Do vosso, Rui Hussein Tavares

Hussein é um nome árabe, diminutivo de Hassan, que significa “bom” ou “bonito”. É muito popular entre os muçulmanos, por causa do neto de Maomé que tinha esse nome, mas creio que também aparece entre árabes cristãos. E é também o nome do meio do candidato democrata às presidenciais americanas. Na rádio e na televisão, nos programas da direitona americana, não há demagogo que não goste de o tratar nome completo – Barack Hussein Obama -, puxando por aquele “Hussein” do meio que denuncia a sua herança “muçulmana” e supostamente assustará os ouvintes.

(Já agora: Barack também é um nome interessante, não somente árabe, mas comum nas línguas semitas. Aparece em hebraico como Baruch, quer dizer “bendito”, e pode ser traduzido como Bento ou Benedito.

Espinosa, filósofo de origem portuguesa e criado na religião judaica, usava todas as alternativas: era Baruch na sinagoga, mas Bento era o “nome português” com que era tratado em casa, e Benedictus o nome latino com que assinou os seus livros.)

Eis, em resumo, como o “gajo do nome esquisito” – é assim que Obama já se apresentou por vezes aos eleitores – compartilha afinal o seu primeiro nome com o Papa Bento XVI, o segundo com Saddam ditador do Iraque, e o terceiro rima com Osama. Mas é a repetição de “Hussein” para assustar os eleitores que tem causado um certo desconforto à sua campanha, o que permitia aos seus adversários uma resposta manhosa, mas de sucesso garantido: “Então vocês têm vergonha do nome do vosso candidato?”

Recentemente, entre os apoiantes jovens de Obama, alguém se lembrou deste ovo de Colombo que é ter sentido de humor: de repente, decidiram adoptar Hussein como nome do meio, e usá-lo mesmo como alcunha para os participantes na campanha deles. Uma Emily Nordling, nórdica-luterana, aparece como “Emily Hussein Nordling”, um nome irlandês-católico fica “Dan Hussein O’Malley”, e um nome euro-judaico resulta em “Sarah Hussein Frumkin”. A mensagem é dupla. “Não aceitamos que uma pessoa seja julgada pelo nome que calhou em sorte” é a primeira parte, mas talvez a mais importante seja a seguinte: “As vossas tácticas não nos intimidam.”

No seu melhor, a campanha de Barack Obama tem demonstrado isto: que não cede às chantagens emocionais dos seus adversários. Essa é uma das razões que é capaz de os levar à vitória. As anteriores campanhas democratas sucumbiram à tentação de tentar distanciar Al Gore e John Kerry da percepção pública que havia deles. Não só isso tem um preço a pagar na inconsistência da mensagem como é visto pelo eleitorado como um demonstração de insinceridade ou cobardia. Recentemente, o próprio Obama tem claudicado, moderando as suas posições sobre o Iraque ou a espionagem de chamadas telefónicas. É preciso cuidado: um eleitor prefere discordar mas respeitar um candidato, do que não saber se o pode respeitar nem concordar.

Já escrevi que Obama só não ganharia se Hillary se candidatasse como independente (hipótese entretanto excluída) ou na eventualidade de um escândalo com o próprio Obama (não com o seu pastor, nem com a sua mulher, nem nenhum dos escândalos menores que vão tentar criar à sua volta). Mantenho. Não incluí, e arrependi-me imediatamente, aquele que me parece ser o elemento decisivo dos próximos meses: a possibilidade de um conflito com o Irão (directa ou indirectamente através de Israel).

Nos últimos dias, a New Yorker publicou uma reportagem dando conta da existência de operações secretas americanas em território iraniano que poderão redundar num pretexto para esse conflito. Na próxima crónica exploraremos esse tema.

07.07.2008, Rui Tavares

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