“mostravam uma grande cumplicidade”

Foto de Nicole Tran Ba Vang

Fico maravilhado quando leio, nas inúmeras revistas que entopem as bancas, esta fantástica frase que escolhi para título. A devassa da vida privada é um grande negócio. Dele se alimentam aqueles que vendem as revistas e a maioria daqueles que vêm nelas. A conquista da “vida privada” é muito recente e pode até ser uma vitória civilizacional. Dizem os historiadores que antigamente os senhores tomavam banho à frente de todos os criados e famílias, a invenção do WC, da banheira e da cortina fez-nos poupar muitas vergonhas às gerações vindoras. Mas a vida privada que se exibe não passa de uma representação. Até porque a verdadeira é tão chata como a dos demais.

Assistir à entrevista do nosso primeiro-ministro, ou de outro qualquer políticos, na intimidade, é ver o grau zero das representações do marketing que tem como única virtude poupar-nos ao tédio da vida de todos os dias. Sejamos francos, a Cláudia Vieira dos cartazes tem muito mais glamour do que a mesma no WC.

O filósofo Zizek escreve no seu último livro que lhe apetecia colocar na badana do “In Defense of Lost Causes” – em vez das habituais confidências dos autores que se “humanizam” garantindo que brincam com o seu gato e que plantam tulipas – esta passagem educativa: “Slavoj Zizek nos seus tempos livre gosta de navegar na Internet em busca de pornografia infantil e de ensinar o seu filho a arrancar as patas das aranhas”. Seria pelo menos uma novidade na arte das badanas intimistas.

A partilha desta “riqueza da nossa vida interior” não passa de uma arte de enganos que exibe a nossa mais pura imagem ideológica.

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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5 respostas a “mostravam uma grande cumplicidade”

  1. João José Fernandes Simões diz:

    Se o Nuno não se importar “poste” aí isto:

    «…
    Um “posta” ácida

    Há dias, reagi de forma absurda, para não dizer estúpida, e seguramente mal-educadamente, numa troca de comentários num blog que visito praticamente todos os dias, tendo sido importante o diagnóstico certeiro de um dos comentadores sobre a minha atitude, quando me aconselhou a reconhecer a necessidade de recorrer a um psiquiatra. Mas se o diagnóstico quanto à minha necessidade de recurso a tratamento psiquiátrico foi certeiro, já as qualificações que faz quanto ao meu «ar pedante, (que) tenta dar um ar de intelectual e afinal é apenas um infeliz que ladra com toda a agressividade…» é despropositada, porque a troca de comentários não lhe dizia respeito e, quiçá, o diagnóstico possa ser o mesmo, porque o seu “ladrar” parece ser do mesmo tipo.

    A sua qualificação de “intelectual”, no contexto do meu “ar pedante”, na parte que me diz respeito, é ridícula, já que não me parece que dê dar ares de saber mais do que a minha ignorância. Antes pelo contrário. De tal forma que, ainda há dias, não entrei na troca de argumentos com um comentador, com cujas ideias não concordo habitualmente, mas sobre o qual me parece evidente ter uma cultura muito superior à minha, ou seja, remeti-me à minha ignorância, tendo usado o argumento de que sou um “intelectual” dos “números e não das letras”, dada a minha formação no “direito e na gestão”. Mas tenho a consciência de que sou suficientemente inteligente para perceber que ser “intelectual” não significa, necessariamente, ser culto ou bem-educado, conhecendo alguns intelectuais que são umas grandessíssimas bestas, e felizmente que o são.

    Mas aquele psiquiatra de bancada deu-me um excelente argumento para “reconhecer” que os psiquiatras e os psicólogos também tratam pessoas normais. Os quais me têm ajudado, nos últimos quatro anos, por razões bem complicadas, intimamente ligadas ao exercício da minha profissão e que, naturalmente, não são para aqui chamadas, a perceber que não sou uma «pessoa ressentida e frustrada da vida» e que os «que (comigo) tenham que lidar nesta vida» são pessoas fantásticas, que me fazem sentir realizado e feliz.

    Este post é um agradecimento a essas “pessoas fantásticas”, sobretudo a uma família que amo e me faz sentir amado. Mas também um sério conselho. Que pretende ajudar a fazer perceber que devemos ter a minha humildade, ou a capacidade, de nos apercebermos quando precisamos de tratamento. Antes de, irreversivelmente, cairmos na escuridão ou, quem sabe, na felicidade que a maluqueira nos possa fazer beneficiar, numa sociedade cada vez mais esquizofrénica e onde muitas depressões andam (mal) disfarçadas.
    …»

  2. j diz:

    Reconhecido, Nuno…
    Voltando à “singela consoante” de “j”.

  3. L. Beria diz:

    Grandes e espessos livros escreve o homem, para tanto paleio lhes caber na lombada…

  4. Beria,
    Pensei que te tinham espetado um tiro na testa na reunião do comité central.

  5. ezequiel diz:

    Nuno

    esta menina é da Legião Estrangeira?

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