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Nestes dias pós-MTV, tudo parece servir para matéria-prima de telediscos. E porque não a Arte? (Repararam por certo no majestático “A” grande.) Não falo de clássicos como esta performance de Joseph Beuys nem das aventuras pop de Julian Schnabel; hoje, uns pozinhos de shareware e uma canção qualquer já bastam para ser terra-tenente na galáxia multimedia da web 2.0. Mas, por outro lado, talvez esta seja mesmo a forma mais “moderna” e menos maçuda de se mostrar pintura a alguém com menos de 30 anos…
Vem este arrazoado de velho irritadiço a propósito do catalão Dino Valls e do vídeo que topei há bocado. Para não destoar do espírito de reciclagem hoje dominante, deixo-vos um pequeno apontamento, já com uns anitos, sobre este pintor. Se algum dos links não funcionar, a culpa também deve ser do zeitgeist.

Nascido em 1959, em Saragoça, Valls é um autodidacta que, antes de optar pela pintura, foi médico e cirurgião. Desde cedo se preocupou com os aspectos mais oficinais da Pintura, tendo estudado em profundidade os mestres renascentistas até desembocar na improvável escolha da têmpera de ovo como técnica preferida.
Segundo o próprio artista, a sua pintura pretende eliminar as divisões entre pensamento lógico e pensamento mágico; um desiderato eminentemente surreal. Como escreveu o crítico Carlo Fabrizio Carli, “Valls não é de todo um pintor realista, muito antes pelo contrário. A sua arte, imaginativa e mental, metamórfica e visionária, destaca-se ao enfrentar a Natureza, alimentando-se sempre da história da Arte”.
Por vezes, ele parece resvalar para um maneirismo virtuosista e para temas não muito distantes dos de Delvaux ou de Dorothea Tanning. Mas, nos seus melhores momentos, e a partir da profunda inflexão que sofreu em 1998, a obra de Valls transfigura-se de uma forma quase religiosa, banhando o sadismo mais cruel na luz impassível das visões sagradas.
Trata-se de uma pintura difícil de enquadrar; a sua técnica imaculada e anacrónica acaba por funcionar quase como um verniz de estranheza entre as imagens e o espectador, uma membrana que desfoca expectativas e se esquiva aos pontos de fuga banais. O centro nunca anda longe do corpo humano: as suas relações nem sempre pacíficas com o tempo e com o espaço, os acidentes cruéis, a transgressão mutante de todos os seus limites, e, acima de tudo, uma obsessão ascética com a pureza da autoflagelação, com a redenção que só os ferimentos rituais podem mediar.

Valls é hoje um produtor de imagens sacras ao serviço de uma terrível religião ainda em busca da sua divindade, tendo como liturgia o credo nas possibilidades infinitas da anatomia humana.

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