Se calhar sou eu que sou maluquinho, mas estas merdas assustam-me
16 Maio 2008 | por João GalambaOntem não me pude embebedar num evento na xafarica de um co-blogger porque fui a um seminário onde se falou de António Damásio e da noção de experiência estética. Confirmei todos os meus preconceitos sobre o homem, sobretudo sobre a sua (ir)relevância para entender determinadas dimensões da experiência humana. Falou-se de neuro-coisas e de quadros de Goya, de sinapses e de idas a museus; e eu perguntava ao orador em que medida é que isso nos ajuda a entender o que quer que fosse sobre a experiência de ler um livro ou de passear por um museu. O problema principal de Damásio é o de não ter uma noção de experiência em que haja uma relação constitutiva com determinados objectos. Ou seja, para ele o que verdadeiramente interessa é que determinados objectos estão numa relação causal com outra coisa, e é esta última que consiste no seu verdadeiro objecto de estudo: a dimensão fisiológica, que passa a ser um domínio autonomo de investigação.
Para Damásio, ver um quadro de Goya, ler, conversar, ou o que quer que seja, são sobretudo coisas que se passam dentro do nosso corpo. Ler um livro é na realidade uma reacção físico-química. O que ele não percebe é que um livro não é uma simples causa a nossa experiência, mas algo intendido nela, algo constitutivo dessa mesma experiência. A intencionalidade da experiência foi algo introduzido por Kant na sua Crítica da Razão Pura (que Damásio ou não leu ou não entendeu) e desenvolvido por outros como Husserl, e depois radicalizado por Heidegger no seu livro Ser e Tempo.
Na dedução transcendental (Crítica da Razão Pura), Kant diz que nós não observamos a consciência; ela é aquilo que nos permite obervar e ter uma experiência unificada do mundo. Isto significa que ela não é objectificável, pois é algo sempre pressuposto na observação de o que quer que seja. Aquilo que Kant chama a “unidade transcendental de apercepção” (o “eu” que tem experiência) não é uma substância ou um domínio observável, mas uma intencionalidade que só existe numa relação cognitiva com objectos. Ou seja, ela é , essencialmente, essa relação. Se Damásio tivesse lido Kant (ou qualquer dos outros autores que referi) ele perceberia que na realidade ele não possui qualquer noção de consciência, pois esta é sempre “de” alguma coisa, e este “de” implica uma relação constitutiva (intrínseca) e não causal entre a consciência e aquilo a que ela se refere.
“Referir a” destroi a noção de consciência que Damásio pressupõe, porque ela só existe numa relação constitutiva com o mundo. A consciência não é uma interioridade, mas é, na sua identidade constitutiva, essencialmente algo que aponta para fora de si, e isto Damásio nunca entenderá enquanto se mantiver dentro do paradigma objectificante que pressupõe em todas as suas investigações.

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