Isto dos votos é uma chatice; e imprevisível, ainda por cima

Cavaco Silva ficou bastante contrariado com o desenlace do referendo irlandês. Chama-lhe agora “dificuldade”, um empecilho que requer do “governo irlandês uma solução para ultrapassar” o “erro” que mais uma vez se comprova ser sujeitar estas coisas importantes e complicadas à incerta apreciação das massas embrutecidas. É que, congemina o nosso erudito presidente, “o Tratado de Lisboa é demasiado importante para a Europa e para os seus cidadãos para que possa ser colocado na gaveta”; mesmo que os cidadãos a que diz respeito contra ele votem, entenda-se.

Sem querer ocupar o lugar de conselheiro presidencial, que está muito bem entregue a luminárias como o João Carlos Espada, sugiro desde já que Cavaco telefone ao mestre incontestado em encontrar “soluções” para lidar com resultados eleitorais inconvenientes e desfasados do que os grandes espíritos sabem ser certo para todos: Robert Mugabe.

Este artigo foi publicado em cinco dias. Bookmark o permalink.

11 respostas a Isto dos votos é uma chatice; e imprevisível, ainda por cima

  1. Pingback: Os Tempos Que Correm » “Raça” democrática

  2. Maria João Pires diz:

    Não gostando eu de referendos (acho que são o palco por excelência, e entre outras coisas, do populismo mais reles. O referendo na Irlanda foi um exemplo paradigmático disso mesmo), sendo europeísta convicta, defensora da existência de uma Constituição Europeia e achando que há outras formas de conhecer a vontade dos europeus neste assunto bem mais interessantes (porque não, por exemplo, uma Assembleia Constituinte?), não consigo deixar de considerar este tipo de reacções ao que aconteceu ontem na Irlanda como profundamente desrespeituoso dos cidadãos europeus (irlandeses no caso, mas podiam ser de outra nacionalidade qqr).

  3. jaime roriz diz:

    Maria João Pires, faço minhas as suas palavras. O que sucedeu foi que menos de um milhao de irlandeses afectaram a “vida” de 500 milhoes de europeus. Parece-me um enorme défice democrático. Já se concluiu que os referendos são manipuláveis por questões unicamente de chicana política. (veja-se o caso dos referendos “do aborto” em portugal a 1ª derrota do sim e a segunda vitória quase à rasca, num país em que não há ninguém que não conheça pelo menos uma pessoa que tenha feito um aborto). Tenho defendido uma Assembleia Constituinte eleita por todos os europeus e julgava estar a pregar no deserto. Partidos europeus, com desígnios europeus, direitos europeus directamente invocáveis no âmbito dos direitos liberdades e garantias, seriam muito mais compreensíveis para o povo da europa. Sendo, tal como a Maria João, um europeísta (e até federalista) convicto entendo que a democracia, tal como a conhecemos, se esgotou. Hoje fabricam-se líderes e opiniões como ontem se vendia pasta medicinal couto. O exercício da democracia não pode esgotar-se no voto. Os cidadãos deveriam ter capacidade de interferir mais no governo das nações, e cabe a esta geração alterar esse paradigma. Eu gosto imenso dos irlandeses e da irlanda mas acho que estiveram mal. Muito mal. Para mim é uma grande derrota política. Pessoal.

  4. jaime roriz diz:

    É impressão minha ou o Cavaco está cada vez mais feio? Ao lado dele até a MFL é linda.

  5. Luis Rainha diz:

    Não. O que sucedeu foi que menos de um milhão de irlandeses impossibilitaram a ratificação de um tratado pelo seu país, usando uma prerrogativa que a sua constituição lhes concede. Que a “Europa” se tenha enfiado numa tal camisa de onze varas já pouco tem a ver com os votantes irlandeses.

  6. Luis Moreira diz:

    Embota sensível ao argumento que deveria haver mais democracia (entenda-se participação dos povos) estou muito preocupado com este resultado.Creio que a UE é a única grande ideia política dos últimos cincoenta anos.Sou europeísta convicto,confesso!

  7. É uma grande chatice o voto popular. Quem lê os programas políticos dos partidos? Quantos milhões em Portugal votam em A ou B somente porque se dizema candidatos a PM. Acabe-se com os votos. Uma elite em assembleia corporativa de interesses decidem por todos.

    Um grupo de indústriais, comerciantes, funcionários públicos, reformados, etc, etc., mas não muitos senão a “coisa” complica-se.

  8. Cavaco Silva e José Sócrates foram também derrotados, pois se o primeiro sempre amargamente se manifestou contra qualquer tipo de consulta referendária – Maastricht foi um precedente -, o segundo arrepiou o caminho de promessas feitas durante os meses da última campanha eleitoral. O abuso da interpretação enganadora, a mentira, o rasgar unilateral do pacto estabelecido com os próprios eleitores e a arrogância derivada do mau perder e consciência do potentado da arrogância, irmana os detentores dos dois mais relevantes órgãos de soberania. O argumento intimidatório é o recorrente e tristemente célebre vil metal. Vão ameaçar os reticentes com negros quadros de recessão e de desemprego, agitando o espectro sino-indiano, a perda de influência no mundo e o anunciado colapso empresarial. É este último afinal, aquele que mais se aproxima das suas reais preocupações, pois o lucro a todo o transe – e que reconhecemos ser o móbil da economia -, trucida os extractos sociais não empresariais, arruina a periodicamente necessária intervenção do Estado e distorce o verdadeiro progresso material que deve ter como base a inovação e a produção de novas tecnologias e atractivos produtos capazes de responder à constante demanda do mercado, num âmbito de segurança laboral e justiça na repartição. A vertigem do terciário e da especulação – seja ela bolsista ou imobiliária -, corroem os alicerces da confiança dos povos na U.E. A deriva imperial, a construção de uma Europa-fortaleza à procura de um lebensraum nas suas margens, assusta a generalidade dos cidadãos de cada um dos Estados membro.

    Urge respeitar a decisão irlandesa e reconhecer o primado da Europa das Nações, já visionada há noventa anos pelos soldados que regressaram vencedores ou derrotados, das trincheiras da I Guerra Mundial. Esta Europa de bancos, bolsas, off-shores, cartéis e conluios da casta politiqueira que atravessa o continente de lés a lés, deve pensar na sua própria sobrevivência. No horizonte surgem negras nuvens e uma simples brisa pode transformar-se num furacão. Um novo e espontâneo 1848 teria consequências imprevisíveis. Pode eclodir de forma súbita e fulminante e então será tarde demais. Sem pena e no meio de clamorosas chufas, assistiremos a apressadas fugas dos hoje todo-poderosos que varridos da história, nada mais serão que folhas secas de uma outrora colossal árvore inesperadamente tombada.
    O que virá depois?

  9. GL diz:

    A Europa segue a resistir e a hesitar sobre o inevitável. Só perde tempo e vai ficando cada vez mais ultrapassada e débil. Agora soa a brincadeira todo o esforço para chegar ao Tratado. Deve haver um plano B… será que ninguém previu que a Irlanda ia dizer não? Com tantos demagogos e dinheiros escusos em todo lado, com tanto conservadorismo envelhecido e a cheirar a mofo, é natural que sempre vença o não.

  10. Rui diz:

    Não consigo compreender o sr. Presidente quando tão depressa se queixa do afastamento dos cidadãos da política, como depois se queixa de não se afastar a política verdadeiramente séria e grave (pelo menos, todos eles dizem que o é) da esmagadora maioria dos cidadãos (ficando “por dentro” apenas os deputados).

    Quanto a mim o sr. Presidente tem a mesma posição que o carcereiro do exemplo de Luís de Sttau Monteiro em Um Homem Não Chora. Passo a citar:

    “Imagine o Senhor Engenheiro que eu fora condenado à morte por uma sentença injusta e que passava os meus dias na cela criticando a sentença e o estado das coisas que a tornara possível. Está a imaginar isto? Pois imagine agora que o carcereiro, farto das criticas permanentes, me vinha propor que eu o auxiliasse a fazer uma corda melhor para a forca, isto sabendo eu que acabaria por ser enforcado por essa corda… Imagine agora que o carcereiro, furioso perante a minha recusa, se afastava pelo corredor fora resmungando que os presos passam a vida a criticar, mas que, quando se lhes oferece a possibilidade de concorrerem para o melhoramento das coisas, se recusam a auxiliar os que trabalham cheios de boa vontade. (…)”

    Para o sr. Presidente, aos cidadãos deve deixar-se apenas a corda; e mal daqueles que se mostram desinteressados em colaborar.

  11. A.Silva diz:

    Não tendo assento no conselho de chefes de Estado e Ministros da União Europeia,Cavaco vem dizer aquilo que sempre disse.Quanto ao PS e PSD que prometeram o referendo e voltaram com a palavra atras revelaram-se mais incoerentes.Cavaco é assim e sempre foi no entanto depois de ter sido PM foi eleito para PR.Agora a questão é outra,no caso do não Frances a constituição foi posta de parte,mas em relação ao não irlandes os restantes estão todos a decidir continuar as ratificações para por a Irlanda entre a espada e a parede.Afinal ainda não há tratado nas os lideres europeus já estão a proceder como ele já estivesse em vigor.Os países mais poderosos tem uma representatividade superior á dos países mais pequenos.

Os comentários estão fechados.