Fora de jogo

Um meu amigo angolano acredita que os seus compatriotas têm como principal esteio da sua alma colectiva um tipo muito específico de megalomania. Corporizado, por exemplo, no orgulho desmedido em tudo o que é angolano. Até nas desgraças. Por exemplo, conta-me esse amigo que ouviu a seguinte resposta de um patrício, a propósito já não sei de que conflito armado: “mas essa guerra tinha Migs? Não? Então não deve ter sido grande coisa. A nossa guerra… essa sim, foi guerra a sério”. No último mundial de futebol, mal a selecção angolana amealhou uns pontos, todo o país, media incluídos, se convenceu de que iam ser campeões do mundo. A sério.
Durante meses, andei com esta questão no fundo do cérebro. Mas onde é que os angolanos terão ido buscar este optimismo alucinado, esta esfuziante independência da realidade? Agora, desde que começou o Euro, já não tenho dúvidas: a maleita foi exportada de Portugal.
Logo após a vitória sobre os turcos, a alucinação tornou-se consensual. As bandeirinhas regressaram, mais enfunadas e berrantes que nunca. Gente até aqui razoável anda a fazer contas de cabeça, calculando itinerários para a final. Já perdi a conta às vezes que ouvi “comentadores” radiofónicos juntar na mesma frase a expressão “conquistar o Euro” e o nome da nossa pobre e sumida pátria.
O problema é que isso não vai acontecer. E tanto investimento emocional numas quantas criaturas que sabem dar uns bons chutos mas ainda nem sequer se provaram enquanto equipa só pode acabar mal. Quando as coisas derem para o torto, todo o país vai aterrar na dura realidade. De cabeça.
A diferença para os angolanos é que eles estão já tão mal que só entrevêem futuros promissores, com ou sem bola; o seu mundo é optimista por obrigação. Nós passamos a vida a olhar para baixo, esperançados em por fim ver surgir o fundo do poço, o momento em que isto já não pode piorar. Não precisamos mesmo nada de mais uma neura colectiva.

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22 respostas a Fora de jogo

  1. j diz:

    Mais um “xenófobo”.
    E, mal maior, que “não gosta de futebol”.
    O Paulo Pinto já tem companhia ::))

  2. alexandra tavares teles diz:

    O povo que eu conheço já aterrou na crise de cabeça, ao povo que vejo nas manifs já não há neura que lhe pegue e se algum perigo pode vir do Europeu é precisamente, na minha modesta opinião, se, desta vez, Portugal ganhar. As vitórias tendem a fazer esquecer os dramas. Creio, no entanto, que nem isso: o preço do gasóleo ou da prestação da casa, dificilmente nos sairá, por pouco tempo que seja, da cabeça. O resto será apenas uma ou duas noites bem festejadas e bebidas de um pessoal que não é nada estúpido.

  3. alexandra tavares teles diz:

    “As bandeirinhas regressaram, mais enfunadas e berrantes que nunca”- às janelas? Em Lisboa, não tenho visto.

  4. Luis Rainha diz:

    Nos carros, nas motoretas… até anda uma algures em minha casa.

  5. alexandra tavares teles diz:

    tenho visto muito poucas. De qualquer forma, há muito menos do que há dois e quatro anos.

  6. eh ehe eh eh … nada disso L.R.! Quer nós (PT’s ) quer os Angolanos somos todos muito Pró David Hume : ” o conhecimento deriva inteiramente da experiência” … Logo, até lá ( a priori) tudo está no mesmo plano de validade … ( a megalomania ou o pessimismo)

    O Sr.Tárique exemplificou um retalho da nossa “experiência passada”, que fala por si, nesta grande “fezada” de dádiva emocional colectiva … É uma coisa parecida como o deve ter sido o passar o Cabo das Tormentas/ou da Boa Esperança … ( há mais de 5 séc.) vale

  7. Luis Moreira diz:

    Isso dos Angolanos é sede de identificação.Vi isso no Quebec.Eles não acreditam que nós temos 800 anos como país.Ouviamos o hino e não nos levantamos.Lá lhes expliquei que só nos levantamos se um estrangeiro não tiver o devido respeito. E que já defendemos a independência porta a porta, com armas na mão,várias vezes e mesmo sem exército,vencemos!

    No Quebec os tipos,que querem a independência, pareciam umas meninas a chorar sempre que tocam o hino.

    Onde é que é Portugal?

  8. cristã diz:

    “pareciam umas meninas a chorar sempre que tocam o hino”. mau,mau, ai a conversa…

  9. Luis Moreira diz:

    Cristã,tem razão eu tambem choro com a facilidade de uma menina (desculpe,não é isso…)

  10. O pior é a grotesca e pindérica bandeirola da carbonária hasteada por todo o lado.

  11. A Bandeira é Bo-ni-ta!

  12. Alguém já pensou que nos outros países a coisa pode ser parecida? Haviam de ver os holandeses…

  13. Luis Rainha diz:

    João,
    Assim de repente, topo duas diferenças: os holandeses até são capazes de ganhar a coisa – acabaram de dar três secos aos campeões do mundo; mais importante, não precisam do futebol para se sonharem num país decente.

  14. HMAG diz:

    Curioso constatar que tambem os Turcos, os Italianos, os Alemaes, os Gregos e os Espanhois para alem dos Portugueses encheram as ruas aqui em Colonia de bandeiras … Aqui, mais do que as janelas coloridas, os carros parecem agora todos alegoricos! Os Alemaes, va-se la’ saber porque (afinal de contas conseguiram o mesmo numero de pontos que nos num jogo), estiveram ate’ as primeiras horas da madrugada a festejar nas ruas, num sinal de “investimento emocional” notorio e … o dia seguinte ate’ era de trabalho! Que bem sabemos (e nos sabe) desdenhar do proprio umbigo …

  15. alexandra tavares teles diz:

    pois HMAG. Mas há quem insista em pensar que Portugal só se tornará um país decente se deixar de gostar de futebol ou que é o futebol que nos impede de ter um país decente.

  16. alexandra tavares teles diz:

    Porque carga de água, cidadãos de um país decente perdem a cabecinha com o futebol? Não se percebe.

  17. Luis Rainha diz:

    Não é bem isso, como sabe, aliás, Alexandra. Mas a excessiva dedicação ao futebol é sim uma busca de um sucedâneo de sucesso que nos acalme. E trata-se de uma situação “loose-loose”: se ganhássemos lá ficaríamos babados e anestesiados por uns largos meses, e quando perdermos vai tudo ficar mergulhado na mais negra neura…
    A bolomania não é causa de coisa alguma. É apenas mais um sintoma chunga.
    Nos países decentes, a coisa fica-se pelo que devia ser:um passatempo divertido, que não altera grande coisa do universo, quer se ganha ou perca.

  18. Emidio Fernando diz:

    Ha bandeiras por essa Lisboa fora. Basta alias passar por um bairro pobre, de barracas, ou por um bairro social. Sao bandeiras de ponta a ponta. E a sina: quem menos razoes tem para agradecer a Nacao, mais orgulho tem dela. A dita Nacao “orgulha-se” de outros feitos. Por exemplo, deixar que em Mocambique o ingles tome de “assalto” o pais. Ate nos teclados que nao tem acentos.

  19. alexandra tavares teles diz:

    creio que há um problema com o envio dos meus comentários (se não há, peço-lhe no entanto, que faça, por favor,a substituição). Vou, por isso, repetir (e completar) o anterior.

    Com portugueses, é considerado’ um sintoma chunga’; na Holanda, na Inglaterra ou na Alemanha, onde a agressividade, a ressaca violenta e a competitividade à volta do jogo ultrapassam em muito o que se passa por cá ou com os adeptos portugueses, chama-se ‘um jogo divertido’. Não me parece que a bolomania seja uma coisa ou outra, nem a competição desportiva, em geral, se resuma a ‘chunguice’ ou ‘diversão’. Já tive oportunidade de ficar estupefacta com o que vale para os norte-americanos uma final olímpica dos 100 metros ou, ainda mais, uma estafeta de 4x100m, (a começar nos jornalistas USA que cobriam os jogos) apesar de, basicamente, ganharem sempre aquelas provas. Julgo ainda que se engana redondamente quem pensa que o povo português parou no tempo e, ainda por cima, no tempo de Salazar.

  20. Luis Rainha diz:

    Alexandra,
    Para quem está de bem com a vida, um charro tenderá a ser apenas uma actividade social divertida, sem mais consequências. Para quem está na merda, é meio caminho andado para se transformar num carocho. E a questão pouco tem a ver com Salazar, mais com a tentação do escapismo.
    Emídio,
    Que fazes tu em Moçambique, ó alminha perdida?

  21. alexandra tavares teles diz:

    Ó luís ainda – ainda – não preciso de um desenho.
    Pois, o ponto é que eu acho que o pessoal cá na terrinha já percebeu isso mesmo e concorda, plenamente, com o Luís: que não é o charro – charro nenhum- que o vai tirar da merda. E pelas últimas notícias não me parece que andemos todos a chilrear desde há quatro dias…

    pa – Só referi Salazar porque já estou farta de,em 2008, ainda se ouvir falar da tríade e do triste povo .

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