Há petróleo no Atlântico?
27 de Maio de 2008 por Luis RainhaPeço desculpa ao André Abrantes Amaral, mas claro que existirá mesmo um “pico” na produção de petróleo, como de qualquer bem finito que exploremos. A única dúvida está em sabermos se já lá chegámos ou não.
O texto em que o André atribuiu grande parte da culpa da subida dos preços aos “alarmistas” que espalhavam, com más intenções, boatos sobre a possível chegada aos 100 dólares encontrava ainda um outro possível culpado: a intervenção estatal na indústria extractora de países como Rússia, México e Venezuela. Certo parece ser que as companhias estatais destes dois últimos países não dispõem, sobretudo a PDVSA, dos recursos necessários à prospecção de novos campos e à maximização de jazidas quase exauridas. E que a política fiscal russa não incentiva muito ao investimento na área.
Mas é inegável que o campo de Cantarell (o maior do México e o segundo maior do mundo) está em declínio e assim continuará, mesmo após os enormes investimentos que a Pemex está a fazer em instalações separadoras. Tal como vários outros, de importância primordial. E que nem os esforços anunciados pela monopolista venezuelana para duplicar a sua produção ao longo dos próximos 4 anos parecem ter trazido optimismo ao quadro geral. Certo é que as países da OPEP têm, globalmente, aumentado a sua produção face à do ano passado, mas o preço do crude não pára de subir.
Quanto à ideia de que urge é investir em “tecnologias extractivas”, o André está a dar razão aos teóricos do Peak Oil: se as reservas se tornam cada vez mais remotas e de exploração mais onerosa, não tarda nada estaremos a gastar mais energia para extrair um litro de petróleo do que a energia que dele retiraremos. O mesmo se pode dizer a propósito das recentes descobertas brasileiras, sob o leito oceânico.
Os preços continuarão sem motivo para abrandar enquanto a pressão do lado da procura não aliviar, a especulação não encontrar novos entreténs, e factores como a crescente urbanização de populações rurais chinesas — só por exemplo — não se mitigarem. Nada disto releva do “alarmismo”; tudo leva a crer que dificilmente a produção de petróleo poderá no futuro próximo satisfazer tanto carburador sequioso, tanta central térmica de goelas abertas.
E a noção explanada pelo André de que agora é que o “investimento em energias alternativas” arrancará “da forma correcta, ou seja, por indicação do mercado”, “não pela vontade arbitrária dos Estados” só indicia um grau elevado de afastamento da realidade. Como é que dentro “10/15 anos” poderíamos dispor de energias como as células de hidrogénio ou a fusão nuclear se as detestadas agências estatais não tivessem acordado para o problema há décadas? O André já manifestara a sua fé em divindades ex-machina capazes de nos salvar do abismo da falta de petróleo: para ele, a “resposta está na tecnologia e nos avanços feitos pelo homem. Na sua fabulosa capacidade de adaptação e descoberta”. Já se viu que estes fabulosos avanços não chegaram a tempo de evitar a presente subida de preços. E não se está a ver de onde virão os milagres agora.
São cada vez mais os analistas convencidos de que já ultrapassámos o Pico de Hubert. Mesmo que ainda estejamos a subir a derradeira encosta, há que preparar um futuro sem combustíveis fósseis (isto se ignorarmos a hipótética origem abiótica do petróleo). Atrair mais gente para os centros das cidades; impedir o alastramento destas; aumentar a penetração dos veículos híbridos; poupar o que há e investir cada vez mais nas alternativas viáveis.
E se ficarmos à espera que a mão invisível faça o trabalho por nós, estamos bem tramados.

Comentário de Paulo Pinto
Data: 27 de Maio de 2008, 17:00
No meu 7º de escolaridade, no longínquo ano de 1980, falámos, numa aula de Geografia, dos problemas da poluição e do previsível esgotamento das reservas de petróleo. Desde então que venho agurdando, com crescente descrédito, pelo cumprimento das palavras alarmistas da stôra. Esperei 28 anos para, súbita e finalmente, verificar como ela tinha razão.