O profeta míope (2)

Suspendi temporariamente o meu jejum de Expresso no último sábado (conto reatá-lo bem depressa, que aquilo continua sensaborão e intragável). E uma das poucas novidades que por lá lobriguei foi uma coluna entregue à hábil pena do nosso amigo atlante, o Henrique Raposo.
Ávido de sabedoria, fui ler a coisa. Primeira revelação: para os maus dos jornalistas e os burros dos esquerdóides, a globalização é tão somente um papão que se limita a enriquecer o Ocidente e, “por consequência”, a empobrecer “o resto do mundo”. Para a néscia esquerda, um processo civilizacional sobre o qual todos os dias se escrevem centenas de páginas é apenas uma versão ampliada do colonialismo. Malta como Giddens, Bauman, Wallerstein e quejandos afinal limitou-se a alimentar esta lenda propagandística, não a reflectir sobre a sua complexidade.
Ignoro se a ATTAC tem uma página para crianças; mas só pode ter sido de uma fonte dessas que HR bebeu tão redutora patetice. No entanto, o homem continua “analiticamente feliz”. Isto por andar desde os anos 90 a defender que “vivemos num mundo pós-europeu”, onde a China e a Índia se erguem por fim dos confins da pobreza. Agora aboletado nuns tais “corredores da investigação” (suponho que sejam uma espécie de corredores do poder, mas com mais sábios lá dentro), HR exulta: “afinal, não sou maluquinho. O mundo deu-me razão. Obrigado, mundo!”
Não tem de quê. Mas olhe que houve gente a chegar aí antes de si. Ainda por cima, alguns dos teóricos amarxizados que tanto abomina. A hipótese dos sistema-mundo de Wallerstein é bem conhecida; postulando que a globalização não é um processo novo, antes decorrendo de mudanças iniciadas durante o “longo século XVI” de que falava Braudel – sobretudo a implantação de uma ordem económica mundial que já não carecia do sustentáculo de um império. A ideia de longos ciclos de escala planetária foi adoptada e levada mais longe por gente como Janet Abu-Lughod e Andre Gunder Frank, tendo estes autores (entre outros) especulado que o centro de um possível sistema-mundo talvez não esteja na Europa, mas sim na Ásia. De acordo com essa visão, apenas por acidente (o abandono das actividades marítimas chinesas ou a descoberta europeia de jazidas de minerais preciosos no Novo Mundo, por exemplo) a Europa alcançou a predominância; mas agora o carrossel dos ciclos históricos de longue durée está a dar mais uma volta e a hegemonia deverá de novo ser conquistada pela China. Note-se que esta é uma simplificação grosseira; mas, mesmo assim, basta para mostrar que as profecias que tanto contentam HR já têm afinal largos anos. E foram logo feitas pelos tontos que, de acordo com o nosso vidente dos corredores, se teriam limitado a confundir globalização com colonialismo.

João Carlos Espada encontrou discípulo (e vizinho de página) à altura; pelo menos na miopia e na presunção sem limites.

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