Um mundo ou o outro

Quando posso, gosto de ir ao primeiro dia da Feira do Livro de Lisboa. Este ano não pude. Estive na Bienal do Livro de Minas Gerais, no Brasil, onde o escritor Moacyr Scliar perguntava: “Qual feira do livro de Lisboa? cancelaram!” A notícia do tumulto chegou mais longe do que eu pensava.

À distância, vejo que em Portugal o assunto da feira adquiriu rapidamente dignidades de interpretação ideológica. É preciso escolher uma abordagem – ser “a favor do mercado” ou “contra o mercado” – para depois optar por um mundo contra o outro, APEL contra UEP, barraquinhas coloridas contra “praça Leya”.

Esta dicotomia “mercadológica” já cansa. Uma feira é um mercado, os editores e os autores estão ali “no mercado”, se para lá foram sempre estiveram “no mercado” e isso é bom. Ao mesmo tempo, uma feira é uma forma particular de mercado – sim, um mercado tão igualitário quanto possível – que se organiza melhor em certos espaços físicos como praças e parques, onde se pode oferecer as mesmas condições a todos.

As formas têm a sua lógica própria. A feira é uma forma. O parque onde ela se realiza também “pede” uma certa forma. O que essas formas “pedem” – e não as teimosias ideológicas de cada um – é uma coisa como a que lá se tem feito. Aquele aspecto primaveril, provincial e, mais uma vez, igualitário – mas será isso um problema assim tão grande 15 dias por ano? – tem servido muito bem. A prova é que tanta gente gosta tanto de lá ir.

Mas o que me encanzina mesmo nisto é que parece haver obrigação de escolher. É um mundo ou o outro. Isso poderia justificar-se, se houvesse falta de público. Mas não há. O que impedirá os lisboetas, que vão alegremente à feira do livro em Maio, de voltar a outro evento com livros no Outono?

Em vez de ter uma feira ou outra coisa diferente, deveríamos ter a feira e mais outra coisa. Consagraríamos a prática – que já foi experimentada – de realizar um “salão do livro”, ou “festa do livro”, ou o que lhe quiserem chamar, num espaço fechado, na segunda metade do ano. Cada editor ou grupo de editoras – compradas ou não pelo mesmo dono – poderia aí ocupar os metros quadrados que desejasse pagar, com o pavilhão que quisesse imaginar, e o fogo-de-artifício que lhe aprouvesse, desde cafezinho de graça a música ao vivo. Nos espaços comuns, haveria uma programação de debates, leituras de livros e presenças de autores convidados por uma curadoria independente.

Mas esperem, há mais: os livreiros também têm umas ideias. Jaime Bulhosa, da livraria Pó dos Livros e (declaração de interesses) meu amigo, defendeu no seu blogue um terceiro modelo, o de uma semana do livro com descontos e eventos nas livrarias de toda a cidade.

Qual é o problema? É mais arriscado inovar em eventos novos do que ter sucesso em cima de um modelo que já funciona bem? Mas é para isso mesmo que servem os empresários com visão e a vitalidade do mercado (bem, dizem-nos que servem para a primeira coisa, mas aparentemente têm mais jeito para a segunda).

Pelo que vi a semana passada em Minas Gerais, onde vigora o segundo modelo, a coisa resulta, e com muito público. Em Amesterdão vigora com muito sucesso o terceiro, o da semana dos livreiros. E sabem que mais?

Faz sentido. No fundo, toda a gente que lê livros gosta de ter um mundo e o outro, e mais outro ainda.

26.05.2008, Rui Tavares

Sobre Rui Tavares

Segunda | Rui Tavares
Este artigo foi publicado em cinco dias. Bookmark o permalink.

4 respostas a Um mundo ou o outro

  1. Luis Moreira diz:

    Para mim o mercado que ali existe é o da compra e venda de livros.Ao ar livre,ao sol,com gente bonita.Para mim está escolhido, há muito!

  2. n diz:

    E para que serão os seguranças e os alarmes contra roubos instalados às ports da Leya. E os desgraçados vestidos de piratas são para quê, a mim não convidam à compra? E em que é que as banquinhas da Leya são tão diferentes das outras? Para mim lembram-me o pavilhão dos livros do dia.

  3. p diz:

    Caso tenha ido a convite e expensas de entidades brasileiras, deve referir isso sempre que defende a adopção em Portugal da ortografia brasileira.

  4. ah ah, ridículo, meu caro. pode ficar descansado,

    1) eu não fui ao Brasil a expensas de entidades brasileiras; a convite, sim, ou queria que eu aparecesse lá sem ser convidado?
    2) eu não defendo a adopção da ortografia brasileira; defendo o acordo ortográfico entre os dois países, que é bem diferente. adopção da ortografia brasileira é o que vai acontecer daqui a uma geração se voltarmos atrás num acordo de que fomos os principais interessados até agora.

Os comentários estão fechados.