Assobiar e comer amendoins

É uma expressão que os mexicanos costumam utilizar quando colocados perante uma falsa escolha: “olha lá, não podes assobiar e comer amendoins?” A resposta certa é, ao mesmo tempo não se consegue, mas ninguém fica impedido de assobiar por comer amendoins e vice-versa.

Outra coisa que os mexicanos costumam dizer muito: “só neste país!” Só no México, senhores, é que acontece isto ou aquilo. Há até mexicanos que dizem que “só no México” é que se diz “só neste país”. Também já ouvi o mesmo a italianos, brasileiros, russos e estado-unidenses. O que não falta para aí são países onde se diz que “só neste país”.

Sei muito bem, pois, que não é só neste país que se tem esta conversa sobre se a atenção ao futebol nos impede de prestar atenção às “coisas importantes” e se as pessoas das “coisas importantes” no fundo detestam o futebol. Quando a Inglaterra falhou a qualificação para o Euro houve um suspiro de alívio de alguns jornalistas que não aguentavam mais ter de cobrir os delicados tendões dos companheiros de David Beckham, as compras das suas esposas, e o delírio dos seus adeptos. E garantiram-me em 2002 vários brasileiros, de esquerda e de direita, que se o Brasil ganhasse a “copa” nunca Lula da Silva chegaria à presidência.


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Se bem entendo, há uma discussão entre Daniel Oliveira e Vasco Pulido Valente sobre estas coisas. Digo se bem entendo porque o primeiro escreveu um artigo em que deplorava a forma pouco profissional como os jornalistas se comportam durante o Euro. E o segundo não respondeu ao primeiro, coisa que é incapaz de fazer, mas chegou à conclusão de que “a esquerda” lançou “uma campanha contra o futebol” e que há uma “fúria da esquerda contra o futebol”. Qual fúria da quê? Qual quê da esquerda? Ou (presumo eu) Daniel Oliveira agora se transformou na esquerda inteira, ou Vasco Pulido Valente viu na derrota contra a Alemanha um sinal de que a esquerda “não percebe” nem “lhe ocorre” um monte de coisas, o que é sintomático nele. Imagino VPV vendo o jogo: “a esquerda ainda não percebeu que o árbitro não assinalou o empurrão de Michael Ballack”, “a esquerda recusa-se a entender que a defesa homem-a-homem tem problemas nas bolas paradas”, “a esquerda ainda não viu que Ricardo não sabe sair aos cruzamentos”.

Esta é uma discussão na qual se garante, de um lado e de outro, que quem assobiar não pode comer amendoins e vice-versa. Um tipo que pendura a bandeira à janela não pode ser cosmopolita. Uma feminista de esquerda não pode entregar-se a noventa minutos de futebol, o que deixa no limbo as amigas com quem vi os jogos. E finalmente, para VPV, há uma escolha a fazer entre a “egregia hipocrisia” de Scolari (qual?) e a “fúria da esquerda contra o futebol” (qual?).

Mas agora que fomos eliminados do Euro far-se-á a prova dos nove. Podemos finalmente falar dos assuntos sérios, em que Julho e Agosto costumam ser férteis. Um amigo de direita garante-me que Sócrates está acabado. A televisão continuará a ser o último lugar onde buscar informação.

E eu vejo a impossibilidade de ser pessimista, marxista ou de outra superstição religiosa. O sofrimento presente não me serve de consolo pelo futuro melhor. Continuando o mundo na mesma, a única diferença está em vir a morrer sem ter visto Portugal ganhar a taça.

Sobre Rui Tavares

Segunda | Rui Tavares
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6 respostas a Assobiar e comer amendoins

  1. Apesar de o tema ser sobre “peanuts”, uma coisa não compreendi: se é mesmo verdade que «(…) garantiram-me em 2002 vários brasileiros, de Esquerda e de Direita, que se o Brasil ganhasse a “copa” nunca Lula da Silva chegaria à presidência», isso só prova que “vários brasileiros” se enganaram redondamente!

    Resta saber se foram apenas os que proferiram tal afirmação, ou também os que votaram Lula da Silva (ou, eventualmente, a Selecção do Brasil que, em 2002, no Japão, se sagrou Penta-Campeã do Mundo ao bater a alemanha por 2-0…).

  2. enganaram-se pois. estavam convencidos de que se o Brasil ganhasse em Junho o povo ia ficar tão feliz com o PSDB que o Lula não ganharia. os PSDBistas (“tucanos”) estavam convencidos disso, e os PTistas mais ainda, cheguei a ouvir alguns que preferiam que o Brasil não ganhasse pois era a última hipótese de o Lula chegar à presidência. mas esqueceram-se que as pessoas podem assobiar e comer amendoins.

  3. Miguel diz:

    olhó desenho…

  4. JDuarte diz:

    Falta mesmo assunto.

  5. André Belo diz:

    Versão em genovês dessa expressão mexicana: “sciûsciâ e sciorbî non se peû” (não se pode soprar e sorver ao mesmo tempo).

  6. PJMODM diz:

    Diz Rui Tavares «Se bem entendo, há uma discussão entre Daniel Oliveira e Vasco Pulido Valente sobre estas coisas. Digo se bem entendo porque o primeiro escreveu um artigo em que deplorava a forma pouco profissional como os jornalistas se comportam durante o Euro. E o segundo não respondeu ao primeiro, coisa que é incapaz de fazer, mas chegou à conclusão de que “a esquerda” lançou “uma campanha contra o futebol” e que há uma “fúria da esquerda contra o futebol”. ».
    Se bem entendo, mesmo os mais prolixos e interessantes articulistas às vezes não têm tema, e então pegam num qualquer assunto, e, revelando um saudável utilitarismo (ainda que com consciência social…), aproveitam para dar uma futebolística canelada num amor de estimação que lhes deixou uma espinha encravada.
    Resumindo, VPV não tinha tema e decidiu dar uma cacetada num dos seus amores de estimação, a esquerda “o Bloco, em parte o PC”, sem grande conexão com o “leit motiv” o pontapé na bola. Passados uns dias, o RT também está sem tema e aproveita para reagir ao mau feitio do VPC, que lê RT mas nunca assume que lhe está a responder (acontece, porém, que VPV se comete a referida indelicadeza com RT tem também outros hábitos, preguiçosos, que não o levam a precisar de um texto do Dani Oliveira para ocupar os caracteres a que se obrigou com o Público).

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