Os meninos fossilizados

Li há dúzias de anos uma daquelas anedotas com que os brasileiros se tentam vingar não sei bem de que malfeitorias que os portugueses por lá praticaram. Rezava a graça que numa visita aos Jerónimos, um turista apontou reverente para um esqueleto colocado numa vitrina enquanto inquiria: “que é isto?” Resposta pronta do guia: “Esse é o esqueleto de Camões, o nosso maior Poeta.” Depois de mais um clarão do seu flash, a peripatética criatura virou-se para a vitrina ao lado e inquiriu: “E esse esqueleto mais pequeno?” Cada vez mais inchado de pátrio orgulho, o guia dispara: “Esse aí é o esqueleto de Camões, o nosso maior Poeta, quando era pequeno!”
Há algo de igualmente cómico e patético no presente estado de Santana Lopes. Já não me consigo lembrar se ele foi sempre assim ou se foi o circo adulador dos media, carente como andava de estrelinhas políticas, que o pintou com a aura de enfant terrible cá da aldeia. Certo é que ele assumiu o papel de tal forma que deixou de haver espaço naquele pequeno crânio luzidio de gel para qualquer vestígio de personalidade autêntica: Pedro Santana Lopes passou a ser o Predestinado, o homem escolhido para um destino inelutável de Grandeza. E a um homem destes não se pede humildade nem realismo; apenas que se deixe carregar pela vontade dos deuses, fulminando os mortais que ousem atravancar o seu trilho.


O pior é que Santana é absolutamente desprovido de qualidades reais e significativas. À parte algum talento para as tiradas inflamadas e  as poses dramáticas, nada por ali existe capaz de o salvar da mediocridade. Como bem o comprovou o seu inacreditável governo.
Assim, o menino cresceu e transformou-se num adulto para sempre preso à recordação do que deveria ter sido. Agarrado à única droga capaz de o preencher: a sua própria imagem, reflectida na enumeração dos grandes feitos que ainda de certeza vai alcançar, mau grado os esforços dos invejosos e das forças do mal.
Dias já houve em que atacar o pobre me dava algum prazer perverso. Dias, é certo, em que ele parecia mesmo perigoso, como quando abichou a chefia o governo. Agora, Santana inspira-me mais pena do que outra coisa. Ele continua a saltitar por aí, convencido, como um novo Tony de Matos, de que o dia do regresso está para breve e que todos ainda voltarão a reconhecer a Promessa que ele sempre transportou. Na sua imaginação nostálgica, pouco mudou: ele será sempre o sedutor, capaz de num golpe de retórica transformar inimigos jurados em apoiantes eternos, o líder da Pátria, o génio irreverente que invoca poderes mágicos e redentores com fórmulas abstrusas como esta agora de ser liberal e ao mesmo tempo defender uma forte presença do Estado.
Acusá-lo de autismo, por continuar a bramar contra quem o maltratou em dias idos, é não compreender esta personagem trágica. Que o seu governo não tivesse marcado o desabrochar de uma Idade de Ouro, carregada de prodígios e felicidade para todos, deve ter sido um choque tremendo para o pequeno Pedro. Que o seu destino tivesse desaguado afinal numa poça salobra, não no anunciado oceano de Glória, eis algo que o “menino guerreiro” só pode explicar por ponderosas conspirações dos maus, lutando contra a vontade do Fado e do Povo. Daí surgirem sem descanso as declarações de repúdio pelo “golpe constitucional protagonizado pelo Presidente da República de então, dr. Jorge Sampaio”. Mesmo sabendo que até o seu parceiro de coligação de então, Paulo Portas, logo reconheceu que “o contrato de confiança entre o povo e a maioria caducou” no dia em que Durão Barroso abdicou.
Agora, ainda vamos levar com mais uns dias de exposição obscena deste esqueleto miudinho, eternamente preso ao dia em que foi vítima da maior das injustiças, incapaz de crescer para lá desse grande desabamento.
Santana não esquece nem perdoa, pois aqueles dias marcaram a entrada na sua vida ordenada do absurdo mais radical: a possibilidade de o enfant terrible ir envelhecer sem nunca passar de uma vaga promessa, de um fogo-fátuo inventado para encher grelhas de estações de TV. Admitir essa eventualidade, ou permitir que alguém a admita, é mergulhar no buraco negro da dúvida, entrar num universo impensável onde Santana Lopes seria apenas mais um, sem seguidores, sem poder, sem futuro.

Paulo Portas representa um caso similar, embora de contornos mais sinistros do que tragicómicos. Outra ex-jovem promessa da política lusa, cedo decidiu que tudo lhe seria permitido, que a opinião pública a tudo cerraria olhos e de tudo apagaria memórias. No auge do “caso Moderna”, persistia nos passeios de Jaguar. Nos últimos dias de governo, lançou os seus ministros em maratonas nocturnas de despachos esquisitos, resolveu concursos a correr, derreteu fotocopiadoras com tanto e tão mal explicado uso. Depois, encurtou a aborrecida travessia do deserto e reocupou o PP. Mas o cálculo revelou-se apressado: hoje em dia, pouca gente parece interessada nas prédicas iracundas do antigo Paulinho das Feiras.
Hoje, o seu partido reduziu-se a uma espécie de autonomeado Grilo Falante: saltando para a frente dos microfones mal cheira um ténue vestígio de “facilitismo”, “irresponsabilidade” ou qualquer outro sintoma do tão odiado esquerdismo. Imagina-se o Lago do Caldas repleto de amanuenses que examinam de lupa em punho jornais, sites e discursos. Sem espaço para afirmação de virtudes próprias, tratam de urrar a sua indignação por episódios praticamente inexistentes, inventado um novo caso por semana, berrando debaixo de água convencidos de que assim não se afogarão.

E lá surgiu uma nova versão da anedota: “De quem são estes minúsculos fósseis? De duas promessas que continuam à espera de se cumprir”.

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