A coligação PPD-PSD

Quando ouvi o PSD discutir a questão das coligações (presumivelmente com o CDS), a minha primeira reacção foi: tomara eles coligarem o PSD. Estas eleições consagram o PSD precisamente como coligação. Não é novidade; o PSD já era uma coligação não-ideológica entre um temperamento autoritário e a personalidade do self-made man, entre o antimodernismo nos costumes e a modernidade nas infra-estruturas. O resultado de ontem é três PSD cada um com cerca de um terço. Manuela Ferreira Leite, que tem um pouco mais, vai precisar do segundo terço para dominar o terceiro. Haverá concessões e conversões. Essas são as consequências internas e talvez permitam uma acalmia até 2009. Derrotado da noite: Rui Rio. Tem agora Passos Coelho à sua frente na fila. As consequências externas serão diminutas excepto para o CDS.

Comparativamente, o CDS aparece como um partido estático, sem debate e sem alternativas. A falhada ala liberal do CDS, para a qual Pires de Lima nem conseguiu arranjar assinaturas, passa para o PSD, onde fará o seu papel de novidade velha. Essa é a razão principal porque estão errados aqueles que pretendem que o PSD vire à direita para se distinguir do PS. Onde estão e para que servem os poucos votos que restam à direita? Por razões de contexto, o debate político em Portugal está neste momento à esquerda, onde não faltam opções. Temos a esquerda tradicional do PCP, mais a do Bloco, a de Alegre, a de Soares e a de Sócrates. Cada uma fez a sua evolução deitando fora o inevitável para manter o resto. É à direita portuguesa que falta agora fazer o mesmo. Perdeu o músculo e mantém o que sobra como mobiliário, ilusões de credibilidade por um lado, ideologia de mercado por outro, e providencialismo folclórico com Santana Lopes. Vejamos as coisas pelo lado positivo: é, apesar de tudo, mais do que tinham aqui há uns meses. Dêem-se bem e cuidem disso.

Sobre Rui Tavares

Segunda | Rui Tavares
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3 respostas a A coligação PPD-PSD

  1. Temos a esquerda tradicional do PCP, mais a do Bloco, a de Alegre, a de Soares e a de Sócrates.

    A esquerda de Alegre, Soares e Sócrates, é só uma. O PS. Infelizmente. E espero que o BE abra os olhos, os Alegristas são pólvora seca. Vão ver o Manuel novamente a cabeça de lista por Coimbra.

  2. The Studio diz:

    “Portugal está neste momento à esquerda, onde não faltam opções. Temos a esquerda tradicional do PCP, mais a do Bloco, a de Alegre, a de Soares e a de Sócrates.”

    Só mesmo a avaliação imparcial do Rui Tavares para me fazer rir a uma hora destas… O PCP, esse partido que quer transformar Portugal numa URSS do Sec XXI ?? O Bloco ?? Além de liberalizar os casamentos gays, a droga, abrir as portas imigração e dar casas a todos, que mais iriam eles fazer? Se chegassem ao poder ficariam como um boi a olhar para um palácio. O poeta Alegre? Como disse o José Júdice, só sabe dizer “mais Estado, mais Estado e mais Estado”. O Mário Soares??? Este ainda sabe o que diz? Resta o Sócrates, mas a meu ver o Sócrates dificilmente pode ser considerado de Esquerda…

  3. Saloio diz:

    Estimado Dr. Rui Tavares: estou consigo.

    Acho a sua frase “tomara eles coligarem o PSD” lógica, acertada e judiciosa. Numa palavra: lapidar.

    Para bem da democracia em Portugal, e para que os nossos filhos e netos tenham algum futuro.

    Digo eu…

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