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2 Julho 2008 | por Fernanda Câncio

COMUNICADO DA ILGA-PORTUGAL 

 

Homofobia assumida de Manuela Ferreira Leite

Associação ILGA Portugal quer que restantes partidos clarifiquem se também querem discriminar

 

Ontem, numa entrevista à TVI, Manuela Ferreira Leite (MFL) admitiu sem hesitações que discriminava gays e lésbicas, defendendo a manutenção do apartheid legal no acesso ao casamento civil.

As declarações da líder do PSD, reproduzidas no Diário de Notícias, incluem:

“Eu não sou suficientemente retrógada para ser contra as ligações homossexuais. Aceito. São opções de cada um, é um problema de liberdade individual, sobre a qual não me pronuncio.”

“Pronuncio-me, sim, sobre o tentar atribuir o mesmo estatuto àquilo que é uma relação de duas pessoas do mesmo sexo igualmente ao estatuto de pessoas de sexo diferente”.

“Admito que esteja a fazer uma discriminação porque é uma situação que não é igual. A sociedade está organizada e tem determinado tipo de privilégios, tem determinado tipo de regalias e de medidas fiscais no sentido de promover a família”, explicando que essas medidas eram “no sentido de que a família tem por objectivo a procriação”. A propósito do casamento entre pessoas do mesmo sexo, afirmou: “Chame-lhe o que quiser, não lhe chame é o mesmo nome. Uma coisa é o casamento, outra é outra coisa qualquer”.

 

Ficámos assim a saber que:

 

1. Porque não é “suficientemente retrógrada”, MFL “não é contra as ligações homossexuais”. É um enorme alívio saber que MFL as “aceita”, até porque a alternativa seria reinstituir a criminalização da homossexualidade que acabou em 1982. Como pode MFL julgar que ainda é possível sequer pôr isto em questão?

 

2. MFL, que se apresenta como conhecedora de aspectos fiscais, parece ignorar que a Lei de Uniões de Facto de 2001 - que abrange casais de pessoas do mesmo sexo - concede exactamente o mesmo estatuto fiscal a unid@s de facto e a cônjuges, pelo que as famílias constituídas por casais de pessoas do mesmo sexo já usufruem das referidas “medidas fiscais”. Ou será MFL contra o que foi instituído em 2001?

 

3. MFL parece julgar que existe uma única família a promover. Esperamos que se aperceba rapidamente de que existem muitas famílias em Portugal, e que se tem como objectivo que o seu partido se apresente como uma alternativa de governo terá que contar com o apoio de muitas delas. Seria também importante compreender que o casamento não implica procriação e que a procriação não implica casamento. Ou será que, na mesma linha de raciocínio, pensa proibir o casamento para heterossexuais infertéis?

 

 4. Quanto à ideia de que gays e lésbicas viriam sujar a instituição do casamento, sendo por isso fundamental que “não lhe chame o mesmo nome”, sugerimos uma alternativa a MFL. Quando se alargou o casamento a escravos, porque estes viriam sujar o nome do casamento, optou-se por um nome diferente: “contubérnio”. Como MFL partilha esta ideia de que, tal como os escravos, lésbicas e gays não são cidadãs e cidadãos de pleno direito, o nome do casamento para escravos será talvez o que melhor se adequa à sua visão do mundo. Poderia assim manter o insulto a gays e lésbicas, como parece pretender - e será um nome mais económico do que “outra coisa qualquer”, que parece ser a sua sugestão.

 

5. MFL ignora sobretudo a Constituição da República Portuguesa que proíbe explicitamente a discriminação com base na orientação sexual desde 2004. Aliás, a revisão do artigo 13º (Princípio da Igualdade) fez-se com os votos favoráveis do PSD. Para proteger cidadãs lésbicas e cidadãos gay, e precisamente porque há quem pense que gays e lésbicas são “diferentes”, a Constituição proíbe a discriminação. Não é possível manter por isso um apartheid legal como o que MFL defende.

 

A imagem de rigor e de seriedade que MFL tenta fazer passar não se coaduna com a ignorância de todos estes aspectos. A imagem de alternativa política para o país que MFL tenta construir também não se coaduna com a promoção da desigualdade, ao arrepio dos movimentos que atravessam os países mais desenvolvidos, a começar pela vizinha Espanha. É esta a agenda de transformação que MFL tem para o país? Sobretudo, a discriminação e o insulto não são aceitáveis em democracia.

As declarações de MFL vêm provar uma vez mais que fracturante não é a reivindicação de igualdade; fracturante é a discriminação - e que é urgente eliminar as fracturas que a própria lei continua a impor.

Dado que o PSD não parece querer fazê-lo sob a liderança de MFL, a Associação ILGA Portugal - Intervenção Lésbica, Gay, Bissexual e Transgénero espera que os restantes partidos clarifiquem se apoiam a discriminação ou, se pelo contrário, querem promover sem reservas a igualdade.

 

Lisboa, 2 de Julho de 2008

A Direcção e o Grupo de Intervenção Política da Associação ILGA Portugal

 

Comentários

Comentário de Fernando Penim Redondo
Data: 2 Julho 2008, 20:02

FC, lamento informar que essa parte da entrevista foi, provavelmente, a que grangeou mais votos a Manuela Ferreira Leite.

Só não sei se ela disse o que disse por cálculo político…

Comentário de rosa-que-fuma
Data: 2 Julho 2008, 20:38

pensei q o que grangeava mais votos era a oposição (populista infelizmente) às “grandes” obras públicas.

Se há assim tanta gente desejosa de ouvir isso….oh well, realmente há razão para estar sempre a bater nesta tecla….

Comentário de Ana Matos Pires
Data: 2 Julho 2008, 20:59

Que tristeza, god, mas asco é a palavra.

Comentário de De Puta Madre
Data: 2 Julho 2008, 21:23

Como diz o povo: Diz o roto para o nu: olha-me tu!!

“Homofobia assumida de Manuela Ferreira Leite” ? há limites para o melindre! O título sumário da posição da Ilga face às declarações da MFL é patético, ridículo, infantil. Descredibiliza a associação … O que está em causa é um Direito (Legítimo de reivindicar a sua assumpção pela Constituição). Ridículo que a discussão comece pelo atirar mimos ao outro. Inconcebível… ( muita emoção.)

Aliás, o “povo” pela experiência bem sabe que a Instituição Casamento está em Derrocada. Só nos podemos rir que a discussão comece por piropos que visam contornar o fulcro da controvérsia ( parece que não tem base de sustentação para a sua pretensão) e assim voltam costas à essência da questão: A Família.

Quer queiram ou não: casamento é tb sinónimo de possibilidade de criar crianças. Ou os G&L querem realmente um casamento especial para eles???? Pois, se assim for ” com o ferro matas, com o ferro morres”. A questão toda são as “crianças”!! Esse será o cavalo de batalha na questão ( público-política); o resto é secundário. Logo: sustentem a questão da Paternidade e da adopção devidamente. Vale.

Comentário de maloud
Data: 2 Julho 2008, 21:50

Que diria a Natália Correia?

Comentário de Cristina Nunes
Data: 2 Julho 2008, 22:06

Para além de ser ignorante - pois se a homossexualidade fosse mesmo uma escolha, alguém a escolheria? - demonstra uma total incoerência de princípios. Como escreve muito bem, será que os casais heterossexuais infertéis também deveriam ser impedidos de casar? E os casais heterossexuais que não querem ter filhos? E os casais heterossexuais seniores - que já passaram a idade fertil? Já para não falar que um casal de lésbicas pode conceber com alguma ajudinha externa é certo, mas pode com certeza!

Enfim, creio que de ignorante a senhora não tem nada. É pura estupidez mesmo.

E já agora, será que já que admitindo “culpa” publicamente não poderiam ser processada por discriminação expressamente proíbida constitucionalmente?

Oh meus amigos, acordem para a realidade: Gays, Lésbicas, Bissexuais e Transgéneros sempre existiram, existem e sempre vão existir!!
Até quando é que temos de aguentar que a mentalidade alheia desperte para a dissolução de preconceitos retrógrados e completamente absurdos do que apenas representa mais uma forma de amar, partilhar, viver em harmonia.

Isto é ridículo demais…

Comentário de cristã
Data: 2 Julho 2008, 22:21

arre que já não posso ouvir falar da procriação e da filharada.

Comentário de joão gaspar
Data: 2 Julho 2008, 22:32

a manuela ferreira leite é a patrícia lança?

Comentário de Ana Matos Pires
Data: 2 Julho 2008, 22:39

Hummm, porque será que me lembrei do João Morgado, maloud?
Quiçá, João, quiçá…

Ps: Quinhentas avé-marias e esfregar a língua com malagueta, cristã, já!

Comentário de De Puta Madre
Data: 2 Julho 2008, 23:02

Direito à inseminação medicamente assistida, p.ex.; ou a vida é para viver daqui a 300 anos?

Comentário de jaime roriz
Data: 2 Julho 2008, 23:15

Fernanda Maria, agora já posso chamar feia à MFL sem que te ofendas? Como eu dizia no meu comentário de há umas semanas a mulher é feia por dentro.

Como sabes eu não acho que este assunto se resolva pela via constitucional - em meu entender o legislador ordinário pode e deve resolver a questão imediatamente - mas é triste (e muito feio) que um lider da oposição assuma que é contra um dos artºs mais importantes da CRP, o famigerado artº 13º onde reside o princípio da igualdade.

Não seria necessário que esse artigo referisse a orientação sexual (seja lá isso o que for). Bastaria que MFL dissesse, como disse, “Admito que esteja a fazer uma discriminação” para ser uma violação intolerável à CRP.

É grave, bacoco, rural, retrógado e muito feio. Em minha opinião ofende a dignidade da pessoa humana. (artº 1º da CRP)

Comentário de pedro oliveira
Data: 2 Julho 2008, 23:18

«pois se a homossexualidade fosse mesmo uma escolha, alguém a escolheria?»

O que é a homossexualidade então?
a) Um castigo divino
b) Uma conspiração genética
c) Outra, qual?

Comentário de j. ricardo
Data: 2 Julho 2008, 23:25

acho muito bem!… mas…. do qeu é que estão mesmo a falar?….

Comentário de alx
Data: 2 Julho 2008, 23:46

só tenho pena que a dra. manuela não tenha discriminado melhor a sua posição. de resto, não percebo tanta reacção ao aguarrás. a mulher não pode ter a sua opinião pessoal e política!?

Pingback de Sejamos rigorosos (2) « Vasco Campilho
Data: 2 Julho 2008, 23:49

[...] a “outra coisa qualquer” está a propagar-se pela blogosfera (aqui, aqui, aqui e aqui). Isto já não é falta de rigor. Nem é qualquer outra coisa. É outra coisa [...]

Comentário de Buckaroo
Data: 2 Julho 2008, 23:54

O que eu não percebo é se tantos heterossexuais fogem do casamento, não atribuindo nenhum valor especial em contraírem matrimónio, por que raio hão-de os gays andar doidinhos pra se casar? A questão está, como alguém disse, na adopção e PMA. Na lei da PMA está bem explícita a descriminação em função da orientação sexual.
Aí será bem mais difícil de mudar as mentalidades, mas com tempo elas mudarão.
Por outro lado, se a homossexualidade é uma escolha, o que temem os que se opõem à criação de crianças por casais homossexuais? Para além de que a família é muito mais que as duas pessoas com poder paternal….

Comentário de frida
Data: 2 Julho 2008, 23:58

olá jaime,
finalmente estamos de acordo e o legislador é mesmo ordinário…
não me parece que a MFL alguma vez tenha pensado (ou só não põe porque não pode….) questionários pré-nupciais;
1º vamos proibir os estéreis e os impotentes de casar (aliás, devia até ser pedida uma perícia médica prévia e quem não se reproduzir será impedido de se casar)
2º anulemos os casamentos que passados 5 anos ainda não deram frutos.
3º barremos à partida os que tiverem o desplante de decidirem por opção que não querem ter filhos.
4º medida ainda em estudo…. talvez esterilizar todos os homossexuais. Ouvi dizer que alguns persistem mesmo assim em procriar….
5º retirar aos pais todos os filhos de anteriores relações quando iniciam uma relação com uma pessoa do mesmo sexo.
6º proibir o casamento a todos os nubentes que ultrapassaram a idade fértil e portanto já não reprodutora.
7º uma lei específica contra as atribuições dos mesmos estatutos (já vimos ao longo dos anos como são perigosas. Não podemos quebrar tradições. Negros que se queriam casar, depois que já não queriam ser escravos depois já não se queriam sentar nos fundos dos autocarros, a moda das mulheres a quererem ter direito ao voto, depois os que não tinham estudos também a macaquear, enfim um não acabar de modas a tentar acabar com normas instituídas e actualizadíssimas ao longo dos séculos)
8º e o último (para já ): ponha a cruzinha em casamento ou em outra coisa qualquer…

Comentário de cristã
Data: 3 Julho 2008, 0:57

ai ana. (suspiro) :^)

Comentário de Fernanda Câncio
Data: 3 Julho 2008, 1:01

o vasco campilho acha que a blogosfera está a distorcer as palavras de mfl. escapou-lhe que o comunicado da ilga cita o diário de notícias. como, imagino, outros citarão. seja rigoroso, vasco.

jaime (esqueci-me do teu segundo nome, bolas), não, não podes chamar feia à mfl. partires do princípio de que eu gostava dela e deixei de gostar e portanto agora já podes ajavardar é um pouco infantil, certo?

depois, e em geral: espantoso que haja quem, a propósito da apreciação que a ilga faz das declarações de mfl, se saia com ‘então a mulher não pode ter a opinião dela’? pelos vistos só ela poderá ter — já que a ilga não poderá, para estes excelsos democratas, ter uma opinião sobre a opinião dela. até parece que alguém pediu prisão para a senhora, ou assim. claro que mfl tem o direito de ser homófoba. como tem o direito de ser racista, se lhe apetecer. tem até o direito de dizer que os homossexuais e os não brancos (whatever that means) devem ser discriminados, se lhe aprouver. não, não é crime. e nós temos o direito de dizer que ela é homofóbica e racista. pode ser? obrigadinha.

Comentário de jaime roriz
Data: 3 Julho 2008, 1:22

Fernanda Maria, eu nunca achei que gostasses da MFL nem tampouco que deixaste de gostar dela por esta razão. Sabes que não sendo um géniozinho como tu também não sou parvo de todo :-) Tu só te opuseste por eu trazer à colação a beleza (ou feiura) da senhora pelo único facto de ela ser mulher. Achavas que eu não faria mesmo comentário se se tratasse de um homem. Discordo mas (creio que) percebo a tua reacção. Eu chamaria feio a qualquer feio independentemente de ser homem ou mulher. Porém eu acho mesmo que a mulher é feia por dentro como o explicita este desplante em dizer “Sim eu discrimino”. Achei agora que as declarações de MFL provavam o que tinha referido há umas semanas atrás. Dito de outra forma o meu comentário poderia ter sido. ‘Vês como a mulher é mesmo feia por dentro?’

(jaime de jesus)

Comentário de jaime roriz
Data: 3 Julho 2008, 1:24

frida, esse jaime sou eu? é que não percebo o que diz a seguir à parte do legislador ser um ordinário, pelo menos no que me concerne… Eu sou pela igualdade e contra a discriminação. Sou é contra o excesso de regulamentação da vida privada de cada um. Como jurista acho que a lei deve ter generalidade e abstracção e que muita “conversa” na lei só prejudica a todos.

Comentário de Fernanda Câncio
Data: 3 Julho 2008, 1:28

jaime, jesus, como me fui esquecer disso? logo eu, que tenho a mania de ter boa memória. já me pus de castigo

Comentário de Fernando Penim Redondo
Data: 3 Julho 2008, 1:43

Uma provocação:

que resultado é que vocês acham que dava um referendo, em Portugal, sobre a legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo ?

e um referendo sobre o Tratado de Lisboa ?

será avisado classificar o referendo como única solução realmente democrática ?

Comentário de Vasco Campilho
Data: 3 Julho 2008, 8:48

Fernanda,

A Ilga cita o DN? Muito bem: eu fiei-me na transcrição da TVI. Pelos vistos, as duas diferem num pormenor não despiciendo. O melhor então é referirmo-nos ao vídeo para tirar a teima. Alguém o tem disponível?

Comentário de Cristina Nunes
Data: 3 Julho 2008, 8:48

pedro oliveira:
só para esclarecer a sua dúvida/confusão, peço-lhe que leia esta muito boa definição de homossexualidade: http://pt.wikipedia.org/wiki/Homossexualidade

Creio que a confusão que a maior parte das pessoas faz quando lhe chama “opção” ou “escolha” sexual, deve-se pura e simplesmente ao facto de não compreender que não se consegue escolhar sentimentos. A única escolha que se pode fazer é a de viver de acordo com o que se sente. Isso sim é uma escolha: não se esconder, não se culpabilizar por ser diferente da norma, não se envergonhar de amar alguém do mesmo género.

Só para tentar exemplificar, pergunte-se: Escolheu a/o sua/seu parceira/o? Isto é, apaixonou-se por escolha? Estava muito bem a passear na rua e decidiu: “É esta pessoa com quem vou partilhar a minha vida pessoal?” e pronto?

Consegue perceber agora, porque é que não é uma escolha gostar de alguém do mesmo género? Aliás, de alguém, ponto!

Comentário de Fernanda Câncio
Data: 3 Julho 2008, 9:57

vasco, esse facto está plasmado no segundo parágrafo do comunicado: ‘As declarações da líder do PSD, reproduzidas no Diário de Notícias, incluem:’. era questão de ler com alguma atenção. eu não vi a entrevista e tomei conhecimento destas declarações de mfl pelo jornal onde trabalho. desconheço a transcrição da tvi. admito, claro, que possa existir essa pequena imprecisão que, de resto, não me parece nada relevante do ponto de vista do conteúdo.

cristina nunes, essa estranheza do pedro oliveira deriva de uma visão tão heterocêntrica que é incapaz de imaginar uma coisa tão simples quanto a possibilidade de alguém se apaixonar por alguém que por acaso é do mesmo sexo. fazendo um pouco de psicanálise de bolso, é uma forma de auto-defesa contra a ideia: se for uma escolha, então nunca lhe poderá suceder.

Comentário de joão viegas
Data: 3 Julho 2008, 10:26

Li muito rapidamente, mas parece-me que temos aqui, de forma muito classica, uma dificuldade que tem a ver com a ambiguidade da palavra discriminação, dificuldade bem conhecida dos juristas que trabalham nessa matéria.

Se entendermos (o que parece ser o conceito mais comum) que a discriminação é uma diferença de tratamento não justificada por uma diferença de situação de facto, então a MFL empregou o termo num sentido que não correspondia ao que ela queria dizer (ela queria dizer, em meu entender, não se trata de uma discriminação porque entendo que a diferença no tratamento legal se justifica por existir uma diferença de facto). Note-se que esse erro é muito comum. Por exemplo, se aceitarmos esse conceito, não tem sentido falar de “discriminação positiva” (uma discriminação é sempre negativa).

Se entendermos discriminação no sentido comum de “distinção em função de um critério”, então teremos de admitir que ha discriminações licitas e discriminações ilicitas. Nesse sentido, não é problematico admitirmos que fazemos discriminações (desde que sejam licitas e justificadas).

Desculpem se me escapou alguma coisa mas parece que, neste caso, estamos apenas perante uma logomaquia.

(So para não darem ao meu comentario uma dimensão que não seja puramente técnica, aviso que sou favoravel ao casamento entre pessoas do mesmo sexo).

João Viegas

Comentário de The Studio
Data: 3 Julho 2008, 10:34

Subscrevo inteiramente as afirmacoes da Manuela Ferreira Leite. Enfim, alguem com coragem e que nao parece uma marionete nas maos destes educadores de classes modernos como a menina Cancio.

Comentário de Ana Matos Pires
Data: 3 Julho 2008, 10:37

Acho muito bem que se vá às fontes, Vasco Campilho, mas também me parece que, no presente caso, dizer “Chame-lhe o que quiser, não lhe chame é o mesmo nome. Uma coisa é o casamento, outra é outra coisa qualquer” ou “Chame-lhe o que quiser, não lhe chame é o mesmo nome. Uma coisa é o casamento, outra é qualquer outra coisa” é igualmente triste, a ideia subjacente não é alterada, ou é?

Comentário de Sérgio
Data: 3 Julho 2008, 10:40

Já tenho aqui um boneco de palha da Ferreira Leite e a bandeira nacional.
Alguém tem um isqueiro?

Comentário de Ana Matos Pires
Data: 3 Julho 2008, 10:44

E fazer disto “um caso”, concluindo pela existência de mais que uma “simples” - a valoração não é minha, entenda-se - falta de rigor é no mínimo demagógico, persecutório… ou ambos.

Comentário de Ricardo Santos Pinto
Data: 3 Julho 2008, 11:07

Sim, tem razão, Jaime Roriz. Manuela Ferreira Leite é feia por fora e por dentro. Mas pelo menos, assume de forma clara a sua ignorância, a sua homofobia, o seu preconceito e a forma retrógada como vê a sociedade.
O que interessa que outros, como o actual primeiro-ministro, sejam a favor, se na prática não fazem nada? Ele, que é tão corajoso com alguns (professores, funcionários públicos em geral) e até tem maioria absoluta, devia seguir o exemplo do seu amigo Zapatero e legalizar os casamentos gays. Porque se não o faz, acaba, na prática, por ter a mesma opinião e a mesma atitude da Manuela Ferreira Leite.
Enhorabuena!

Comentário de Vasco Campilho
Data: 3 Julho 2008, 11:15

Fernanda, pelos vistos estamos iguais. Você não viu a entrevista, eu não vi a parte em questão. Você (ou a Ilga) fiou-se no DN, eu fiei-me na TVI. Neste momento, nenhum de nós sabe qual das duas fontes é a correcta. De facto não reparei que a fonte do comunicado era o DN. Mas se a Fernanda também não terá reparado que eu não pus em causa o comunicado da ILGA, mas sim a propagação da expressão “outra coisa qualquer” pela blogosfera de que o comunicado participou.

Quanto à questão de a alteração ser relevante para o conteúdo, há todo um parágrafo sobre contubérnio que cairia do comunicado se, em vez de “outra coisa qualquer”, tivesse sido citado “qualquer outra coisa”. Porque se “outra coisa qualquer” podia soar como uma alusão depreciativa à união de pessoas do mesmo sexo, “qualquer outra coisa” refere-se de forma neutra a tudo o que não seja o casamento.

Admito que para a Fernanda isso não seja relevante, porque a fazer fé nesta crónica (http://dn.sapo.pt/2008/05/16/opiniao/o_ha_nome.html) todos os que não tiverem as suas certezas sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo merecem o epíteto de homofóbicos. Para mim, que emprego esse termo de forma mais restritiva, saber se Manuela Ferreira Leite se exprimiu ou não de forma depreciativa sobre os casais homossexuais tem relevância independentemente da posição que veiculou na entrevista sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo.

Comentário de Ana Matos Pires
Data: 3 Julho 2008, 11:35

“Mas se a Fernanda também não terá reparado que eu não pus em causa o comunicado da ILGA…” e “Quanto à questão de a alteração ser relevante para o conteúdo, há todo um parágrafo sobre contubérnio que cairia do comunicado se…”… Em que ficamos, Vasco?

Comentário de Vasco Campilho
Data: 3 Julho 2008, 11:49

Desculpe não lhe ter dado a atenção devida, Ana. De facto não se faz… O seu primeiro comentário à minha intervenção já está respondido, não vale a pena repetir-me. Quanto ao carácter demagógico e persecutório do “caso” (o qualificativo é seu), parece-me que aqui a perseguida é outra.

Finalmente, vou-lhe dizer em que ficamos: não pus (pretérito perfeito) em causa o comunicado, mas indico (presente do indicativo) a relevância da troca de palavras num dos seus eixos argumentativos. Em bom rigor, não há contradição nenhuma.

Comentário de Ana Matos Pires
Data: 3 Julho 2008, 12:03

Tomando o DN como fonte - ainda não consegui chegar ao vídeo original -, são palavras de MFL “Eu não sou suficientemente retrógada para ser contra as ligações homossexuais…” (…) “Pronuncio-me, sim, sobre o tentar atribuir o mesmo estatuto àquilo que é uma relação de duas pessoas do mesmo sexo igualmente ao estatuto de pessoas de sexo diferente” (…) “Admito que esteja a fazer uma discriminação porque é uma situação que não é igual. A sociedade está organizada e tem determinado tipo de privilégios, tem determinado tipo de regalias e de medidas fiscais no sentido de promover a família” (…) “no sentido de que a família tem por objectivo a procriação”. Alusão depreciativa? Nããããããã…

Comentário de Ana Matos Pires
Data: 3 Julho 2008, 12:17

Só agora vi o seu comentário das 11:49, Vasco. Que é lá isso, qual desatenção, de todo senti a coisa como tal, não se apoquente… quanto muito uma pequenita falta de rigor. Em relação ao resto do seu comentário, continuamos em desacordo, portanto.

Comentário de Vasco Campilho
Data: 3 Julho 2008, 12:29

Fico mais descansado, Ana. E satisfeito por concordarmos no desacordo. De facto, acho que chegámos aqui ao búsilis da nossa incompreensão: a Ana pensa que exprimir uma oposição ao casamento entre pessoas do mesmo sexo é depreciativo. Eu penso que uma pessoa pode opor-se ao casamento entre pessoas do mesmo sexo sem ser (considerada) homofóbica. O que não quer dizer que esteja de acordo com ela. São questões diversas.

Comentário de Ana Matos Pires
Data: 3 Julho 2008, 12:36

Ufa, concordamos. Já que aqui estou, e como refere que a sua opinião pode não querer dizer que esteja de acordo com quem se opõem ao casamento entre duas pessoas do mesmo sexo, não resisto a perguntar-lhe qual é sua opinião.

Comentário de De Puta Madre
Data: 3 Julho 2008, 13:16

F-se! Vão lá consultar os EL PAÍS/ ABCs/ EL MUNDOS e pode ser que comecem a perceber porque é que hoje o casamento é um acto legal para todo o cidadão espanhol!!!

Começa a exasperar o desleixo do tuga.

FAMÍLIA! Exacto! Foi mesmo por aí! Ou acham que casamento é só a oficialização da brincadeira entre as carnes, com segundas intenções a “herança” futura.

Comentário de Vasco Campilho
Data: 3 Julho 2008, 13:57

Ana, espero que isto a esclareça sobre a minha opinião.

Comentário de jaime roriz
Data: 3 Julho 2008, 19:29

Ricardo Santos Pinto, estamos de acordo. É ao legislador ordinário que compete (e já) resolver o problema.

Comentário de Sotnas
Data: 3 Julho 2008, 22:18

MFLeite disse o que disse e está no seu direito, mas os chorrilhos de disparates em que a senhora é fértil desde que foi Ministra da Educação há uns anos atrás, faziam-nos acreditar em quê ?
A senhora afirmou que não é suficientemente retrógada, mas na prática é-o e não pouco, e não só no que diz respeito ao casamento homossexual. Ela faz parte de uma corrente da nossa sociedade que eu definiria como anti-mudança e anti-moderna, aquilo a que tradicionalmente se chama os conservadores. Bem sei que os tempos são outros, mas não teve Portugal um anti-moderno à frente dos seus destinos durante aproximadamente meio século? MFLeite faz parte da mesma corrente, devidamente revista, actualizada e maquilhada, corrente essa que não quer qualquer mudança, quer dos costumes, quer na área sócio-económica. Corrente essa muito bem suportada pela ICAR.
Contudo, com estas infelizes declarações de MFLeite uma coisa ficou clara, sabemos o que ela pensa sobre o assunto. E na altura de colocar o voto na urna só se deixa enganar quem quiser.

Comentário de De Puta Madre
Data: 3 Julho 2008, 22:50

Em Espanha já humorizam …

http://youtube.com/watch?v=X_A18I-aFVY&feature=related

E nós, nada. ( Duplamente. Até os “porteros” podem servir assim de metáfora!)

“Progenitor B” é uma referência à Lei da Adopção em Espanha. Confuso?? Pois, lá, na Espanha, a guerra foi essa: como designar os adoptantes, aquando de uma adopção por um casal homossexual. O progenitor A/B ainda fazem as delícias das conversas. … Vale

Comentário de alx
Data: 3 Julho 2008, 22:51

gostei de ler o comunicado da/o ILGA. grande exercício de análise literária. também gosto muitp do D. Quixote.

“De facto, acho que chegámos aqui ao búsilis da nossa incompreensão: a Ana pensa que exprimir uma oposição ao casamento entre pessoas do mesmo sexo é depreciativo. Eu penso que uma pessoa pode opor-se ao casamento entre pessoas do mesmo sexo sem ser (considerada) homofóbica. ”

quanto a mim, vou-me dando conta que começa a cheirar mal essa coisa da homofobia. acho mais piada ao LARILOFOBIA. tem mais verdade. e é muito mais fiel ao que se pretende representar ou assinalar na acção/pensamento de outros. por outro lado, prefiro que os que defendem tais causas, como esta, não tenham medo de sair do armário e sejam LARILÓFILOS à vontade.
eu, cá por mim, divirto-me a ser suficientemente retrógada para “inventar” estas expressões (http://www.google.com/search?hl=pt-PT&rls=com.microsoft%3Apt%3AIE-SearchBox&q=LARIF%C3%93BICO&btnG=Pesquisar&lr=) (http://www.google.com/search?hl=pt-PT&rls=com.microsoft%3Apt%3AIE-SearchBox&q=LARIL%C3%93FICO&btnG=Pesquisar&lr=).

Comentário de Ricardo Santos Pinto
Data: 3 Julho 2008, 22:57

Sotnas,

A julgar por estes primeiros dias de mandato, parece-me que Manuela Ferreira Leite não vai ser fértil em disparates. Pois se a senhora não abre a boca para nada…

Comentário de Clara
Data: 3 Julho 2008, 23:29

Hoje um amigo meu, gay, foi apelidado de “Tens mesmo cara de paneleiro!”. Ele lá declarou: ” E tu tens mesmo cara de Cabrão!”.
Ficou assim. Não houve porrada.

Comentário de Clara
Data: 3 Julho 2008, 23:32

Os Espanhóis discutiram a semântica da coisa cá com uma pontaria … EH eh eh

Comentário de Sotnas
Data: 4 Julho 2008, 9:28

Ricardo Santos Pinto,
Com efeito a senhora não abre muitas vezes a boca, mas quando o faz ou sai disparate ou entra coisa pior.

Saudações!

Comentário de A. Laurens
Data: 4 Julho 2008, 11:53

Além de ser um cavaco de saias, é igualmente católica. Em épocas de convergência de ideias, consultam primeiro as divergência da igreja. O que é que se espera?

Comentário de Filipa
Data: 9 Julho 2008, 0:31

Que desilusão com a Dra. MFL. Pensava que era um pouco mais inteligente…

Comentário de Ricardo Santos Pinto
Data: 9 Julho 2008, 12:06

Não é uma questão de inteligência, mas sim de tacanhez e de falta de abertura de espírito. Se calhar até é mais inteligente do que pensamos, porque falar assim rende-lhe votos no seu eleitorado.

Pingback de Pré-Vaticano II « Vasco Campilho
Data: 11 Julho 2008, 12:00

[...] Vaticano II». Sócrates tenta assim uma quadratura do círculo, dando uns rebuçados retóricos à ILGA sem alienar as simpatias católicas mais [...]

Comentário de The unfurry Swear Bear
Data: 15 Julho 2008, 11:41

O problema das democracias é serem a tirania da maioria sobre as minorias, é por isso que o governo tem de se certificar que todos temos os mesmo direitos sem por isso ir a referendo sobre direitos que não compete à maioria escolher se a minoria tem direito a ele ou não….
Pena serem os governos cobardes que só estão interessados é nos votos.

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