O papelucho de Maria Filomena Mónica

No Público da passada sexta-feira descobri em grande destaque um artigo assinado pela eminente intelectual Maria Filomena Mónica com o também intelectualmente estimulante título de “Os testes de Português podiam ser substituídos por uns papeluchos como os do Totobola“.

Tal como o próprio título, o artigo constitui leitura surpreendente. A primeira surpresa é a de que Maria Filomena Mónica não sabe fazer pesquisas na internet. A autora do artigo diz: “Não foi difícil obter, na Internet, o seu enunciado [dos exames nacionais], ou antes, não foi difícil depois de o director deste jornal me ter enviado o devido link”. No entanto, a página do GAVE é o 3.º resultado numa busca do Google por “Exames Nacionais”.

Mas, uma vez ultrapassadas as dificuldades com a moderna tecnologia, Maria Filomena Mónica analisa de perto o exame de Português:

“No final da primeira parte, pedia-se ao aluno que comentasse, num texto de 80 a 120 palavras, a experiência de leitura de “Os Lusíadas”. Com medo de que esta se reduzisse a nada, fornecia-se, em epígrafe, as seguintes linhas de Maria Vitalina Leal de Matos”.

Talvez a leitura tenha sido demasiado perto, pois, ao ir ler o mesmo exame deparo-me com o seguinte enunciado:

“Considere a seguinte opinião sobre Os Lusíadas:

[citação de Maria Vitalina Leal]

Fazendo apelo à sua experiência de leitura de Os Lusíadas, comente, num texto de oitenta a cento e vinte palavras, a opinião acima transcrita.”

Tenho a vaga impressão de que a pergunta é exactamente o inverso do que Maria Filomena Mónica diz, mas há que reconhecer que passei os meus exames do Secundário a responder perguntas deste teor, numa altura em que José Sócrates ainda não fazia mamarrachos na Guarda, por isso talvez não tenha a autoridade de interpretação que tem a autora de Bilhete de Identidade.

Por outro lado, talvez possa responder ao espanto de Maria Filomena Mónica, que acha “extraordinário que, a alunos de 17 e 18 anos, se tivesse de fornecer um glossário, no qual se explicava, por exemplo, o que era o Olimpo. Que andaram os meninos a aprender ao longo de dez anos de aulas de História?” Ora, nos dez anos de aulas de História os meninos devem ter andado a aprender… História, e não Mitologia. Ou será que no Suplemento do Dicionário de História de Portugalé possível encontrar artigos sobre o terceiro segredo de Fátima?

Quase imediatamente a seguir, Maria Filomena Mónica lança uma crítica contundente. Terrívelmente contundente. Tão contundente, de facto, que chega a abalar os fundamentos subjacentes a todo o saber científico:

“A fim de serem facilmente classificadas, muitas questões eram de escolha múltipla, ou seja, a seguir a uma frase vinham quatro opções, o que nos leva a pensar que, segundo a ideologia vigente, há uma e apenas uma Verdade.”

Um exame de avaliação em que apenas se admite “uma e apenas uma Verdade”. Inacreditável.

Poderia continuar a passar os olhos – “rebater” ou “contra-argumentar” não são os termos mais apropriados para lidar com os “argumentos” (no sentido mais genérico possível da palavra) de Maria Filomena Mónica – pelas teses do artigo, mas receio que seja a própria autora do texto a fornecer o motivo mais óbvio e certeiro para que não seja necessário fazê-lo:

“Se eu tivesse sido sujeita a este exame, reprovaria”.

Este artigo foi publicado em cinco dias, Jorge-Palinhos. Bookmark o permalink.

65 respostas a O papelucho de Maria Filomena Mónica

  1. Ricardo Santos Pinto
    Concordo que os alunos se viciem em leitura, mas que seja literatura.
    Não dê ideias! Ou seja, não tarda nada que esses horríveis e horripilantes seres que andam por aí a editar livros vão considerar-se de leitura obrigatória e aparecer nos manuais…
    E há meninos/as (de Estudos Portugueses) que nunca leram Herberto Hélder e “poetas” (verdadeiros cangalheiros da língua portuguesa) existem por aí que dizem mal da poesia do António Franco Alexandre Grotescos! Grotescos!.

  2. A. Laurens diz:

    Até tem graça. Mas aquela de Sócrates ter desenhado aquelas casas lá na Guarda é coisa reaccionária ou falta de informação? Não sabe que as casas clandestinas, que deveriam ser abatidas, quando da legalização é assunto dos engenheiros camarários? Pois é… os extremos tocam-se. Então acredite que os engenheiros continuam a fazer casas daquelas.

  3. Ricardo Santos Pinto diz:

    Se lerem a Margarida Rebelo Pinto ou o Paulo Coelho, sempre é melhor do que nada.
    É como ler os jornais gratuitos..

  4. al diz:

    Ricardo Santos Pinto: mas esta gente não lê. E a escola também não incentiva, que podem começar a pensar. Pelo que me apercebi, na escola não há exercícios de leitura: não lêem em voz alta . por isos, talvez, uma dicção péssima e com erros – nem recitam poesia (que se fez para ser lida em voz alta!) e como as concepções sobre a memória são as de há 70 ou mais anos, não memorizam poemas porque devem achar pouco digno. Também não creio que lá a casa tenham chegado os jogos de outros tempos e que eu ainda joguei na praia, género “cadavre excquis”.
    Pouco ou nada lêem e, por isso, escrevem mal e em viés, num português feiíssimo. E é já toda uma geração: lembre-se do ex-ministro Coelho a dizer “há-dem” na AR, leia a legislação… Aliás, nem com os facilitismos a média dos exames conseguiu ser positiva. Apesar disso parecem contentes e satisfeitos consigo mesmos, «na senda do progresso».

  5. joseph diz:

    Não há dúvida que Maria Filomena Mónica é mesmo parva.

  6. Ricardo Santos Pinto

    Esses dois escritores (um deles, o escritor português mais bonito, a Margarida) até nem são dos pseudo, aqueles que se apresentam com pretensos iluminados poetas, romancistas etc – as grandes revelações. O grave não é que escrevam e sejam editados … o grave é que dominam sectores que facilitam a propaganda em seu torno como se aquilo que escrevem fosse um monumento à palavra. E afinal assistimos ao massacre da palavra, extermínio do gozo da palavra. … Um livro como bem dizem os putos é uma seca, o pior dos castigos. Eu não leio. E sem pejo algum, quando me oferecem livros (geralmente o da moda), desdenho do presente.
    Por exemplo, aquela Editora – a quasi – existe para quê? Para editar medíocres. O mercado livreiro está tão bem de saúde financeira que editoras assim florescem como cogumelos. Eh ehe heh e passam por ter critérios. Onde já se viu colocarem na direcção da Casa Fernando Pessoa Jornalistas/ Articulistas um deles da gastronomia do talher ( não etou a dizer que sejam más pessoas, atenção! Estou a falar das suas qualidades de gestão ….)?? Qual a seriedade?

    Pois! Alimentam os monstros e depois querem que os putos gostem de ler … Mas vale gostarem do CRoonald, pelo menos percebem o que pode valer umas penas …

    PS.: Cada vez que o Paulo Teixeira Pinto transcreve, num jornal qq, unas frases com a legendagem de Poema, da-me ganas de lhe da 2 estalos. Pois! A Criatura até nem pensa mal, mas depois faz “poemas”. A Poesia no séc. XXI virou doença contagiosa …

  7. Jorge Palinhos diz:

    >Comentário de al
    >Data: 8 Julho 2008, 19:34

    >Jorge Palinhos: “diriam que não porque não se revêm”.
    >Do inglês não sei muito. Do português sei que dá gente que dá erros >destes.

    Ai agora o argumento é gralhas textuais? OK:

    “Como intepretar?”
    “A questão do Olimpo em é, de igual modo, humilhante.”
    “A gente vê logo que ela não conseguia fazer uma escola superior de edcuação ou uma qualquer…”
    “Sem entrar nos méritos e deméritos da escolha múltipla, sempre me parece que as ciências e das ciências exactas exactas se adaptarão com menos escândalo do que as humanidades.”

    Já para não falar das frases quase incompreensíveis de tão entarameladas.

    >Ah, e claro está, conheço algumas dezenas de ingleses que vêm fazer >o doutoramento a Lisboa.

    Tal como deve conhecer várias dezenas de portugueses que vão fazer doutoramentos à Coreia do Sul, que tem dos sistemas de ensino mais exigentes e conceituados do mundo.

  8. Ricardo Santos Pinto diz:

    Revêm são aqueles que se vêm duas vezes. Não percebe nada!

  9. Eis um post intelectualmente indigente, pura e dura maledicência.

    Em relação às perguntas de escolha múltipla num exame de português: penso que um exame de português deve ser capaz de medir, sobretudo, a capacidade de escrever dos alunos (mais do que de ler – já que não sabendo ler nem um exame de matemática se consegue fazer).

    Em relação à capacidade de ler, e já agora pensar (coisas muito necessárias em todas as disciplinas e não só no português), dificilmente se mede já que as ajudas, pelos vistos, são tantas que só um camelo será incapaz de “fazer” alguma coisa, ao menos, suficiente.

    Ainda sobre escrever, diz o autor do post:
    “Tenho a vaga impressão de que a pergunta é exactamente o inverso do que Maria Filomena Mónica diz”

    “é exactamente o inverso”??? hmm?? o que é que isto quer dizer?
    é o “inverso” como?? “inverso” como negação???

    Mas vamos lá ver se consegui ler:
    A mim parece-me que pedir a A que comente um texto de B sobre C, não faz sentido se A não conhecer o texto de C.

    Assim, é óbvio que tal pedido apela à experiência de A sobre a leitura de C. Ou não?

  10. Jorge Palinhos diz:

    >Comentário de David Fernandes
    >Data: 9 Julho 2008, 12:56

    >Eis um post intelectualmente indigente, pura e dura maledicência.

    Era esse o objectivo: reflectir tanto quanto possível a qualidade do artigo de Maria Filomena Mónica.

    >Em relação às perguntas de escolha múltipla num exame de português: >penso que um exame de português deve ser capaz de medir, >sobretudo, a capacidade de escrever dos alunos (mais do que de ler – >já que não sabendo ler nem um exame de matemática se consegue >fazer).

    Não. O objectivo do exame é aferir da capacidade de escrita e interpretação de textos.

    >Em relação à capacidade de ler, e já agora pensar (coisas muito >necessárias em todas as disciplinas e não só no português), dificilmente >se mede já que as ajudas, pelos vistos, são tantas que só um camelo >será incapaz de “fazer” alguma coisa, ao menos, suficiente.

    Ajudas em quê? Em compreender linguagem rebuscada? Saber o dicionário de cor é pensar?

    >Assim, é óbvio que tal pedido apela à experiência de A sobre a leitura >de C. Ou não?

    Não. O que se apela é que o aluno argumente em relação ao postulado de Maria Vitalina e para isso terá de recorrer à sua leitura d’Os Lusíadas. O que Maria Filomena Mónica diz é: “No final da primeira parte, pedia-se ao aluno que comentasse, num texto de 80 a 120 palavras, a experiência de leitura de “Os Lusíadas”.”

  11. > Era esse o objectivo: reflectir tanto quanto possível a qualidade do artigo de Maria Filomena Mónica.

    Já se sabia. Só acho é que a argumentação é fraquinha.

    > Não. O objectivo do exame é aferir da capacidade de escrita e interpretação de textos.

    Pois, como eu disse (leu a palavra “sobretudo”?).

    Acha então que com “cruzinhas” se pode aferir da capacidade de interpretação? Acha que o que as múltiplas respostas DIZEM não pode falsear a tal avaliação da capacidade de interpretação? É que eu acho que sim; e por isso para mim é: nada de cruzes, tudo escritinho como deve ser.

    Nestas coisas das cruzes lembro-me sempre do Quem Quer Ser Milionário (e já agora, de um exame de Álgebra Linear), em que, por absurdo, se excluem rapidamente uma ou duas hipóteses e, claro, a probabilidade de acerto sobe substancialmente.

    > Ajudas em quê? Em compreender linguagem rebuscada? Saber o dicionário de cor é pensar?

    Estamos a falar do Olimpo? Se estamos, para mim, nada de glossários; ou sabe o que tem que saber ou não sabe. Usar o exame para aprender é tarde demais, além de que caderninho de “palavras difíceis” era na primária.

    Mas o que eu pretendia dizer com o “ler e pensar” era sobre, novamente, as cruzinhas.

    > (…) O que Maria Filomena Mónica diz é: “No final da primeira parte, pedia-se ao aluno que comentasse, num texto de 80 a 120 palavras, a experiência de leitura de “Os Lusíadas”.”

    Que é o que, no fim de contas, se pretende; não acha? É que não vejo como se possa concordar ou discordar do que diz a Vitalina sobre Os Lusíadas sem falar da própria experiência da sua leitura.

    Obrigado.

  12. Ai! Jorge Palinhos, isto de corrigir as emendas aos Sonetos dá nisto: (eh ehe ehe he ) a geração Filomena Mónica chumbava toda no exame … eh eh eh

  13. cristã diz:

    sobre “jorge palinhos, 8 de Julho de 2008, comentário das 17:21”: no coments.

  14. JP. Doente?
    Huuuuuummm … então escreve! Tá!

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