Física prodigiosa

Primeiro, o rendilhado ameaçador do arame farpado sobre o muro do hospital. Depois, um triste ajuntamento de árvores secas, ramos sem folhas presos ao céu. Fósseis de cérebros destruídos, veias agitadas pelo vento sinalizando os sintomas de enfermidades mentais ainda por catalogar.
Ele reclina as costas do banco do Renault e faz por adormecer. Os sons da rotina do hospital fundem-se no ritmo dolente de um murmúrio familiar. Mais perto do sono, ele julga reconhecer ali o ronronar do oceano da sua infância: um leve alvoroço de coisas molhadas, uma toada irregular de pequenas vagas sem consequências. Mesmo o grito eléctrico de um berbequim é absorvido pelos primeiros indícios do sonho: eis o bramido de uma criatura marinha, esquecida por milénios mas agora pronta a reclamar de volta as fronteiras do seu território, a praia. Mais uma imagem chega sem aviso: filas de banhistas que interrompem jogos, flirts e banhos de sol. Miram com espantos sem medida o ente assombroso que avança para eles. Grandes olhos que viram nascer os primeiros homens são agora animados pela curiosidade e pela fome. Não há ali maldade, nem sequer desejo; apenas aquiescência a leis da Natureza sem grande interesse. Os banhistas sabem disto e deixam-se devorar de forma ordeira.
Acorda.
Um agudo formigueiro na mão esquerda, dobrada sob a nuca, despertou-o. Terá passado pelo seu pulso uma das partículas subatómicas que estão a ser, numa sala convenientemente branca, disparadas contra o tumor da sua mulher?
Ele recorda a superfície suave e acetinada da máquina onde refulge a inscrição “Clinac®”, vocábulo de aura mágica que, nos seus sonhos, conjura todas as promessas benfazejas da radioterapia. Se ele se concentrar o suficiente, talvez ajude a encaminhar o fluxo assassino bem para o centro da massa desordenada que tudo esmaga. Mas nem sequer em fantasia as suas boas intenções conseguem vencer a sua inércia. Ele volta a adormecer.
Onde estará agora esse electrão sem rumo que o atingiu, depois de passar pelos tecidos onde se debate a alma dela? A caminho de Alfa do Centauro? Ali, dentro de quatro ou cinco anos, um outro ser semi-adormecido talvez vá também despertar, atingido por uma súbita dormência, trespassado pelo mesmo mensageiro quântico das artes alquímicas “Made in Palo Alto, California”.
Mais uma rajada de vento perturba as árvores secas: um último delírio percorre a fileira de cérebros moribundos.

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