Uma história e o seu contador

A coluna do Público era pequena, mas história era um achado. Contava que o escritor Chileno Luís Sepúlveda era amiúde chateado por polícias quando aterrava em aeroportos europeus. Os polícias desconfiavam instintivamente da sua face escura e barbuda. Já tinha tido várias chatices: na Alemanha tinha mesmo chegado a ser detido quando tentava ir para a Feira de Frankfurt. Quando aterrou em Lisboa, vinha já avisado. E quando um polícia lhe leu o passaporte e dirigiu-se a ele, pensou o pior: “outra vez chatices”…. O polícia português olhou o chileno nos olhos e perguntou-lhe:’você chama-se Luís Sepúlveda?”. “Sim”, respondeu, já como um condenado à espera do chicote, o visado. “É o autor do livro ‘O velho que lia romances de amor?'”. “Sim”, voltou a responder já surpreendido, o escritor em questão. “Então, queria-lhe desejar uma excelente estadia e fazer votos que escreva um livro em Portugal”, disse o polícia com um rasgado sorriso. Luís Sepúlveda não queria acreditar, quando se encontrou com os seus amigos portugueses, garantiu que queria comprar uma casa em Portugal, repetia sem cessar: ‘um país que os polícias lêem não pode ser mau de todo”. A custo os amigos dissuadiram-no dizendo-lhe que o país não era assim tão bom.

Esta história, que cito de memória, foi escrita de uma forma muito melhor pelo jornalista Torcato Sepúlveda que morreu há poucos dias. Nunca me saiu da cabeça. Torcato Sepúlveda era um excelente contador de histórias como há poucos em Portugal. As suas histórias ficam para nos encantar os dias. Boas reportagens onde quer que estejas.

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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4 respostas a Uma história e o seu contador

  1. alexandra tavares teles diz:

    “As suas histórias ficam para nos encantar os dias”. É mesmo isto, Nuno.

  2. rui diz:

    foi pelo encanto dessa história que eu conheci a escrita do Luís.

  3. antonio diz:

    Os meus sentimentos.
    (Excelente a história, de muita elegância a homenagem.)

  4. “A custo os amigos dissuadiram-no dizendo-lhe que o país não era assim tão bom.”

    Li algures a estória mas sem este final, a ser verdade, disparatado.

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