Pobres ricos

João Miranda segue de tal forma empenhado na sua cruzada contra os malefícios do Estado, dos mandriões, dos intervencionistas em geral, que nada o consegue parar. Nem os factos. «Todos concordam que o Estado Social é insuficiente. Os “novos pobres” precisam de novos mecanismos de combate à pobreza porque os que custam todos os anos metade do PIB não chegam», escreve ele, em tom saltitão e irónico.
Insignificante parece ser que na realidade o gasto com a Segurança Social se fique por menos de um quarto do PIB. O que coloca Portugal abaixo da média europeia e mais ou menos a meio da tabela. Ou que essa verba não sirva apenas para combater a pobreza – mas talvez o João Miranda se recuse a receber o dinheiro da baixa se por acaso adoecer nos próximos tempos. Palpita-me é que o nosso economista amador predilecto julga que todas as funções do Estado, da Defesa à Justiça, entram nessa sinistra conspiração de assistência aos madraços dos pobres.
Enquanto isto, quem vai mesmo sofrendo, na dimensão alternativa habitada pelo simpático blasfemo, é o pessoal da massa: «Ser rico não compensa o trabalho que dá enriquecer.» Benditos os pobres em espírito, já dizia o outro.

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19 respostas a Pobres ricos

  1. Luis Moreira diz:

    Acha mesmo que é possível convencer o JM que há pessoas? Ele fica incrédulo, quando verifica que as teorias do mercado não funcionam, porque as pessoas não aceitam ficar desempregadas,ganhar menos,não ter estabilidade no emprego.

    Dei-lhe o exemplo do Chile de Pinochet,onde Friedman levou as suas teorias
    ao extremo com as consequências que se conhecem!E tal só foi possível em ditadura.Fiquei com a ideia que a partir daí fiquei “persona non grata”

  2. Nuno diz:

    No dia que o mercado lhe enfiar a “mão invisivel” pelo *ú acima talvez ganhe alguma dimensão e preocupação social, até lá temos de esperar por esse dia!
    Para já temos o preconceito que “os pobres não querem trabalhar” que é daquelas conversas que me tiram do sério!

  3. Luís Lavoura diz:

    “Ou que essa verba não sirva apenas para combater a pobreza”

    Pois. Em boa parte serve para dar reformas chorudas a quem delas não precisa (porque teve bem ocasião de poupar enquanto auferiu salário), e depois da morte ainda às viúvas e filhos.

    Seria bom que, sem aumentar os gastos da Segurança Social, esta fosse progessivamente distorcida no sentido de servir cada vez mais para combater a pobreza.

  4. jcd diz:

    “Dei-lhe o exemplo do Chile de Pinochet,onde Friedman levou as suas teorias ao extremo com as consequências que se conhecem!”

    Realmente conhecem-se. O Chile é hoje uma das democracias mais prósperas da América Latina e tal deve-se a ter tido um maiores crescimentos económicos do mundo das ultimas décadas do século XX.

  5. Luis Rainha diz:

    À conta, entre outras coisas bem liberais, da re-nacionalização da banca e da manutenção do monopólio estatal da indústria do cobre.

  6. Nuno diz:

    E uns quantos cidadãos mortos, sovados e desaparecidos! Coisas de somenos importância sobretudo qdo não nos atinge!!

  7. jcd diz:

    LR. Se desejar, também lhe arranjo artigos sobre o milagre da economia soviética e até podemos ler juntos os cómicos discursos do Che Guevara sobre o sucesso da Coreia do Norte e a tragédia económica da Coreia do Sul. Cada um acredita no que quer.

    Mas há certas coisas sobre as quais convinha ter um mínimo de noção da realidade, se queremos ser levados a sério.

  8. Sérgio diz:

    jcd, cure-se! não leu a resposta do Luís Raínha?
    o chile praticou o liberalismo verdadeiro: o liberalismo dos amigos de estado.

  9. Luis Moreira diz:

    O Liberalismo de Milton só foi possível em ditadura.Com assassinatos,desaparecidos e prisões ilegais.Nem que fosse o pais mais desenvolvido do mundo.

    JCD você veio dizer tudo.Para si valem os fins!

  10. RAF diz:

    Caro LR,

    “Palpita-me é que o nosso economista amador predilecto julga que todas as funções do Estado, da Defesa à Justiça, entram nessa sinistra conspiração de assistência aos madraços dos pobres.”

    Uma das mais chatices dos nossos dias são a evidência dos números. É que contrariam os seus palpites amadores (que me parece, é isso que aponta ao JM, não é?). É mesmo chato. Lá vou ter de o contrariar com base em números da OCDE.

    Lá mais para o fim-da-tarde.

  11. Luis Rainha diz:

    RAF,
    Sossegue, que o JM já lhe poupou o trabalho: os 50% dele surgem porque “o orçamento de estado é cerca de 47% do PIB”. Mas se isto é razão para afirmar que o “combate à pobreza” custa “metade do PIB”… gostaria de saber porquê.

  12. Luis Moreira diz:

    Já se tinha percebido que o JM considerava os 50% do PIB que o Estado gasta como sendo no social.Ora não é verdade. Há a justiça dos ricos,a economia dos subsídios aos empreendedores,a Defesa e o MNE da nossa elite cosmopolita e assim por diante.

    E o erro,básico,é propositado?

  13. jcd diz:

    “O Liberalismo de Milton só foi possível em ditadura.Com assassinatos,desaparecidos e prisões ilegais.Nem que fosse o pais mais desenvolvido do mundo.
    JCD você veio dizer tudo.Para si valem os fins!”

    Sobre esse assunto, escrevi aqui:

    http://ablasfemia.blogspot.com/2007/02/um-grau-de-liberdade.html

  14. Luis Rainha diz:

    jcd,

    Não me venha com fantasias, por favor. É ou não verdade que a indústria chilena do cobre continuou estatal durante o reinado de Pinochet? É ou não verdade que muitos bancos foram alvo de intervenções estatais na crise de 83?

    É assim que quer ser “levado a sério”? Lendo só parte da história?

  15. Luis Moreira diz:

    Eu tambem sou um grande intelectual quando me comparo com o “bobo” da aldeia.

    Eu não tenho nada a ver com Cuba.Tão pouco, que conheço quase todos os países da região, mas nunca me deu para lá ir.

    O simples facto de você comparar duas ditaduras,diz tudo.Não me arraste para fora da democracia e da economia de mercado que eu não vou.

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  17. RAF diz:

    Caro LR,
    Os números que eu vou apresentar vão muito além do que o JM diz. Eu, se optei por falar sobre assunto, não vai ser para barrar manteiga no pão, mas para ajudar ao esclarecimento da questão.

  18. BellaMafia diz:

    Penso que o que existe mesmo é uma cartelização do Estado, está tudo concertado para que os subsídios sejam miseráveis, ainda que aqui o povame se dedique a contribuir com quantias risórias de impostos dignos de países dotados dos melhores serviços. Viva o Estado!

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