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A feira e as marquises

19 Maio 2008 | por Luis Rainha

No 31 da Armada, goza-se com Saramago por este deplorar o desenlace da crise da Feira do Livro. “Para Saramago, será um duro golpe no espírito comunitário e democrático da Feira do Livro, onde toda a minha gente se sujeitava, por hábito e amorfismo, à mediocridade vigente.”
Mas não; não era por isso. Várias editoras já por várias vezes tinham tentado presenças diferentes na Feira. Esbarrando sempre nas mesmas proibições. Que agora, ao que parece, não se colocam à LeYa.
Gostava de saber o que escreveria o senhor CCC se um novo rico recém-instalado no seu condomínio/prédio/vizinhança se dedicasse a fechar marquises, revestir paredes a azulejos, edificar mais um ou dois andarezitos, tudo com beneplácito camarário. Sobretudo depois de já vários vizinhos terem feito pedidos para alterações menores, sempre sem sucesso.
Se calhar, o senhor CCC não seria tão lesto a perorar sobre o que não conhece. E não se lembraria de inventar “incómodos” a um escritor que, teoricamente, até sairá beneficiado com as melhores condições de exposição dos seus livros.
O “Pugresso”, para alguns, tem mesmo de vir decorado com alumínios e néons berrantes.

Comentários

Comentário de Nuno Resende
Data: 19 Maio 2008, 18:39

«Gostava de saber o que escreveria o senhor CCC se um novo rico recém-instalado no seu condomínio/prédio/vizinhança se dedicasse a fechar marquises, revestir paredes a azulejos, edificar mais um ou dois andarezitos, tudo com beneplácito camarário. Sobretudo depois de já vários vizinhos terem feito pedidos para alterações menores, sempre sem sucesso.» Mas isto é o que acontece de norte a sul do país. Qual é o espanto que possa acontecer na Feira do Livro?

Comentário de Luis Rainha
Data: 19 Maio 2008, 18:44

Nuno,
Espanto é pouco; mais dia menos dia a coisa iria dar-se. Mas é com pena que vejo acabar o presente modelo, em que o que verdadeiramente brilhava eram os livros, não as barracas que os abrigam. E isto não é uma obsessão igualitária; apenas um pouco de nostalgia por mais uma tradiçãozita que se vai. Mas a Feira do Livro também já pouco interesse tem, nestes dias…

Comentário de n
Data: 19 Maio 2008, 19:17

mas mediocridade, pq? eu sempre fui lá pelos livros, o resto é folclore e circo. alguns até saberão escrever, pena que não tenham aprendido a ler

Comentário de MViegas
Data: 19 Maio 2008, 19:43

BOICOTE ÀS GASOLINEIRAS JÁ !!

Vide em.:
http://o-povo-vai-nu.blogspot.com/

Exerça o seu direito de cidadania com eficácia !

Comentário de Lidador
Data: 19 Maio 2008, 21:44

O LR, como sempre tem toda a razão. A uniformidade da colmeia é sempre mais saudável, não há cá essa coisa abominável das classes e dos sinais de desigualdade.
Saramago está chateado e com razão. Nos velhos paraísos que ele idolatra, mundos em que os amanhãs cantavam, as camaradas e os camaradas andavam de uniforme cinzento e os médicos faziam serviço na limpeza das latrinas do hospital, para igualar as classes.
Não consta é que os camaradas limpadores manobrassem o pouco proletário bisturi, mas pronto, a igualdade é que é bonita.
Tudo da mesma cor, tudo da mesma forma, tudo a marchar para o mesmo lado à voz de comando da vanguarda revolucionária.
De resto o Zé Saramago, nos seus velhos tempos no DN, tratou de aplicar a teoria, correndo a pontapé todos aqueles jornalistas a soldo da reacção e que teimavam em marchar com o passo trocado com a música que ele tocava

Comentário de n
Data: 19 Maio 2008, 23:08

e quando há outros escritores que disseram o mesmo, como lobo antunes, por exemplo, e as abencerragens do costume, nada dizem sobre essas opiniões? vomitam quando opinam ou são apenas analfabetos funcionais?

Comentário de J. Sapka
Data: 19 Maio 2008, 23:38

Uma feira do livro com pavilhões empenachados despromove o livro. A ideia do Paes é provar pelas exterioridades, não pelo produto, que o grupo dele é mais e melhor que os outros. O espírito da coisa sempre foi outro: cada editor, em igualdade de condições, consequentemente em unidade estética, mostre os livros novos e salde os antigos. A Leya quer introduzir novas regras a meio do jogo para se impor, para esmagar as barracas dos pequenos, para abrir a boca ao patego. Chama-se a isto abanar o penacho e desvirtuar. Em igualdade de condições, não lhe apetece concorrer só com o seu produto. Quer melhorar as condições da Feira? Tudo bem. Melhorem os pavilhões todos, uma vez que a Associação dos Editores é que organiza a coisa e a Câmara é que subsidia. O que a Leya quer é uma saloiada novo-rica à moda do Paes.

Comentário de luis eme
Data: 19 Maio 2008, 23:42

espero para ver… as diferenças.

Comentário de ezequiel
Data: 20 Maio 2008, 2:08

eu sempre que vejo o Saramago penso no ET……
são ambos carecas e famosos…ah, e nunca se cansam de recorrer a uns dedos enormes para (nos) indicar o caminho…os dedinhos pontificales

ih ih ih :)

Comentário de Luis Rainha
Data: 20 Maio 2008, 14:40

Eu, por acaso, nunca consigo dissociar o percurso político do homem das restantes partes do Saramago. O que não implica que assuma que tudo o que ele diz é disparate.

Comentário de Lidador
Data: 20 Maio 2008, 21:24

“O que não implica que assuma que tudo o que ele diz é disparate.”

Pois não…mas é uma boa e avisada medida de precaução.

Comentário de Nuno Góis
Data: 22 Maio 2008, 2:42

Completamente de acordo com o post e absolutamente contra o novo riquismo de Paes do Amaral.

Comentário de NMCAF
Data: 25 Maio 2008, 5:55

Passe a expressão e sem qualquer intuito pessoal, mas está tudo doido ou quê?
Parece que há uma falange crescente da populaça que quer voltar aos tempos do velhinho Ford T, que maravilha…
Devem ser os mesmos que se queixam que não há hábitos de leitura, pudera. Há anos que vou à feira do livro em Lisboa, sempre com os mesmos pavilhões bafientos, uns cubículos à boa maneira comunista, “todos iguais”, um mimo de conforto, um modelo de vanguarda para promover a leitura. Mesmo bom para os editores que não precisam de gastar quase nada, inovação é coisa que não consta do dicionário da Porto Editora, afinal implica investimento, cruzes credo, o sector está nas ruas da amargura, valha-nos os cubículos T0 com vista para a estátua do marquês, género habitação social. Isso sim é que é bom, baratinho e modesto que o Alan Greenspan tramou-nos todos.
Quem não entende a necessidade de renovação e a confunde com novo-riquismo ou não está a ver o mesmo filme que eu ou necessita de calibrar as Varilux rapidamente.
Vejam lá que foi preciso o novo-rico chegar para se falar tanto da feira do livro (talvez não pelas melhores razões mas enfim…), e se condenarem finalmente os cubículos Ford T para o lugar que já merecem há anos, a reciclagem. Só é pena que não tenha chegado antes! Se são necessários mais novos-ricos para renovar o sector eles que venham todos, com os velhos do restelo que (ainda) teimam em pulular não vamos a lado nenhum como está mais que demonstrado.

Pingback de cinco dias » O idiota do costume…
Data: 25 Maio 2008, 17:23

[...] pinhão capaz de imaginar todos os editores como imbecis sem horizontes (já andam por aí muitas cabecitas similares). Não: já muitos editores tinham tentado modificar o figurino dos seus pavilhões. Sem grande [...]

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