Há petróleo no Atlântico?

Peço desculpa ao André Abrantes Amaral, mas claro que existirá mesmo um “pico” na produção de petróleo, como de qualquer bem finito que exploremos. A única dúvida está em sabermos se já lá chegámos ou não.
O texto em que o André atribuiu grande parte da culpa da subida dos preços aos “alarmistas” que espalhavam, com más intenções, boatos sobre a possível chegada aos 100 dólares encontrava ainda um outro possível culpado: a intervenção estatal na indústria extractora de países como Rússia, México e Venezuela. Certo parece ser que as companhias estatais destes dois últimos países não dispõem, sobretudo a PDVSA, dos recursos necessários à prospecção de novos campos e à maximização de jazidas quase exauridas. E que a política fiscal russa não incentiva muito ao investimento na área.
Mas é inegável que o campo de Cantarell (o maior do México e o segundo maior do mundo) está em declínio e assim continuará, mesmo após os enormes investimentos que a Pemex está a fazer em instalações separadoras. Tal como vários outros, de importância primordial. E que nem os esforços anunciados pela monopolista venezuelana para duplicar a sua produção ao longo dos próximos 4 anos parecem ter trazido optimismo ao quadro geral. Certo é que as países da OPEP têm, globalmente, aumentado a sua produção face à do ano passado, mas o preço do crude não pára de subir.
Quanto à ideia de que urge é investir em “tecnologias extractivas”, o André está a dar razão aos teóricos do Peak Oil: se as reservas se tornam cada vez mais remotas e de exploração mais onerosa, não tarda nada estaremos a gastar mais energia para extrair um litro de petróleo do que a energia que dele retiraremos. O mesmo se pode dizer a propósito das recentes descobertas brasileiras, sob o leito oceânico.
Os preços continuarão sem motivo para abrandar enquanto a pressão do lado da procura não aliviar, a especulação não encontrar novos entreténs, e factores como a crescente urbanização de populações rurais chinesas — só por exemplo — não se mitigarem. Nada disto releva do “alarmismo”; tudo leva a crer que dificilmente a produção de petróleo poderá no futuro próximo satisfazer tanto carburador sequioso, tanta central térmica de goelas abertas.
E a noção explanada pelo André de que agora é que o “investimento em energias alternativas” arrancará “da forma correcta, ou seja, por indicação do mercado”, “não pela vontade arbitrária dos Estados” só indicia um grau elevado de afastamento da realidade. Como é que dentro “10/15 anos” poderíamos dispor de energias como as células de hidrogénio ou a fusão nuclear se as detestadas agências estatais não tivessem acordado para o problema há décadas? O André já manifestara a sua fé em divindades ex-machina capazes de nos salvar do abismo da falta de petróleo: para ele, a “resposta está na tecnologia e nos avanços feitos pelo homem. Na sua fabulosa capacidade de adaptação e descoberta”. Já se viu que estes fabulosos avanços não chegaram a tempo de evitar a presente subida de preços. E não se está a ver de onde virão os milagres agora.
São cada vez mais os analistas convencidos de que já ultrapassámos o Pico de Hubert. Mesmo que ainda estejamos a subir a derradeira encosta, há que preparar um futuro sem combustíveis fósseis (isto se ignorarmos a hipótética origem abiótica do petróleo). Atrair mais gente para os centros das cidades; impedir o alastramento destas; aumentar a penetração dos veículos híbridos; poupar o que há e investir cada vez mais nas alternativas viáveis.
E se ficarmos à espera que a mão invisível faça o trabalho por nós, estamos bem tramados.

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10 respostas a Há petróleo no Atlântico?

  1. Paulo Pinto diz:

    No meu 7º de escolaridade, no longínquo ano de 1980, falámos, numa aula de Geografia, dos problemas da poluição e do previsível esgotamento das reservas de petróleo. Desde então que venho agurdando, com crescente descrédito, pelo cumprimento das palavras alarmistas da stôra. Esperei 28 anos para, súbita e finalmente, verificar como ela tinha razão.

  2. Quando vejo liberais a dissertar sobre estes assuntos fico com a convicção de que para eles é indiferente a forma como o mercado atinge o equilíbrio.

    Quando a procura excede a oferta, a destruição de procura ocorre e, naturalmente, o mercado acerta-se. Mas se isso tem um preço social e humano, como direi… desumano, para eles isso não interessa.

    O papel dos governos, estados, reguladores, o que quer que seja, não é impedir que o mercado se equilibre, mas sim que essa transição seja o menos dolorosa possível. Mas para os liberais o tabu da intervenção é intocável, não vá uma criança a menos morrer de fome ou analfabeta, e perverter a pura lógica do mercado.

  3. Serras diz:

    O engraçado da teoria sobre os preços do crude estarem onde estão porque atingimos um suposto pico de produção é que aparentemente o mundo só acordou para isto nos últimos meses. Em meados de Fevereiro o preço do barril de crude era $90 por barril. Desde então nada de novo foi descoberto sobre as reservas existentes… Ou seja, a professora do Paulo Pinto até pode ter razão mas não me parece que o mercado tenha subitamente descoberto a capacidade de previsão da senhora.

  4. Luis Moreira diz:

    Há gente que acha que as consequências das ideias que defendem,são obra do diabo.Não lhes ocorre que podem estar enganados.A crise do petróleo,do imobiliário,dos cereais é porque AINDA há regulação a impedir os mercados de funcionarem livremente!

    Não há pessoas,para estes liberais!

  5. Graça diz:

    Caro Sr. Luis Moreira, não acha que se o mercado for liberalizado, nesta terra em cada cada vez mais “cada um puxa a brasa à sua sardinha”, os preços continuariam a aumentar cada vez mais? Se os preços dos combustíveis em Portugal estão como estão é devido á liberalização dos preços à uns tempos atrás. E o “Portuga” que pague os lucros das gasolineiras, que a cada dia que passa vão ganhando mais e mais milhões.

  6. Luis Moreira diz:

    Cara Graça é mesmo isso o que eu digo.A liberalização, trouxe problemas novos que os liberais mais impedernidos, não querem aceitar como consequência das ideias que defendem.

  7. toni diz:

    erro comum:

    o petroleo nao se produz.
    o petroleo extrai-se.
    os paises produtores de petroleo nao produzem petroleo.
    os paises produtores de petroleo limitam-se a gerir stock.

    preço social e humano? qualquer dia andam pessoas com cartazes na rua a dizer DIREITO À GASOLINA!

    ou ESQUERDO À GASOLINA!

    piada.

  8. toni diz:

    qual é o incentivo num mercado livre para as empresas esticarem os preços ate ao infinito?

  9. Pingback: Sprawl : Goodnight Moon

  10. OLp diz:

    Coisas que se aprendem:
    O preço dos combustiveis subiu por causa da liberalização em Portugal.
    “Prontes”… então aqueles gajos todos nas bolsas de todo o mundo andam a comprar e vender pitroil mais caro devido a isso.
    Nem a procura aumentou, nem a oferta estagnou se prevê que possa até diminuir ou se quiser aumentar a oferta ela será substancialmente mais cara nos custos de exploraçao, nem há especulação com o desvio de fundos financeiros para as matérias primas…..
    “Penauts”……
    Se não fosse “liberalização portuguesa” nada disso se passava.

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