Pretos e ciganos

Surge em cada Verão interpolado uma história de violência e crime na Grande Lisboa que é suposto ter grandes leituras politicamente incorrectas. Num Verão,, foi Durão Barroso, à procura de um caminho para São Bento, que decretou que havia graves problemas com os imigrantes de “segunda geração” (ou seja, os que não são imigrantes).

Paulo Portas também está sempre à espera de um arrastão, falso ou verdadeiro, que faça o milagre de o extrair dos três por cento que tem nas sondagens. E uma série de comentadores considera-se vítima da “ditadura do politicamente correcto”, se a etnia dos implicados não for proclamada como explicação fundamental de todo o problema.

Durante o ano inteiro, há notícias de violência noutras cidades do país, ou até no campo. Quando há assassinatos na noite portuense, ninguém exige que se fale dos “problemas de integração dos portuenses”. Quando há um roubo numa estação de gasolina ou pancadaria numa discoteca de província, ninguém reclama por um debate sobre “inimizades entre gangs rurais”. E não se exige nem reclama esse debate porque ele seria desproporcionado. Toda a gente sabe que crime é crime, para ser tratado com a implacabilidade necessária, e que o Porto é o Porto e a província é a província. Um crime entre portuenses deve fazer-nos pensar sobre o crime mais do que sobre os portuenses.

Mas um crime em Lisboa quer dizer, em código, “pretos e imigrantes”. E isso é uma festa – para quem pretende falar, não do crime em si, mas de imigração e “politicamente correcto” e do falhanço das políticas sociais.

Toda a gente tem noção, num país como Portugal, de que a violência é a excepção e não a regra. Há mais violência doméstica do que violência urbana neste país: é porque os maridos são violentos e detestam as mulheres? Não: a excepção não é a regra.

Um jovem delinquente pode ser a prova de que a política de integração falhou para ele, mas não é a prova de que a integração falha sempre. À volta dele existem milhares de outros jovens que são nossos alunos, que são nossos colegas e nossos vizinhos, e que levam as suas vidas.

Se quiserem piorar as coisas, cedam à demagogia e declarem a falência do rendimento mínimo, dos assistentes sociais e da igualdade de oportunidades que serviram para esses. Se quiserem melhorar as coisas, reservem um pouco de espaço mental para as experiências que dão certo e apoiem a sua multiplicação – sabendo que elas jamais irão resolver todos os problemas.

Acima de tudo, não misturem o que não é para ser misturado. Crime trata-se como crime, armas ilegais como armas ilegais, integração como integração, imigração como imigração. Os ciganos da Quinta da Fonte, dependendo de que ciganos são, nem sequer são imigrantes: podem estar aqui neste país há quinhentos anos. Os negros da Quinta da Fonte, dependendo de que negros são, provavelmente nem são imigrantes: podem ter nascido aqui, ou ser oriundos de países onde nós andámos quinhentos anos.

Cada aspecto da realidade – o crime, as armas ilegais, o bairro social, o racismo e preconceito interétnico, as comunidades fechadas – pede uma discussão que merece ir longe. Mas o que nos propõe quem se queixa do “politicamente correcto” não só não vai muito longe como fica ridiculamente perto. Na sua ingenuidade, acham que basta poder dizer as palavras “pretos e ciganos” para as coisas se resolverem.

Pretos e ciganos. Pretos e ciganos. Pretos e ciganos. Já está resolvido?

16.07.2008, Rui Tavares

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23 Responses to Pretos e ciganos

  1. fcl says:

    Rui Tavares, obrigado pela sua lucidez. E por saber transmiti-la tão bem.

  2. Simples e claro, mt bem.

  3. anonymouse says:

    finalmente ar

  4. Maria Fernandes says:

    Um texto muito esclarecedor, inteligente e humanista! Ainda bem que existem pessoas como Rui Tavares neste país, é o que nos salva da medíocridade, da ignorância e do atraso mental que, infelizmente, ainda impera numa parte dos portugueses com muita vergonha minha que também sou portuguesa e não sou assim preconceituosa e ignorante. Continuem sempre neste blog fomentando o esclarecimento e a justiça como tem feito até aqui!! As melhores felicidades!

  5. Daniel Marques says:

    A crónica apesar de lucida nos argumentos falha a tese que pretendia provar: o caso quinta da fonte nao deve ter leituras politicamente incorrectas. Ora é mais do que claro que tem: a integração interetnica não funciona na prática. Não é por o João Miranda falhar o alvo que o Rui Tavares passa a ter razão.

  6. umpequenoreparo says:

    rui,

    os ciganos não podem estar cá há 500 anos, quando muito há 100 e já é com muita saúde. Essa tentativa de mostrar ao mundo que nem todos os ciganos são iguais, apesar de louvável e que só peca por tardia, saiu ao lado. Eu, branco português, sem ter podido escolher outra coisa, aqui declaro que não descendo de nenhuns intrépidos lusitanos e não pertenço ao grupo dos que são portugueses há 900 anos (ver falta de cabelo nas pessoas que normalmente dizem isto, confere).

  7. Sérgio says:

    Rui Tavares, falando por mim, eu não pretendo que que se diga que eram pretos ou ciganos.
    Eu não pretendo declarar o falhanço do rendimento mínimo.
    Eu não pretendo dizer que estes ou aqueles não pertencem aqui.
    A única coisa que eu gostaria era que a dualidade de critérios acabasse.
    É que sempre que uma situação destas tem por intervenientes pessoas pertencentes à franja maioritária da sociedade, que, doa a quem doer, corresponde a portugueses de origem europeia, pronto, nunca estamos perante um caso de delito comum mas sim de racismo.
    Se a vitima é homossexual é sempre crime homófobo, se a vitima é de outra raça, é crime racial, se a vitima é estrangeira é crime xenófobo.
    Se a vitima é branca, é delito comum, circular, circular.
    Isto quando já fui testemunha de agressões em que expressões como “pula de merda” eram disparadas a torto e a direito custa um pouco a engolir.

  8. Nuno says:

    O texto do Rui Tavares seria esclarecedor se apresentasse os bons argumentos e refutasse os maus argumentos de ambos os lados do debate. Como não é assim, é apenas mais um texto parcial e ideologicamente determinado. O que Portugal precisa é de argumentos inteligentes, não de visões ideológicas.

  9. umpequenoreparo says:

    sérgio,

    já alguma vez viste uma sessão de um tribunal em que a expressão que referes não fosse usada para agravar a pena ou possibilidade de condenação do arguido?

  10. rui tavares says:

    Vá lá, minha gente, isto não é nenhum mistério!

    Crime de racismo puro e simples: caso do Alcino Monteiro. Foi morto porque a) era mulato; b) vinha a subir a rua. Os assassinos não o conheciam, não eram vizinhos dele, nunca tinham tido uma briga, ele não lhes tinha olhado para a namorada deles, etc. A motivação única era a racial. Ficou provado que num grupo com brancos e negros/mulatos, os assassinos só batiam em mulatos e negros que, provavelmente, nunca tinham visto na vida. Nem sequer mataram Alcino Monteiro por “ser cabo-verdiano” (ele era português). Se ele fosse um cabo-verdiano branco ou um cabo-verdiano branco traficante de droga, ou um cabo-verdiano branco judeu (posso apresentar-vos alguns) não lhe teriam tocado, desde que fosse branco.

    Agora outra hipótese. Uma briga num bar por motivos fúteis, como qualquer briga em bares por motivos fúteis. Um branco bate num negro, um negro bate num branco. Imaginemos que eu (branco) bato num negro porque o gajo me chamou filho da puta. É crime? Sim. É crime racista? Não.

    Agora imaginemos que na mesma briga o pessoal se bate e cita Gil Vicente. O gajo diz-me: vai pró inferno, branco! Eu respondo-lhe: mija na agulha, preto! É crime? Sim. Teve motivação racial? É incerto. Foi agravado pelo racismo? É bastante provável. É possível que o tribunal determine que as agressões foram mais violentas, danosas, culposas por causa do racismo? É possível. Deve por isso agravar a pena: é o que diz a lei, e eu concordo.

    Quinta da Fonte: o racismo é uma das dimensões? (sim, esta lá no texto) o preconceito, na medida em que não é estritamente a mesma coisa que o racismo, é uma das dimensões? (sim, está lá no texto) o facto de comunidades fechadas lidarem mal com a diferença é uma das dimensões? (sim, está lá no texto) os bairros sociais, a posse de armas, a criminalidade entre jovens, o controle de tráfico de droga? sim, sim, sim, sim, e provavelmente tanto ou mais do que o racismo COMO MOTIVAÇÃO. isto é um palpite, e apenas um palpite, mas não creio que o tiroteio da quinta da fonte tenha tido por objecto os negros ou ciganos por serem negros ou ciganos (o pessoal não saiu a atirar sobre qualquer negro ou cigano da rua, mas sobre aqueles que moravam ali ao lado em particular, o que justifica o meu palpite) mas por desavenças que MUITO PROVAVELMENTE foram agravadas pelo racismo. Isto está lá no texto, caramba. Citar o racismo como uma das dimensões do caso não é a mesma coisa do que negar o racismo como uma das dimensões do caso. É o contrário.

    Matar o vizinho com quem se teve uma briga não torna o assassinato menos grave. Matar um gajo qualquer na rua com quem nunca se teve contacto apenas porque ele é preto (ou branco, ou gordo, ou careca) é que torna o assassinato MAIS grave, sem de forma alguma desculpar o assassinato do vizinho com quem se teve uma briga.

    Agora, fazer equivaler este caso ao do Alcino Monteiro é errado e, como é errado, não nos ajuda a pensar o assunto. Como não nos ajuda a pensar o assunto, vai ajudar-nos a cometer erros (erros políticos) no futuro.

    Todos os que querem fazer equivaler ambos os casos, a começar pelo João Miranda que até sabe fazer umas tabelas, podem fazer o seguinte exercício:

    pergunta? Alcino Monteiro / Quinta da Fonte

    o conflito foi local? não / sim
    havia uma desavença prévia com o agredido? não / sim
    agrediu gente de outra raça / etnia que nada tinha a ver com o conflito? sim / incerto
    tinha intenção de agredir qualquer pessoa de outra raça, mesmo que não tivesse desavença prévia? sim / incerto
    concretizou essa intenção, ou seja, saiu do bairro e foi pela cidade agredindo qualquer pessoa de outra raça e deixando os da mesma raça em paz? sim / não
    há um historial de conflitos no local por outras razões? não / sim
    rivalidade no tráfico de drogas? não / sim
    há um historial de propaganda e organização política/criminosa sobre a inferiodade da outra raça? sim / não

    e por aí adiante, até chegar a:
    o conflito da quinta da fonte foi agravado pelo racismo? (meu palpite) sim
    o conflito da quinta da fonte foi motivado pelo racismo? talvez, é indeterminado, mas não é certamente a única motivação nem a única causa.
    o assassinato de Alcino Monteiro foi exclusivamente motivado pela raça? o tribunal provou que sim, e era evidente que sim.
    o assassinato de Alcino Monteiro foi um crime racial em sentido estrito? sim.
    o conflito da quinta da fonte foi um conflito racial em sentido estrito? foi um conflito entre raças mas não é claro se foi um conflito racial. “Em sentido estrito”, dificilmente será.

    O conflito da Quinta da Fonte foi grave? Sim. O assassinato de Alcino Monteiro e “a caça ao negro” desse dia 10 de Junho foram muito mais graves? Sim. Quem pretende fazer equivaler os dois casos não pensou muito sobre o assunto? Sim.

  11. jorge c. says:

    Isto foi o quê, um espasmo?

  12. rui tavares says:

    outra coisa: há ciganos em Portugal, pelo menos, desde a segunda dinastia. Se eu tivesse tempo para ir buscar um livro ali à estante até lhe diria que provavelmente já cá estavam na primeira dinastia. Mas de memória, digo-lhe que na segunda já cá estavam e eram proibidos, pela maioria dos concelhos, de ficar mais do que três dias no mesmo lugar.

  13. Olhe Rui Tavares, os meus parabéns. E o que eu digo é apenas:

    Pretos e ciganos. Pretos e ciganos. PRETOS E CIGANOS. Já está… agravado!

  14. jorge c. says:

    Eu não percebi é porque vossa inteligência mor foi buscar Durão Barroso e Paulo Portas para o barulho.

  15. “Agora imaginemos que na mesma briga o pessoal se bate e cita Gil Vicente. O gajo diz-me: vai pró inferno, branco! Eu respondo-lhe: mija na agulha, preto! É crime? Sim. Teve motivação racial? É incerto. Foi agravado pelo racismo? É bastante provável. É possível que o tribunal determine que as agressões foram mais violentas, danosas, culposas por causa do racismo? É possível. Deve por isso agravar a pena: é o que diz a lei, e eu concordo.”

    Ó Rui,

    Estás a ser excessivo! Nenhum juiz que se preze e tenha a cabeça em ordem ia considerar um caso de agressão assim como crime agravado por motivo racial.
    Substitui, lá no teu exemplo, “branco” por “gordo” e “preto” por “magro”.
    A não ser que sejas adepto de uma lei inquisitorial, em busca do racista que há em todos nós ;)

    Luís Marvão

  16. umpequenoreparo says:

    rui,

    se os ciganos da quinta da fonte cá andam há 500 anos também eu quero desse elixir da juventude. deixa o livro na estante e, com mais tempo, lê o que eu escrevi e o que tu escreveste.

    E só por causa disso ainda devolvo mais, não andei em lado nenhum 500 anos.

    os “pretos” ou os “ciganos”, essas entidades tão bem definidas, não têm que ser bem acolhidos porque houve uns gajos que também eram portugueses (embora não o tenham escolhido tal como eu) que deram em colonizadores e achavam-se superiores. eles têm que ser bem acolhidos só porque sim, porque somos todos humanos.

    essa conversa tipica da esquerda de dizer “NÓS andámos LÁ a roubar durante 500 anos” mete-me alguma impressão. eu, infelizmente, nunca LÁ fui. e ainda acrescento que não roubei nada a ninguém. e que não tenho nada a ver com o que uns faxos quaisquer fizeram durante não sei quanto tempo. (já pra não falar dos perigos dessa argumentação)

    mas podes-me esclarecer, és a favor de uma discriminação positiva das pessoas oriundas das ex-colónias portuguesas?…eu não, acho que eles deviam ter os mesmo direitos que todos os outros imigrantes e só por acaso, que esses direitos deviam ser iguais aos meus e aos de todos os portugueses, incluindo o direito a entrar neste país e sair quando bem lhes apetecer.

    capice?

  17. PJMODM says:

    Comentário pertinente e certeiro se os críticos do «politicamente correcto» forem aqueles que se revoltam enquanto «a etnia dos implicados não for proclamada como explicação fundamental de todo o problema».
    Mas o «politicamente corrrecto» condiciona ou pretende limitar a análise de factos e dados sem comprometimento ideológico, por exemplo atendendo a diferenciações étnicas e culturais nas estatísticas de certas práticas sociais (crimes ou outras).
    A título meramente ilustrativo e centrando-nos nos órgãos de comunicação social e num dos grupos referidos no texto, a comunidade cigana, são correntes as reportagens sobre programas de integração (expressão de actos políticos do Estado, que em regra são escrutinados pela respectiva agência responsável ou uma outra inserida no mesmo departamento). Já a realidade da comunidade, que, como o Rui Tavares refere, não é imigrante mas um grupo integrado fundamentalmente por cidadãos nacionais com alguns elementos próprios identitários o que não significa uniformidade dos indivíduos, pode / deve ser analisada na comparação com outras comunidades (étnicas, nacionais, etc) e a média geral.
    Se houver uma reportagem que compare algumas «ratios» dessa comunidade com a generalidade da população (por ex. incidência do rendimento minímo, crimes de sangue, crimes contra o património, rendimentos declarados, escolaridade, verbas de segurança social, contributo para a riqueza na economia formal) estará a publicitar dados que provavelmente vão ser bem recebidos por quem é desfavorável às políticas de integração que têm vindo a ser seguidas e mal recebidos por quem as defende e sublinha os casos de sucesso.
    O «politicamente correcto», tem expressões de direita e de esquerda, centrados nos «exemplos», o Miranda é paradigmático. Bom seria que a análise da realidade deixasse de se centrar nos «exemplos» e optasse por dados mais amplos, e os «sucessos» fossem discutidos com menos «a priori» ideológicos. Rui Tavares responde bem aos «bias» dos pré-juízos sobre a «mão invisível» do miranda… mas centrado numa análise mais subtil de «exemplos» e não de uma abordagem mais ampla dos dados (históricos, sociológicos) e menos comprometida ideologicamente.

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  19. Vítor says:

    Eu até gosto do público por causa das tiras de banda desenhada, mas você e o judice borram a pintura toda.

  20. Saloio says:

    Fico espantado.

    Então aquilo da Quinta da Fonte não foi por causa do Bush?…nem de Israel?

    Então não concordo com a análise do Sr. Dr. Rui Tavares pois, como ele muito bem sabe, tudo o que acontece de mal no mundo é culpa de um ou daqueles dois.

    Ó Rui…então, vou ter que ir fazer queixa de si ao Comité Central,…perdão, à Mesa. Mais valia ter feito como todos os outros camaradas, e ficado muito caladinho, a comer o croquete na livraria-café, com os Abba em som ambiente, e a esperar que a malta esqueça.

    Digo eu…

  21. Planetas says:

    Touche!!

    Os bois chamam-se pelos seu nomes!

  22. Romão says:

    deixa lá,
    os pretos, ciganos e brasileiros são bem mais racistas e xenofobos do que os brancos…

  23. rocha says:

    tudo isto é muito bonito!!
    são palavras muito bonitas!!
    e estas palavras que eu digo também são muito bonitas!!
    só espero que todos os que trabalham
    quando deixarem de trabalhar tenham direito a fundo de desemprego ou á reforma
    porque andaram a vida toda a descontar para dar a quem não faz coisa alguma
    e anda á espera do rendimento mínimo
    e que anda a fazer assaltos, violentos ou não
    e andam a matar pessoas
    para essas
    temos todos que trabalhar
    sejam ciganos, pretos, chineses, brancos, o que for
    não tenho problemas, se eles tiverem um trabalho, não dependerem de alguém e se sobretudo respeitarem as outras pessoas, assim tal como eu.
    e por falar em ciganos, já aguém viu um no centro de emprego?
    é que eu já vi muitos na segurança social!!!
    e com isto me despeço.