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Pobres com televisão no quarto das crianças

4 Junho 2008 | por João Pinto e Castro

O jornal Público de ontem inseriu na sua página 10 um artigo intitulado: “60 por cento das crianças e jovens têm televisão no quarto”. Estranho num país com tanta pobreza, não é verdade?

Curiosamente, no mesmo dia, o economista Nogueira Leite dizia ter dificuldade em perceber como pode haver tantos pobres num país onde tanta gente declara possuir segunda habitação.

Mas será verdadeira a notícia do Público? Pois é…

Procurei através do Google o estudo de Rita Espanha e Tiago Lapa citado pelo Público, e lá fiquei a saber que a amostra foi exclusivamente constituída por jovens com acesso à internet.

Logo, para ser verdadeiro, o título do Público deveria antes ser: “60 por cento das crianças e jovens com internet em casa têm televisão no quarto”. Isto, partindo do princípio de que a amostra utilizada foi aleatória, o que, pelo que li, não me pareceu.

Faz a sua diferença, não faz?

PS - Se investigar um bocadinho, o Professor Nogueira Leite vai concluir que boa parte (se não a maioria) das chamadas segundas habitações que adornam o país são, na realidade, barracas.

Comentários

Comentário de Luis Rainha
Data: 4 Junho 2008, 10:38

Belo “furo”!

Comentário de rms
Data: 4 Junho 2008, 11:05

Sim, o verdadeiro furo.

Aliás, hoje em dia, nem é preciso ter tv no quarto. Basta ter o computador e a referida Internet para ter acesso a quase todos os canais…

Comentário de Luis Moreira
Data: 4 Junho 2008, 12:16

E a maior parte das vezes a chamada primeira habitação anda perto disso!

Comentário de antónio
Data: 4 Junho 2008, 15:22

… a chamada desonestidade intelectual ao sempre ao serviço da areia que insidiosamente se tenta imiscuir nos olhos…

Comentário de Luís Lavoura
Data: 4 Junho 2008, 16:14

Eu diria que num país de pobres e com o gasóleo ao preço a que está, não haveria à entrada de Lisboa as bichas que há. E são bichas de carros, mesmo: não são de bicicletas, nem mesmo de motas.

Comentário de o sátiro
Data: 4 Junho 2008, 21:33

O post bem elucidativo.

Comentário de João Pinto e Castro
Data: 4 Junho 2008, 22:03

Luis, sentir-me-ia inclinado a classificar o seu comentário de infeliz se desgraçadamente não estivessemos todos demasiado habituados a manifestações de insensibilidade social.

Comentário de Coelho
Data: 4 Junho 2008, 23:25

O que fizeram ao Público nos último anos é um crime de lesa-jornalismo.

Comentário de De Puta Madre
Data: 5 Junho 2008, 3:06

Luís Lavoura

O ” Passe-Social” não é nada barato … e para quem tem o tempo contado, às vezes, sai mais em conta investir em gasolina.

Acredite: isto está mesmo mal distribuído e houve uma massificação exacerbada da promoção de valores exclusivamente materiais, como forma de sugestionamento do que era uma imperativa vida “feliz”de qualidade.
Ou seja: estamos perante uma hierarquização de valores em que os bem-materiais são os únicos imperativos categóricos, não se pode fugir deles, senão olham-nos de lado e quando nos começam a olhar de lado: começam-se a adensar muitos “probleminhas” dispensáveis (em bola de neve) em que, por vezes, a simples exibição ou ostentação de um desses Bens-Imperativo-Categórico os elimina como um poderoso insecticida tira muitas melgas e moscas do nosso ar, o que respiramos.

Comentário de Rita Espanha
Data: 5 Junho 2008, 8:16

Caro João Pinto e Castro,

Apenas gostaria de o esclarecer que o estudo citado no público está disponível on-line em: http://cies.iscte.pt/destaques/documents/E-Generation.pdf . Se o consultar, e se efectivamente o ler, poderá concluir que:
1. o estudo foi realizado a partir de uma amostra representativa da população portuguesa, em 2006, por questionário presencial, e, portanto, a utilizadores e não utilizadores da internet.
2. O questionário on-line que refere no seu post foi realizado paralelamente com o objectivo de testar metodologias, mas os resultados apresentados decorrem do questionário presencial.
3. O estudo está disponível pelo que foi consultado livremente e citado também livremente pelos jornalistas que realizaram a peça, a mim apenas foram solicitados comentários.

Não hesite em contactar-me caso continuem a surgir-lhe dúvidas a propósito de projectos em que eu esteja envolvida.

Comentário de Luís Lavoura
Data: 5 Junho 2008, 11:04

João Pinto e Castro, manifestações de insensibilidade social são as pessoas ditas de esquerda que se preocupam mais com os problemas da classe média, como seja arranjar gasóleo barato para o carro, do que com os problemas dos pobres, como seja arranjar lenha ou gás butano engarrafado para cozinhar as batatas. E olhe que eu conheço pessoas que usam lenha, e que se desesperam para a arranjar, porque não têm dinheiro para o gás.

Comentário de De Puta Madre
Data: 5 Junho 2008, 15:45

Luís Lavoura
Permita-me, acrescer esta observação: a Lenha, se comprada, é um produto muito caro (virou artigo de “luxo”, por causa das lareiras). E acredito que, com os fogos dos últimos verões, seja impossível encontra-la de graça, aonde ela é combustível essencial para o dia-a-dia. … Ora, o que eu estou a esforçar-me para dizer é que, mais uma vez, não podemos “sugerir” a baixa do preço da lenha sem discriminar onde ela é prioridade e onde ela é a penas “alternativa-estética” de aquecimento. Ou seja, ficar ao mesmo preço para as lareiras e para a confecção de alimentos. Vale.

Comentário de amok_she
Data: 6 Junho 2008, 2:40

Às vezes gostava q algumas das mentes superiores deste espaço me explicassem porque raio eu (por ex) faria melhor em gastar 10 euros em transportes públicos, para ir do Seixal a Lisboa e isto se ñ fizer + de 2 voltinhas de Metro, em vez de aproveitar a boleia cá do parceiro - q é um sortudo dum gajo q trabalha a gastar gasóleo só porque precisa visitar ñ sei qts clientes por dia sob pena de parar as máquinas se as encomendas ñ vierem!…e estou mesmo a imaginar o número de clientes visitados ‘à conta dos transportes sul do tejo+da fertagus+do metro+da carris’, ah pois estou! - e usar esses 10 euros para meter o maldito gasóleo no carro q ainda esticam para ir buscar o puto à escola!?

E de caminho tb gostava de perceber onde é q um televisor no quarto representa um sinal evidente de riqueza, comparando o preço desse televisor c/ bens essenciais, se não para essa riqueza, pelo menos para uma razoável qualidade de vida. Senão vejamos: qualquer porcaria de promoção, numa qualquer exploradora grande superfície, vende uma treta dessas por 60 ou 70 euros e com sorte ainda menos. Ora, qualquer tratamentozito de dentista fica a esse preço multiplicado por 3 ou 4 se a coisa não for grave, ou seja se tivermos esses mesmos 60 ou 70 euros para largar 2 vezes por anos, no mínimo. Se multiplicarmos este valor por um agregado familiar mínimo - pai, mãe e filho - façam-se as contas!…isto para não falar numa qq doença q nem precisa ser muito grave e q corre o risco de o passar a ser nas esperas do SNS….isto já para ñ falar em exames de rotina para toda a família…isto para ñ falar em alimentação de qualidade em vez das porcarias q somos (consciente ou inconscientemente) induzidos a comprar… e para ñ falar, tb, no preço a pagar por um qq programa cultural a dois, mesmo se limitado a uma vez por mês com transporte, jantar e preço do bilhete, lá se vai o tv do puto q até é capaz de durar pr’ai uns 10 anos!…isto para não falar em férias fora de casa, mesmo sem as fazer fora do país!…isto para ñ falar num bom par de sapatos tantas vezes mais necessários por questões de saúde q de estética…isto para ñ falar em livros e programas de desenvolvimento extra escolar para o puto…isto para ñ falar em livros e/ou outras actividades extra profissão para os pais…isto para ñ falar q ao ler a maior parte desta gente (q tanto critica os hábitos consumistas dos pobres) parece vê-los pertencer a uma casta de seres acima de toda esta xunguice, única culpada da ruína económica, cultura e moral deste desgraçado país!

Das duas três: ou eu vivo num outro mundo, ou a maior parte desta gente está convencida q quem os lê é imbecil!

Que os governantes nos julguem, a todos, burros ainda sou capaz de entender…às tantas somos mesmo porque se eles ganham os tachos q ganham é pq alguém lá os mete…e como supostamente é a maioria q vence, teremos de concluir q quem votou neles é mesmo burro…agora q esta gente q finge pensar e reflectir sobre os problemas da sociedade em q vivemos entenda estar acima de todo o ‘pecado’ atirando sempre para cima d’o outro’ o ónus de toda a culpa de todo o mal dessa mesma sociedade, isso é bem mais q imbecilidade…é a tal desonestidade intelectual q já aqui se mencionou…tão simples qt isso!

Já agora, fico curiosa…e numa mera hipótese teórica gostava de saber se o Luís Lavoura tem filhos? E se os tem, se os leva à escola de transportes públicos? E se os tem na escola pública? E se vai para o trabalho de transportes públicos? E se deixou de fazer férias nos últimos anos dada a crise instalada? E se deixou de ir ao cinema e ao teatro e às exposições e aos concertos; e se deixou de comprar livros e cd’s e de jantar fora de vez em qd; e se deitou fora todos os extras lá de casa e se desistiu do ar condicionado e se mudou para uma casa mais pequena para pagar menos juros e se deixou de ir à santa terrinha tb para ñ gastar mais gasóleo…

Bem…fico por aqui q a madrugada vai alta e a mim pouco (nada!) me interessa saber da vida dos ‘lavouras’ desta terra! Mas o q me lixa mesmo é esta gentinha continuar a pensar q Portugal é Lisboa!…pra eles o resto é paisagem!

Comentário de amok_she
Data: 6 Junho 2008, 3:25

Comentário de Rita Espanha
Data: 5 Junho 2008, 8:16

Caro João Pinto e Castro,

Apenas gostaria de o esclarecer que o estudo citado no público está disponível on-line em: http://cies.iscte.pt/destaques/documents/E-Generation.pdf .
(…)
Não hesite em contactar-me caso continuem a surgir-lhe dúvidas a propósito de projectos em que eu esteja envolvida.

E, na sequência dum certo tipo de desonestidade intelectual…a autora deste comentário deveria ter-se insurgido contra o jornal/ a notícia e não contra quem a linkou…o artigo apenas refere o tal inquérito online e quem o lê retira a mesma conclusão: aqueles 60% referem-se ao total de jovens portugueses e ñ apenas aos q têm acesso à internet em casa.

«(…)“Há uma tendência para o uso independente dos aparelhos de televisão que se afasta do paradigma do seu uso familiar”, dizem os autores do estudo “E-Generation: Os Usos de Media pelas Crianças e Jovens em Portugal”, de 2007. Os investigadores do ISCTE Rita Espanha e Tiago Lapa inquiriram uma amostra representativa de miúdos entre os 8 e os 18 anos e chegaram à conclusão que, apesar de continuar “omnipresente” (em mais de metade dos lares existem três ou mais aparelhos), a televisão perdeu o seu lugar central, com os jovens a dividirem o seu tempo e atenção com outros meios e tarefas, como o computador, o leitor de MP3 ou o telemóvel.(…)»

Mas, entretanto, ainda me dei ao trabalho de dar uma vista de olhos pelo link deixado e…nada encontrei de esclarecedor relativamente ao inquérito nacional não efectuado via internet. Muito pelo contrário, salvo nova leitura q farei numa outra oportunidade, quer-me parecer q o dados analisados e as conclusões extraídas se remetem exclusivamente às respostas obtidas online…pelo que se pode concluir q, mais uma vez, o jornalismo q temos é mera fantochada criada à medida das encomendas…e q este tipo de estudos tb se remete ao interesse limitado de quem os encomenda, não se vendo grande interesse sociológico …para já!, ou pelo menos para se concluir q:

1) somos um país rico e/ou desenvolvido;

2) somos um país mais esbanjador q a maioria dos países ocidentais inscritos na esfera da sociedade, aqui tão endeusada, da liberdade individualista.

Esta treta de discussão fez-me lembrar uma reportagem - já nem me lembro de q canal - sobre o abandono escolar onde se contava a ‘estória’ duma adolescente ‘pastora de cabras’ lá prós cumes duma qq ‘montanha’ deste país cuja ‘casa’ (ñ sei se a principal, ou a segunda!?:=>) exibia, naquilo a q supostamente os autores de estudos do tipo acima referenciado chamariam de quarto, um ‘garboso’ televisor!

Não importa q a rapariga vivesse no meio do gado; ñ importa q a rapariga, tal como a restante família, ñ tivessem esgotos, água canalizada ou sequer luz pela via normal: tanto qt me lembro/pareceu era um gerador a fornecer a energia eléctrica!?; ñ importa q a rapariga tivesse sido obrigada a largar a escola; ñ importa q o seu mundo pouco mais fosse q os montes, o ceu, as cabras e o q via através do tal televisor…esta rapariga vivia muito bem e com uma belíssima qualidade de vida porque…até tinha um televisor naquela espécie de quarto, sendo por isso representativa da juventude deste país!…pelo menos no q toca a riqueza…já q no respeitante ao acesso ao ensino, coitada, foi bem mais infeliz q a maioria…

Que os deuses do Olimpo me valham!!!

Pingback de cinco dias » Os jovens e os media
Data: 6 Junho 2008, 11:19

[...] Junho 2008 | por João Pinto e Castro Rita Espanha, co-autora do estudo mencionado no meu post “Pobres com televisão no quarto das crianças”, teve a amabilidade de deixar o seguinte comentário na caixa correspondente: Caro João Pinto e [...]

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