RUI TAVARES: Um nobel para João Miranda: há pretos racistas, há ciganos racistas

Se for assim, só posso chegar à conclusão de que o JM não sabe interpretar um texto. O racismo (e o preconceito interétnico que, pense lá bem nisso, não é forçosamente a mesma coisa) está lá no meu texto como uma das coisas importantes a discutir neste caso. O JM pelos vistos acha que tem uma grande novidade a dar ao pessoal: há pretos racistas, há ciganos racistas. Ah pois há. Há pretos criminosos, há ciganos criminosos. Eh pá pois há. Digo eu: os criminosos têm que ser tratados implacavelmente. E acrescento: crimes racistas são, e MUITO BEM, agravados por lei. Entre outras razões, porque ninguém tem culpa de nascer branco preto ou cigano e apanhar porrada ou ser morto exclusivamente por isso, como Alcino Monteiro foi.E então eu explico-lhe: Alcino Monteiro vinha a subir a rua. Foi morto porque, sendo um português mulato, vinha a subir a rua. Um grupos de racistas vinha a descê-la, numa caça ao negro. Chegou a haver o caso em que encontraram um grupo de amigos, ou um casal misto, e só bateram nos negros. Ficou provado que a intenção deles era bater em negros e mulatos EXCLUSIVAMENTE por serem negros e mulatos. A gravidade disto é para mim evidente. Se os acontecimentos na Quinta da Fonte forem iguais: ciganos e pretos a dispararem uns sobre os outros EXCLUSIVAMENTE por isso, a gravidade é igual, e o tratamento deve ser igual ao que foi dado aos outros racistas. Onde está a menorização?

Agora se me dissessem: os racistas que mataram Alcino Monteiro fizeram-no porque são brancos. Temos de discutir os problemas dos brancos neste país. Estão a impedir-nos de ter um debate sobre os brancos. Ai jesus que nos estão a censurar se não for possível usar o facto de eles serem brancos a chave da explicação de tudo. Se me disserem isto, eu digo que é um absurdo, e que ao lado existem milhares de brancos que não são racistas, ou que sendo racistas não são violentos, e que (acima de tudo) não é por serem brancos que eles são racistas.

Também não farei do facto de eles serem brancos desocupados de municípios suburbanos a prova de que políticas de tempos livres das autarquias falharam. Se calhar, há mais gajos a jogar ping-pong em Almada do que a bater em pretos. Digo eu. Se calhar, há mais pretos a estudar na Universidade em Lisboa do que à porrada com ciganos. Digo eu. Se calhar, há mais ciganos a vender roupa nos bairros de pretos (costumavam ir lá à Cova da Moura, onde eu dava aulas, quase todas as manhãs) do que aos tiros aos pretos.

Se menorizar for dizer que a Grande Lisboa é, para as suas dimensões, uma área urbana segura — ok, estou a menorizar. Se menorizar for dizer que cada crime deve ser tratado implacavelmente — aí, desculpe lá mas é você que tem de ler melhor os textos que quer comentar.

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TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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