Investir na crise

Salvo encontrar petróleo em abundância nas Berlengas, o que faria de Portugal um país próspero? Mudar o país de lugar, ou melhor, tê-lo mudado aqui há uns séculos. Só com muito talento se conseguiria permanecer pobre no vale do Reno, rodeado de países ricos por todo o lado.

Aqui onde estamos, qualquer produto nosso tem de atravessar a Espanha para chegar aos consumidores do Centro europeu, e a um preço mais baixo, conseguido à custa dos nossos salários. A crise do petróleo não nos diz nada de novo. Apenas agrava o que já sabíamos.

Se a economia espanhola estava em cima aqui há uns tempos, e isso era visto como um mau sinal para nós, esperem para ver quando a economia espanhola estiver em baixo. A crise espanhola é que é um mau sinal, mas eles têm uma vantagem: dinheiro em caixa, que vão usar para investir na crise, durante a crise, e para sair dela por cima. É o mais inteligente a fazer, e para nós também.

A primeira coisa a fazer é agir como se o aumento do petróleo fosse permanente – provavelmente até é – e agir com conformidade. Nesta crónica e nos próximos tempos vamos chutar umas ideias avulsas, pensadas e picadas de coisas lidas por aí, e algumas que até já estão a ser feitas. Nem são particularmente novas. Mas, como dizia um escritor de ficção científica, o futuro já está aí – está é mal distribuído.

Diz-se que a subida do petróleo afecta todas as actividades da mesma forma. Não é verdade: as indústrias do conhecimento, da criatividade, da cultura e – em menor escala – do meio ambiente, do lazer ou do turismo escapam parcialmente ao garrote do combustível. O combustível serve para deslocar coisas e pessoas; nestas outras indústrias o que se vende é, em larga medida, imaterial.

Além de continuar a investir nas energias alternativas, tudo o que seja imaterial e possa ter valor de troca nos interessa (na verdade, já deveria interessar-nos há muito tempo, dada a nossa posição periférica). Eu sei, esta conversa está na moda. Pois bem, é uma moda que para nós faz sentido.

Há hoje muitas actividades que são independentes do lugar. O criativo que trabalha para as indústrias do vale do Reno não tem obrigatoriamente de viver lá. Mas pode viver aqui, onde o clima, a segurança e a comida ajudam. Para seduzir esta gente, Portugal terá de aumentar a qualidade de vida nos centros urbanos, onde as pessoas vivem mais perto umas das outras, querem ter vida cultural e usam mais os transportes públicos. Ganhamos todos com isso, e de várias formas.

Somos fracos em matemática, e vamos demorar para ficar mais fortes, mas há coisas em que já somos bons ou podemos vir a sê-lo rapidamente.

Uma delas: línguas. Portugal deve ser um pólo de aprendizagem de línguas, para nós e para os estrangeiros, aproveitando a proximidade com a lusofonia, o mundo espanhol e até o mundo árabe. O inglês é só o primeiro degrau da globalização: os mais competitivos serão poliglotas. Além disso, os espanhóis não competem bem neste campo e as indústrias imateriais precisam de línguas.

Nestas indústrias a matéria-prima é: educação, educação, educação. Sim, a velha paixão, de Passos Manuel a António Guterres, sempre escarnecida pelos cépticos! Que se lixem os cépticos. Os cépticos gostam de alegar que já gastámos muito em educação (como se fosse uma opção desistir a meio do caminho) e que a Inglaterra fez a revolução industrial com um exército de analfabetos. Pois é: mas os tempos que aí vêm são muito diferentes da revolução industrial. Mesmo nesse tempo, Passos Manuel já tinha razão.

Hoje teria mais ainda.

02.06.2008, Rui Tavares

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6 respostas a Investir na crise

  1. Luis Moreira diz:

    Nem o petróleo nas Berlengas.Veio da UE e estamos na situação habitual.O mérito em Portugal não é premiado.Estes que comem e não deixam nada são os mesmos de sempre!

  2. Pingback: Algo me diz que o Rui Tavares… « Vasco Campilho

  3. Concordo com a ideia de apostar nas “indústrias do conhecimento” embora este termo esteja muito longe da estabilização. O turismo é que eu acho que não pode deixar de sofrer com a crise dos combustíveis.
    Por outro lado não me parece desejável uma “sociedade do conhecimento” com desertificação do país por impossibilidade de nos deslocarmos fisicamente.

    Finalmente um comentário sobre a educação; não basta aumentar as “qualificações” para resolver os problemas. O nível da formação é importante mas é preciso compreender que mesmo a pessoa mais inculta tem uma “capacidade de processamento” notável.
    Tem que existir um sistema produtivo onde os trabalhadores, mais ou menos evoluídos, possam encaixar de maneira criativa.

    Concluindo: não é com as empresas que conhecemos, com o tipo de contratos de trabalho que conhecemos, com a retribuição por salário calculado na base da duração das tarefas que poderemos algum dia resolver este problema.

  4. Ricardo Santos Pinto diz:

    Soluções?
    Para além dos caminhos apontados (educação, educação, educação, claro que sim!), eis uma solução radical: mudar a capital (administrativa) para uma cidade do interior perto da fronteira. Aproximar fisicamente Portugal da Europa. Lisboa só ficaria a ganhar, mantinha a importancia de sempre e resolvia alguns dos problemas que a centralidade lhe tráz.
    Os transportes também poderiam fazer alguma coisa pelo desenvolvimento. Mas em vez disso,só se fala em construção de mais e mais estradas e pontes para mais carros em direcção ao novo Aeroporto.
    E quando se foge ao rodoviário, é para lançar absurdos e desnecessários TGV’s. Repare-se que o Governo não fala do TGV para transporte de mercadorias, que seria o mais importante (onde anda o projecto da linha Aveiro – Salamanca ou o projecto
    da linha que partia do Porto de Sines?)
    Quanto ao comboio tradicional, aquele que realmente devia contar, nem uma medida. A não ser o criminoso encerramento da Linha do Tua. Mas já estou a ouvir as palavras do Primeiro-Ministro: compensa-se os transmontanos com… mais estradas e mais Auto-Estradas (Marão).
    Por fim, se a Justiça simplesmente funcionasse, isso seria um fctor de progresso a todos os níveis.

  5. Já tinha lido este texto no “Público” e com muito agrado.
    A sua republicação aqui dá-me a oportunidade de o felicitar.

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