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5 Junho 2008 | por João Galamba

Posso estar a forçar uma interpretação, mas, ou muito me engano ou o Pedro Picoito parece querer mostrar que a genialidade decadente de Amy Whinehouse é uma espécie de corolário da revolta moderna contra Deus; e, com isso, implicitamente, credibilizar a posição—conservadora— que a antecedeu. Mas a ideia de que no final do sec xviii o romantismo consagrou o génio criador e que este “já não é a voz dos deuses, mas um Prometeu moderno, o intérprete do progresso da Humanidade. A sua autodestruição é o preço por nos dar mundos novos e interditos. O fogo do génio queima aqueles que se revoltam contra a condição de mortais. A única verdadeira inovação do século XX é o crescimento do mercado da imortalidade, com os media e a cultura de massas”, parece-me uma visão algo redutora e parcial da arte pós-romântica. A ideia de Génio, como alguém que substituiu Deus enquanto entidade criadora única, não tem de redundar numa apoteose subjectivista. A crítica a interpretações puramente subjectivistas, em que o acto criador se sobrepõe ao significado e ao valor do produto criado—engendrando uma espécie de fetishismo idólatra do artista—não é propriedade única de posições conservadoras (tementes a Deus ou outra ordem qualquer que nos proteja da demência humana); essa crítica já foi feita, sem, no entanto se rejeitar a revolta anti-dogmática operada pelos românticos, como parece ser a intenção de Pedro Picoito.

Comentários

Comentário de Nuno
Data: 5 Junho 2008, 13:20

Explica lá de forma mais transparente o que estás a dizer: estás a pensar em quem quando falas da “crítica a interpretações puramente subjectivistas” mas sem “rejeitar a revolta anti-dogmática”?

Comentário de zé copo
Data: 5 Junho 2008, 13:38

Ela revolta-se é quando lhe falta o binho.

Comentário de João Galamba
Data: 5 Junho 2008, 14:41

Estou a pensar em todos os autores (Gadamer, Ricoeur e Taylor) que se inspiram em Heidegger e criticam a reificação do sujeito que a filosofia estética (i.e., Kant e os românticos), defendeu. Um livro muito bom sobre estes temas é o ‘The Wake of Imagination’ de Richard Kearney.

Comentário de João Pinto e Castro
Data: 5 Junho 2008, 14:41

O Estaline, por exemplo, alinharia sem dúvida nesta polémica ao lado do Picoito.

Comentário de Model 500
Data: 5 Junho 2008, 16:09

Revolta moderna contra Deus é uma ficção. Cada sociedade necessita, e sempre necessitará, de ter a sua figura emblemática forte. Na modernidade é Prometeu, o deus do trabalho, da razão e da seriedade. Mas já se nota uma certa fadiga. Na verdade, assistimos ao retorno de uma outra figura emblemática: Dionísio, que representa a desordem, a festa e também o desenvolvimento do hedonismo. Ou seja, hoje pode-se ser agnóstico, sem no entanto excluir nem a ideia do sagrado, nem mesmo a legitimidade de uma interpretação propriamente religiosa do sagrado. Nós descobrimos o sagrado sob formas inéditas, como por intermédio de Amy Winehouse, por exemplo. O que mudou realmente foi o lugar do indivíduo em relação à religião. Nas sociedades tradicionais, a religião precedia o indivíduo e impunha-se a ele do exterior, enquanto que agora o sagrado pode ter face humana: é um sagrado pensado a partir do homem e que decorre de nossas experiências vividas. Como Nietzche disse Deus morreu, mas a transcendência continua. O sagrado perdura, agora com cariz diferente, na medida em que é o humano que é sacralizado.

Comentário de rvn
Data: 5 Junho 2008, 16:47

joão,
escrevi este texto na noite dos Grammys, enquanto via Amy Winehouse na performance possível. ‘A ideia de Génio, como alguém que substituiu Deus enquanto entidade criadora única, não tem de redundar numa apoteose subjectivista.’, dizes aqui e bem, a meu ver. Fico a pensar que não teria, de facto, que ser assim. Mas fico igualmente sem perceber porque diabo acaba por ser o que acontece na realidade dos dias de Miss Amy e do seu público, como mais uma vez nos foi dado constatar.

Amy Winehouse foi a grande vencedora da noite dos Grammys, em Los Angeles. Cinco, nada menos. O pior que lhe podia acontecer, digo eu. Amy tinha recebido seis indicações para os Grammy 2008, incluindo as quatro principais (Revelação do Ano, Álbum do Ano, Gravação do Ano e Música do Ano). Ganhou cinco estatuetas, saboreadas pela televisão já que não pôde recebê-las pessoalmente. O governo dos EUA negou visto à artista para cantar no Staples Center, sede da 50ª edição dos Grammys, atendendo aos escândalos habituais na rapariga. A pedido dos organizadores, Winehouse só poderia cantar numa performance televisiva em directo de Londres, onde mora e cumpre seus tratamentos anti-drogas. E assim foi.

Foi assim que uma perturbada garota de 24 anos acabou premiada com cinco dos mais importantes galardões do show business mundial, numa noite que qualquer deslumbrado acha o sonho de uma vida. Mas que eu receio ter sido a pior coisa que poderia ter ocorrido à pessoa que veste o boneco de Amy, agora levada em ombros a ocupar uma residência no condomínio dos deuses, mas sem a mais que improvável lucidez que lhe diga ao ouvido (muitas vezes por hora, minuto, segundo) que se trata apenas de uma cedência de espaço, um aluguer caro, não uma compra definitiva de lugar vitalício. Que é preciso batalhar pelo lugar, dar mais e melhor de si a cada momento. Ou será o mesmo público que hoje lhe paga a renda a despejá-a na rua de todas as amarguras: o beco do arrependimento.

Aos ouvidos de Amy sopram agora as mesmas vozes que sempre se encontram ao redor de um vencedor, os que dizem só o que sabem ser do agrado de quem ouve, sem risco de contraditório. Take it for granted, dir-lhe-ão. E ela vai gostar de ouvir, pelo que if they want to send me for rehab I’ll say no, no, no. Em volta de uma Amy já em desequilíbrio estão agora os pesos mortos, rapaziada do elogio, pessoal da lingua no coiso, mestres da graxa e sugadores de luxo em qualquer palhinha que se ponha a jeito. O peso de todos, num equilíbrio já de si precário, fará cair o chão e desabar o tecto do sucesso. Depois pôr-se-ão a milhas. E só na solidão do abandono das sanguessugas e dos cínicos, dos lacaios e dos bobos, dos falsos e dos merdas, é que Amy Winehouse vai encontrar um dia o seu caminho da glória. Ou não, quem sabe fica pelo caminho, como tantos outros fenómenos que não se souberam gerir enquanto tal. Que só deram pelo valor do seu talento quando já toda a gente tinha secado as lágrimas por este se ter suicidado. Será uma pena se assim for também com esta garota, pouco mais, brinquedo nas mãos das bruxas que batem palmas ao petisco da rentável novidade. E que querem tanto rehab como ela, alucinada. Amy Winehouse sem drogas? Podia até ser engraçado, mas não vendia. Amy é mais que a pessoa que canta, é o boneco escandaloso que pisca o olho à moda, que é quem paga as contas. Do encanto do espectáculo faz parte a sua própria degradação, que o público paga para ver como quem vai ao circo ver o leão comer o prior, neste moderno freak-show global.

Amy Winehouse é um fenómeno da pop, uma genuína alma de artista perdida numa embalagem de sofrimento e desespero. Uma voz de timbre único, uma sensibilidade selvagem e um ritmo original, próprio, inventado, criado, seu de berço. Uma eleita, inocente dessa culpa. O que ela tem que a faz genial ela não domina, não compreende, não vê e não valoriza. Para ela, tal como está, a felicidade ainda mora no nevoeiro e o amanhã não existe. Aos 24 anos, Amy segue em rota de colisão com o seu próprio futuro, embalada na asneira por não conseguir chegar com o pé ao travão da maturidade. A noite de ontem, ao carregá-la com mais cinco pesos de estrelato, só chamou mais gente para ajudar a empurrar a tragédia. Só deu velocidade ao inevitável, suspeito. Porque o espectáculo, esse, tem que continuar sempre, custe o que custar. E custe quem custar no caminho.

Comentário de Nuno
Data: 5 Junho 2008, 16:59

Pois não me parece que Heidegger discordasse profundamente da análise que o Picoito fez no Cachimbo. Pelo contrário, penso que Heidegger concordaria com a observação do Picoito quando este diz que “o artista já não é a voz dos deuses, mas um Prometeu moderno, o intérprete do progresso da Humanidade” — daí a urgência que Heidegger atribui à poesia (linguagem não filosófica, não metafísica) como modo de manifestação do Ser. Mais ainda, certamente que Heidegger concordaria com o Picoito quando este diz que o nosso tempo se caracteriza “por fazer
da mais literal vulgaridade um objecto de contemplação”. Finalmente, arriscaria dizer que Heidegge não partilharia do teu “optimismo” em relação aos méritos de outras formas de criação modernas.

Comentário de João Galamba
Data: 5 Junho 2008, 17:04

Nuno,

Concordo. Mas eu não quero acabar a dialogar com vozes de seres que se ausentaram do mundo. Como não aderi a nenhuma ideologia criminosa, não tenho que me resignar a passividades místicas a la heidegger. Os autores que referi, embora inspirados em heidegger, não acham que ’só um deus nos pode salvar’

Comentário de João Galamba
Data: 5 Junho 2008, 17:08

Eu partilho a crítica a vulgaridades embrutecedoras, só não acho que esse seja um corolário necessário de termos abandonado Deus ou de vivermos numa era democrática.

Comentário de ezequiel
Data: 6 Junho 2008, 5:06

eu nunca consegui separar o acto criativo do valor e significado da obra…o acto criativo, o contexto histórico etc yada yada fazem parte de uma assemblage…o autor não existe! tudo é intrinsecamente comunitário???

com seres q se ausentaram do mundo? como é que isto é possível? parece-me uma impossibilidade…os alienados do mundo pertencem ao mundo…não há um mundo autentico ao qual eles, os alienadozitos, podem regressar depois da trip alienadizante (uuh, que tal?)…

vulgaridades embrutecedoras…

são uns brutos, esta malta. :) embrutecidos pela ausência do mundo…quel mundo?

Comentário de ezequiel
Data: 6 Junho 2008, 5:11

estes alemães são assim:

tem que ser o Mundo…o Homem-no-mundo
vistas largas…nada menos do que o mundo (não Um mas O mundo)
tem que ser coisa granducha…se não for metafisica, nem passa à porta
logo, Mundo.
homem-no-mundo
há mais alguma coisa para dizer depois de se mencionar o Mundo?

eu, pessoalmente, penso que a categoria homem-no-mundo é extraordinariamente interessante…sucinta!

Comentário de pedro picoito
Data: 6 Junho 2008, 15:53

João, grande confusão que para aqui vai. Vou tentar explicar-me um pouco melhor no Cachimbo. Mas aviso já que grande parte do que digo é inspirado pelo Steiner e até pelo Tocqueville. É provável que o João Pinto e Castro não conheça esses fascistas, mas se está à procura de estalinistas talvez seja melhor procurar entre os compagnons de route.

Comentário de Luis Rainha
Data: 7 Junho 2008, 12:07

Ezequiel,

Palpita-me que os tais “seres q se ausentaram do mundo” são mesmo os defuntos. E dessa trip custa um pouco a regressar.

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