: onde se lê contacenso, deve ler-se, evidentemente, contrasenso.

    Bom, continuando, realmente em relação à realidade francesa meto a viola ao saco, porque não a conheço assim tão bem, para me pronunciar assertivamente sobre ela e, por isso mesmo, fiz a ressalva através do “suponho”. Ainda que considere que terão outros meios que não faço ideia se nós teremos, mas isso não passa da esfera das suspeitas.

    Quanto à realidade transmontana, uma vez que a especificaste, não quero dirimir contigo argumentos de quem conhece mais ou menos. Falo apenas daquilo que sei e vi e, pontualmente, ainda vejo. Passei lá a minha infância e juventude, em férias de verão inesquecíveis, de cheiros e gostos apetecíveis, mas não posso dizer com verdade que nessa altura tenha lá vivido. Viver é um conjunto de coisas muito mais vasto do que passar lá uns tempos. No entanto, na minha vida adulta, por via do meu trabalho, vivi lá um bom conjunto de anos que no total, entre várias cidades, vilas e aldeias prefazem cerca de uns oito anos, 3 dos quais passados numa dessas aldeias perdidas e todavia tão próximas porque tudo é à escala portuguesa, uma escala pequenina que se pode tornar insuportavelmente grande.É nesse sentido que digo que nessa altura “vivi”, efectivamente, lá. Partilhei tudo o que há a partilhar na vivência quotidiana, as alegrias, as tristezas, os anseios, os medos; a sensação de muitas vezes me sentir aprisionada(não conduzo) e manietada, por haver falta de transportes e as estradas não serem as melhores, entre outras coisas. E é de tudo isto que falo, do dia-a-dia compartilhado e vivido, das gentes e das terras.

    Finalmente, com isto quero apenas dizer que há, por vezes, muita falta de sensibilidade quando se diz que as pessoas cedem ao populismo quando vêm para a rua bramar contra o fecho de uma urgência ou maternidade, ou até uma repartição pública. Continuo a dizer que esta é a nossa gente e que muito ainda há a fazer por esta nossoa gente e que não é um qualquer programa “Novas Oportunidades” que vai mudar as mentalidades. E que não é a fazer reformas cegas que o país “pula e avança”.

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