Fatalidades literárias

Olhou para ele e disse-lhe surpresa: “vamos fazer em pé?”. Ele meditou sobre o assunto e perguntou-lhe: “mas, conheces alguma outra forma?”. Estavam perante uma típica situação de determinismo físico: a alcatifa estava nojenta e o corredor não tinha mobiliário que se visse. Mais um caso em que a humanidade é produto das circunstâncias, dirão vocês, leitores alertados para a luta de classes e cientes da decadência da indústria hoteleira, com toda a razão.
A história não tem nenhuma razão de ser, tirando o facto de me apetecer falar sobre as dificuldades de escrever cenas de sexo. Só há uma coisa mais difícil do que escrever uma cena, eventualmente, de cama: o tentar passar a papel sentimentos profundos. Irritam-me os textos doces e bucólicos que metam praias, luas , marés, afectos e muitos suspiros. Os sentimentos ficam a saber a pechisbeque quando se confundem com o sabor enjoativo dos licores que sabem a xarope e o activo perfume de flores comprado em Badajoz.
Voltando às artes do romance, não li nenhuma obra da Margarida Rebelo Pinto, sou portanto uma pessoa bastante indicada para falar sobre todas elas. Contaram-me que, neste último romance, há uma passagem que diz o seguinte: ‘ Mal Bernardo ligou o computador já estava de pau feito’. Estamos, repararão vocês, perante um outro caso de determinismo, desta vez sociológico: é evidente que Bernardo, um beto naturalmente abonado (estou a falar de dinheiro), tinha um computador rápido que lhe permite manter a erecção sem cair nos abismos do priapismo. Mas, a questão é séria: como é possível escrever a cena de uma forma interessante. Eu tentei imitar Henry Miller, Bukoswski, Annais Nin, entre outros e falhei.
Desafio os leitores a tentarem-no. O sexo é um divertimento intenso e barato que nos pode distrair dos abismos do Estado da Nação. Propositadamente, não revelei que o Bernardo estava a ver gajas atrevidotas, para incluir neste desafio os outros autores deste blogue.

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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24 Responses to Fatalidades literárias

  1. Maria João Pires diz:

    ups, devia ter reparado neste texto antes de ter partilhado a mood sonora, dificilmente se encontrará som mais corta tesões q aquele. E daí…

  2. e daí nada. tens toda a razão, joão. doutor nuno, será q nos estás a desafiar para escrever/descrever cenas de sexo? achas que precisamos assim tanto de chegar aos 5 mil leitores diários?

  3. Maria João Pires diz:

    Aviso já que se alguém falar em grutas, cavernas e orifícios afins não respondo por mim..

    (nada? oh pá, isto há gostos para tudo… nunca te falei da Pornografia Vegan? 🙂 é melhor nem falar…)

  4. Peço desculpa, mas eu acho que é muito difícil escrever bem sobre seja o que for. Não percebo porque é que as pessoas só se apercebem disso quando “o que for” é sexo.

    (Ocorreu-me agora que, pelo contrário, o César das Neves só escreve bem quando escreve sobre sexo.)

  5. Maria João Pires diz:

    Hum, e quando é que ele não escreve sobre sexo?

  6. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Acho que César da Neves é o pseudónimo de um tal J. Holmes. Menos paleio e mais escrita.

  7. Difícil, difícil é escrever:
    “Olhou para ele e disse-lhe surpresa: “vamos fazer em pé?”. “

  8. Vasco diz:

    Comprem o Expresso no Sábado. O Rogério Casanova escreve sobre o último romance da Rebelo Pinto e consta que até leu o livro. É já o melhor artigo de Julho.

  9. Luis Moreira diz:

    Mas os livros dela são assim tão interessantes?

  10. Hummmm, grutas, cavernas e oríficios afins… nhac, nhac, nhac, chilep.

    O Rogério quê, Vasco?

  11. Vasco diz:

    Casanova, Rogério Casanova, o puto do Pastoral Portuguesa.

  12. jcd diz:

    Em pé, deitados ou sentados, importante é que não se esqueçam do preservativo.

  13. mas é claro, jcd. adaptando um velho provérbio judeu: ‘usa o preservativo. se não souberes porquê, o teu parceiro saberá’.

  14. malta diz:

    Quem ficou de ‘pau feito’ fui eu,quando a vi (MPR) em cima daquelas jancas de cortiça a mandá-la para 1.80m de altura.Já imaginava a Guida a dobrar-se e a apanhar punaises com luvas de boxe e,e,e, carago já não tenho folego…………

  15. Grrrrrrrr, só te desculpo tendo em conta a hora do comentário,´menino Vasco. Quem era eu percebi, o “quê” era assim mais tipo “quêêê???uótiiiiiii??”, raite?

  16. M. Abrantes diz:

    É mais fácil escrever sobre sexo do que sobre economia cubana [este blog tem 5000 leitores diários? não estais nada mal, não senhor; uns posts sobre sexo e chegam, na boa, aos 5 dígitos].

  17. A Moura Pinto diz:

    ‘Mal Bernardo ligou o computador já estava de pau feito’…
    Bolas… estou a tentar e nada. Será que tenho de estar já de pau feito para ligar o PC? Ou é quando ligo que fico? Ou será depois de ligar? E fica-se por muito tempo?
    Agora é que eu vou comprar um livro da Guida… quero saber porque não resulta comigo, onde é que eu falho. Devo estar a seguir mal as instruções… só pode ser.
    E se isso depende do sistema operativo? Ou de especial password?
    Para já vou mudar a password para “de pau feito, olaré” (claro, sem vírgula e sem o acento). Mas tem que levar o ‘olaré’ que eu gosto.

    Bem se calhar o melhor é mesmo contactar o Bernardo. Alguém tem o contacto? É por uma boa causa, vá lá.
    sff

  18. Clara diz:

    A Margarida é o únco Escrito/a bonita de PT. Que mauzinhos …

  19. A Moura Pinto diz:

    Clara
    Sem conceder, pois então que se limite a editar a foto. E não se fala mais nisso…

  20. Clara diz:

    Lol, A Moura Pinto

    A chatice é que ficariasmos confinados à foto da Margarida.
    A Margarida ainda é bonita. Os outros nem isso. E são tão ruins e tão presumidos e coisa e tal …

  21. Ricardo Santos Pinto diz:

    Também podia ser assim:
    «Minha mão tocou na sua calcinha : senti o seu sexo respirando.
    Pela primeira vez ela colocou a sua mão entre as minhas pernas e, por cima da minha calça, friccionou timidamente o meu sexo. Em seguida abriu rapidamente o meu cinturão e desceu nervosamente o zipt da minha calça. Meu sexo duro e enorme dentro da sua mão. Habilmente manejou-o com força e velocidade. Aquilo me provocava uma mistura de dor e prazer. Um verdadeiro inferno. Meus olhos se fixaram na sua vagina. Era algo descomunal, vermelho em brasas e nas bordas irradiava uma tonalidade rósea. Nunca havia visto algo parecido. Aquela vulva possuia vida própria. Uma flor carnívora pousada entre as suas coxas. Fiquei alucinado. Enfiei a mão dentro da sua buceta e meus dedos foram penetrando por aquele túnel dos infernos.»
    Não puxem por mim, vá!

  22. Credo Ricardo, deus nos livre; prefiro as parvalhices do Bukowski ou do Ubaldo.

  23. jaime roriz diz:

    Então ficava mais ou menos assim, digo eu:
    “Levanto-me com o barulho da campainha da porta. Ana …. minha querida Ana. Tenho de ti a melhor opinião. Que raio de coisa esta de eu ter opinião. Beijos, frémito de beijos, levanto-te a saia com o meu melhor ar de malandro. Reparas que no meu lava-loiças há loiça por lavar ….. Tomas conta de mim ou dás um ar de mulher à minha casa. Mexo o rato do computador na minha secretária para te mostrar qualquer coisa e inclino-me, a minha respiração toca a zona onde acaba o teu pescoço e começa o teu ombro. Os dois dentes da frente do teu sorriso estão separados, distantes, essa característica dá-te um ar especial. Ana … digo eu para mim enquanto venço o espaço que separa os meus lábios dos teus. “Há uma química” penso. Entre nós aconteceu …. queríamo-nos um ao outro. Continuo sem ser capaz de explicar o sexo. Para mim é sempre como quando tinha vinte anos. É um imperativo perceber o que se passou nessa manhã. Lavaste a minha loiça. Depois sentaste-te na minha cama e reclinaste-te para trás. Eu penso que me cobras o serviço de lavagem de loiça com sexo. Fizeste o teu “papel de mulher” – lavar a loiça – é hora de eu fazer o meu “papel de homem” – entrar dentro de ti. Recebo um telefonema da Cátia – saí ontem de madrugada de casa dela, depois de uma disfunção eréctil muito desagradável, direito para casa da Maria onde me compensei com bom e intenso sexo. “Que raio se passa comigo ?”, penso, enquanto vou ao jardim atender o telefonema da Cátia. Percebeste que estava a falar com uma mulher de quem gosto muito Ana …. tal como eu previra isso só aguçou o teu interesse sexual e despertou em mim uma fantasia estranha. Dispo-me, despes-te, despes-me, é verão e há muito calor lá fora no jardim. O cão ladra triste de não participar na festa – nas festas – Paro com o meu pénis erecto dentro de ti. “Mas porque paras ?” dizes tu a fingir irritada. Lembro-me de me sentir muito bem. E muito mal. Alguma coisa está errada nisto tudo. O telefone toca. É a Maria – é suposto eu namorar com a Maria mesmo tendo em conta o facto de acabar tudo com ela três ou quatro vezes por semana – quer almoçar comigo.”
    Publicado no livro “Avenida de Roma, duas da tarde”, Jaime Roriz, Editorial Minerva, Lisboa, 2005

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