Outra entrevista

Combinar a visão límpida da infância
com a lição dos mestres

“Selecção de esperanças” é o título da última exposição de trabalhos de C. A. – que assinala justamente a sua passagem de jovem promessa à precoce condição de consagrada na cena artística nacional. O título parece porém recriminatório, e a alusão dúbia: algo que ver com o facto de C. A. ser ainda uma sub-21 na vida real? Fomos procurá-la no seu atelier lisboeta e pedir-lhe explicações.
– Cara C., já estamos a gravar. Podemos falar agora dos teus projectos?
– Podemos.
– Excelente. Vamos começar então pelo princípio. Como é que chegaste até aqui?
– Não foi um trajecto fácil. Eu quis assumir um projecto próprio e isso teve determinadas consequências.
– A que nível?
– A vários níveis. Eu julgo que as pessoas não estavam preparadas…
– … para um projecto próprio?
– Sim, e muito afirmativo, logo desde o princípio, e isso fez-se sentir.
– Houve pressões?
– Posso confirmar que houve muitas pressões.
– Tu achas que o facto de seres mulher teve alguma influência nisso?
– Certamente; o facto de ser mulher e de vir da província. As pessoas perguntavam-se: – Quem é esta? Eu não tinha o direito de assumir o meu projecto.
– Mas quando tu dizes “as pessoas” referes-te a quem? Às pessoas do teu meio de origem?
– Não só: paradoxalmente, foi aqui que mais me fizeram sentir que eu estava a transgredir.
– A crítica?
– E não só: foi quem mais me devia apoiar que mais me atacou. O galerista da minha primeira exposição, por exemplo, chegou a dizer-me, quando eu insisti no carácter de ruptura do meu trabalho, que na província, de onde eu vinha, não podia haver vanguarda, que isso da vanguarda era uma coisa das grandes capitais, do Primeiro Mundo… E eu penso que o facto de ser mulher também não foi alheio a muito do que se passou.
– Mas no teu meio, digamos, nas pessoas que te são mais próximas, sentiste também essa rejeição?
– Não, aí eu tive um apoio fantástico, as pessoas foram espectaculares, os meus pais…
– Eu referia-me mais à reacção no teu meio de origem ao teu trabalho que é, por assim dizer, mais inovador?
– Não, não houve reacção nenhuma especial, e tu sabes porquê? Porque as pessoas perceberam que isto era sentido, que isto não era uma invenção caída do céu, e isto dizia-lhes também coisas a elas, porque elas passaram pelo mesmo que eu…
– Já lá vamos; falas então do teu trabalho enquanto um conjunto de influências que sentiste logo no início do teu percurso e que vão de algum modo estruturá-lo e dar-lhe sentido, é isso?
– Influências muito fortes. Que têm muito que ver com as pessoas, que me deixaram marcas.
– Tu vês-te então como uma artista que assume as suas origens?
– Que assume plenamente as suas origens, mas que não deixa de seguir um percurso que é singular, que faz apelo a todos esses contributos, todas essas influências, mas que no fim apresenta um trabalho que é pessoal, que a representa como pessoa e como mulher.
– Tu reivindicas muito essa questão do género, como é que tu a tratas nos teus trabalhos?
– Eu procuro tratá-la de uma forma não panfletária, de uma forma subtil, porque as mulheres são subtis… (risos) Por favor, não procurem nos meus trabalhos discursos muito inflamados, e muito óbvios, e muito repetitivos sobre isto ou sobre aquilo… Eu aposto em alusões, para criar um diálogo, tecer cumplicidades com quem vê os meus trabalhos…
– … que não são necessariamente imediatas ou evidentes…
– Que são necessariamente pouco evidentes, e pouco imediatas! O elemento feminino está também aí, nessa forma discreta de atingir um certo gozo, que neste caso é puramente cerebral… (risos)
– Certo. E essa é uma marca tua, que assumes, como dizes, desde o início do teu percurso…
– Absolutamente, creio que lhe dá uma certa coerência.
– E que outros elementos julgas tu que também emprestam coerência ao teu trabalho?
– Eu procuro dizer algo através do meu trabalho, esforço-me por fazer afirmações em ordem a estabelecer um diálogo e esforço-me, nesse processo, por exprimir-me, por pôr-me a nu, so to say…
– Queres portanto dizer coisas…
– Sim, mas mais importante do que isso, por expressar o meu imaginário pessoal, por partilhá-lo com quem descobre o meu trabalho.
– E quando falas do teu imaginário referes-te a quê?
– Bem, antes de tudo o mais, ao meu imaginário infantil, que é a fonte primeira e última de toda a minha criação…
– Começaste então a criar quando ainda eras uma criança?…
– Sim, e de alguma maneira nunca deixei de ser uma criança.
– Mas entretanto recebeste influências, dizes tu…
– Claro: eu procuro guardar a visão límpida da infância e combiná-la com a lição dos mestres.
– E que mestres?
– Procuro não avançar por aí. Se digo um nome vão logo acusar-me de pedantice, se ignoro outro de ignorância. Eu diria apenas que tenho consciência de que me inscrevo numa tradição, que respeito e que procuro fazer avançar. E depois também sou mulher, e da região Centro…
– Já nos disseste que isso conta, para ti, que foste – e és – sensível à marca que o meio deixou em ti. Abordando agora a questão através de um outro prisma, o facto de seres mulher e de Coimbra valeu-te também alguns apoios?
– Sim, mas também não se pode dizer que tenham sido decisivos. As entidades oficiais cumpriram em parte a sua função de estímulo à criação cultural, mas isso por si só não faz uma artista.
– O que é que a artista tem de ter mais?
– A vontade de ser artista. Tem de encontrar a força para prosseguir, ir sempre em frente e não deixar nunca que o desânimo a vença.
– E o que tem a artista a oferecer?
– Talvez um certo olhar (risos).”

Sobre António Figueira

SEXTA | António Figueira
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5 respostas a Outra entrevista

  1. rosa-que-fuma diz:

    mostra, que não se encontra nada! (ver para crer, dizia o outro com 2 deditos lá dentro)

  2. Luis Rainha diz:

    Que é isto? A pintora a que aconteceu não se sabe bem o quê?

  3. rosa-que-fuma diz:

    pois, isto é uma entrevista abstracta!

  4. Boa, Luis, percebeste que era pintora.

    Nota interna: Pssst, gentes, estou preocupada com o António, se continua a descobrir estas pérolas ainda lhe dá uma coisinha má.

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