Um filósofo murcho
20 Maio 2008 | por João GalambaDesidério Murcho gosta de falar em nome daquilo que ele considera que a filosofia realmente é. E tem por hábito achar que umas expressões avulsas de certos filósofos chegam para descredibilizar todo o seu pensamento. Na sua homilia de hoje (no P2 do Público), Desidério começa com uma definição, que não questiona e que para ele é auto-evidente. Se há algo que trai a tradição iniciada por Sócrates são estas certezas dogmáticas e nada dialécticas, sobretudo quando vindas de alguém que se apresenta como filósofo. O resto do artigo são umas diatribes sem sentido, em que Desidério transforma uma maneira paroquial e redutora de encarar a filosofia no seu paradigma fundador. Para Desidério a filosofia é uma espécie de método preciso e rigoroso que nos permite chegar desapaixonadamente à verdade. Ele acha que a filosofia sempre foi aquilo que sugere, não percebendo que aquilo que a sua posição pressupõe tem uma história e, grosso modo, não existia antes de Descartes. Mas nada disto interessa, porque Desidério acha que a filosofia e a história da filosofia são disciplinas autónomas (algo que ele repete abundantemente nos seus escritos).
Sem nomear o autor que critica, Desidério atira-se a Heidegger, não se preocupando verdadeiramente em tentar perceber o que Heidegger entende por Ser ou o que significa o ser-humano enquanto Ser para a morte. Em relação à palavra Ser, Desidério descontextualiza (como filósofo analítico que é) o termo e acha o Ser é um objecto que substituiu Deus, ignorando que Heidegger foi dos filósofos que mais criticou o paradigma objectivista que a crítica de Desidério necessariamente pressupõe. Quanto ao ser-humano Desidério acha que Heidegger defende uma mistificação e diz que ser para a morte é uma “intrujice”. Para Desidério, Ser para a morte não é diferente de um ser que morre, revelando toda a sua ignorância do significado e dimensão existencial da filosofia Heideggeriana.
Desidério Murcho é um filosofo analítico empedernido e cego que acha que a filosofia é uma disciplina preocupada com o saber e a verdade, objectivos alcançáveis recorrendo a algo inspirado na lógica e nos métodos das ciências. Mas ele esquece que este caminho pressupõe noções de verdade, razão, sujeito, objecto, que, ao contrário do que ele assume, não são auto-evidentes e têm sido criticadas por diferentes autores.
A filosofia que Desidério Murcho representa pretende suprimir qualquer elemento inspirador, esquecendo-se que, desde os seus primordios, o eros é um elemento constitutivo da actividade filosófica. A sua defesa de uma filosofia desapaixonada transforma-a numa disciplina árida, preocupada com a validade argumentativa e fascinada pela lógica. Este paradigma não só ignora a maioria das questões a que a filosofia tradicionalmente se dedicou, como se torna cúmplice com nosso tempo, traindo o elemento crítico que o próprio Desidério diz ser fundamental na filosofia.

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