Uma sombra (em 500 palavras) – II

Escreveu o General L.-M. Chassin, em 1951, na página 327 da sua “Histoire militaire de la seconde guerre mondiale”: “Désormais assurés de la supériorité aérienne […] les Alliés, au lieu de progrésser linéairement, en attaquant les hérissons japonais l’un après l’autre, vont débarquer à plusieurs centaines de kilomètres sur l’arrière de la prochaine guarnison ennemie, laissant à l’aviation le soin de la neutraliser par des bombardements journaliers et de la priver de tout ravitaillement en établissant un implacable blocus aéromaritime: [c’est] l’application de la stratégie des ‘sauts-de-mouton’“. Sejam então 500 palavras e 10 “sauts-de-mouton”: 1) Na Judd Street, em Londres, nasceu numa data já distante a “Judd Books” 2) que viria, noutro ponto igualmente longínquo da história, a ter uma sucursal na Marchmond Street, também a meio-caminho entre King’s Cross e Russell Square, zona das minhas deambulações 3) a qual, fechada que foi a primitiva loja, passou a ser como que uma “Judd Books” no exílio (fora de Judd Street, como atrás ficou escrito, e ainda que próxima) 4) permanecendo (não obstante o nome, que induz em erro) a minha livraria preferida no planeta Terra, 5) onde, entre várias outras inutilidades, comprei por desfastio em 18 de Setembro de 2003, conforme posso atestar por recibo ainda miraculosamente existente, o volume 78 de “The German Library”, subordinado ao tema “German 20th Century Philosophy: The Frankfurt School” e editado por Continuum, New York, cujo preço original era de $19.95 e que eu comprei (não apenas por desfastio) por £3.99, 6) compreendendo uma introdução erudita da autoria de Wolfgang Schirmacher 7) que eu sempre evitei ler com pretextos vários até que, noutra noite, também notoriamente por desfastio (e por estar algo fatigado das façanhas contadas pelo General L.-M. Chassin na sua referida sua “Histoire militaire de la seconde guerre mondiale”, incluindo a sua descrição da estratégia dita dos “sauts-de-mouton” no teatro do Pacífico, que permitia imaginar os efeitos no elemento humano da “implacável” neutralização que pressupunha das forças inimigas), eu a abri e desflorei (com volúpia, reconheço), 8) encontrando então na respectiva página IX, retirado da “Estética” de Adorno, o seguinte e significativo brocardo: “By rejecting reality – and this is not a form of escapism but an inherent quality of art – art vindicates reality”, 9) brocardo esse que me recordou a “Estética” de Adorno na sua inteireza, que eu nunca tinha lido por puro temor reverencial à filosofia alemã, mas de que tinha visto uma vez um exemplar em casa dela, comme par hasard, entre os sacos do supermercado pousados sobre mesa, como se fosse o resto de uma cogitação passada que, misturada à comida de todos os dias, aparecia então esplendidamente trivial, imagem que, dessa vez tal como agora, me recordou que 10) também Dâmaso Salcede (página 273 da 14ª edição de “Os Maias”, de 1938) “…guardava no quarto um sapatinho de cetim, de mulher, novo, por ter ouvido um dia a Carlos que ‘em todo o quarto de rapaz devia aparecer, discretamente disposta, alguma relíquia de amor…’” Sempre culpa do amor.

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SEXTA | António Figueira
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