O profeta míope (1)

Quando há uns dias reparei que alguns bloggers de direita gostam de se apoiar na cómoda bengala que é a imagem de uma esquerda neolítica e acéfala, tinha sobretudo em mente o João Pereira Coutinho. No entanto, sei-o inteligente de mais para acreditar mesmo em tal artimanha discursiva; dá jeito para acirrar o adversário mas trata-se apenas de uma caricatura, útil embora desfocada.
No entanto, há quem tome o espantalho por gente a sério. Ou vice-versa.
Henrique Raposo é disso excelente exemplo. Este atlante perora longamente contra aberrações políticas em que, segundo ele, quase meio mundo (a esquerda, precisamente) acredita sem rebuço: no outro dia, foi a vez do “multiculturalismo”, descrito como “a ortodoxia da moda. Um digno sucessor do marxismo.” Uma nefanda doutrina que postula que “todas as culturas são iguais”, sem, claro está, deixar de propagandear “que o Ocidente é a pior de todas as civilizações”. Pelo meio, esta aberração ainda consegue ser responsável pela praga das quotas (ao que parece, minorias e géneros também contam como “culturas” para o bom Raposo), distribuídas a gente de “cor de pele não-branca”.
Concluindo, o dito multiculturalismo é um monstro que abjura “Razão, Homem, Direito” – explicar melhor o que significam neste contexto tais Grandes Entidades com Maiúscula é que parece já coisa trabalhosa de mais.
Não sei bem que autores da ralé esquerdista escreveram as enormidades que suscitam esta reacção entre o alarmado e o ultrajado a HR. Provavelmente, nem ele. Mas isso é coisa de somenos para um vidente que sabe que quem participa em manifestações contra o Governo só pode mesmo é ser uma das assustadoras “200 mil pessoas de extrema-esquerda” que lhe enchem o quotidiano com pesadelos incoerentes deste jaez.

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