Falta fazer

Ainda aí estão todos? O país intacto? Não se abriu no Atlântico um buraco em forma rectangular, mais umas ilhas às avessas? Nada disso? É que da última vez que falámos a nova ortografia ainda não tinha passado no Parlamento, e só Endovélico – deus dos lusitanos – sabe o que pode ter acontecido entretanto.

Garantiram-me que a nossa identidade multissecular estava em risco se os deputados aprovassem a coisa, o “segundo protocolo modificativo ao acordo ortográfico da língua portuguesa”, ufa, só escrever o nome já cansa. Foi prometido; espero para ver como será a “perspectiva do desastre” que nos profetiza Vasco Graça Moura num livro cuja capa escolheu ilustrar – qual Padre Malagrida das consoantes mudas – com uma imagem do Grande Terramoto de Lisboa.

Boa parte dos meus amigos jura nunca deixar de escrever como lhes foi ensinado. E eu gostaria que assim fosse, juro também, por eles e por mim. Em memória do tempo em que também eu – pois é – era contra o acordo.

É para vocês, meus amigos, que agora falo. Isto não foi nada: nem um desastre, nem um milagre. Nem o português vai morrer; nem por isto apenas se vai guindar à glória. Enfim, vocês admitirão que nós não amamos menos a nossa língua e a nossa pátria, vá lá, façam um esforço. E é justo reconhecer que do vosso jeito possessivo, com a vossa retórica tremendista, com o vosso nacionalismo que – ponham a mão na consciência – às vezes passa o limite do desagradável, vós tendes um raio de uma admirável paixão assolapada por ela. Saravá por isso!

O importante vem agora. E falta fazer tanto, mesmo naquela pequena parte em que, como comunidades politicamente organizadas, temos deveres particulares perante o idioma.

Para dar um exemplo: os ossos. Os nomes dos ossos mudaram aqui há tempos, felizmente em Portugal e no Brasil ao mesmo tempo e da mesma forma. Caso contrário, imaginem as consequências para a edição médica, para a comunidade científica, ou (por exemplo) para os médicos africanos formados num país ou noutro. Em suma: despachem-se lá com o vocabulário técnico-científico comum que está prometido há mais de quinze anos, e com que até Vasco Graça Moura concorda.

Falta criar uma Academia Lusófona ou, pelo menos, dar meios decentes ao Instituto Internacional da Língua Portuguesa para que promova estudos e documentos de trabalho (por exemplo) que sirvam de referência para palavras do quimbundo, transliteração do russo, nomes próprios geográficos. Só referência, sem força de lei: os tradutores e revisores agradecem.

E aproveitem agora, que os brasileiros julgam ter sido tão céleres a aprovar o acordo, para os convencer a dar mais dinheiro para a causa. Faça-se um plano de acção para as universidades estrangeiras. Agora já não há desculpas (diga-se) para não ensinar a terceira língua mais falada do Ocidente, e muito menos para nos encafuarem nos departamentos de espanhol. Com ortografia comum, e duzentos e tal milhões de falantes, e uma ajuda dos interessados, vamos lá a multiplicar os departamentos de língua portuguesa no mundo.

Isto é apenas o que nos compete enquanto comunidades politicamente organizadas. É uma parte ínfima da língua, felizmente. O resto é connosco e não com o Estado: o resto é a vida lá fora e isto que estamos fazendo. Falar, escrever e gemer, protestar por tudo e por nada, polemizar interminavelmente, resmungar uns com os outros. E para tais coisas, meus amigos – deixai-me pecar também -, não há língua melhor do que a nossa.

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Segunda | Rui Tavares
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