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Se calhar sou eu que sou maluquinho, mas estas merdas assustam-me

16 Maio 2008 | por João Galamba

Ontem não me pude embebedar num evento na xafarica de um co-blogger porque fui a um seminário onde se falou de António Damásio e da noção de experiência estética. Confirmei todos os meus preconceitos sobre o homem, sobretudo sobre a sua (ir)relevância para entender determinadas dimensões da experiência humana. Falou-se de neuro-coisas e de quadros de Goya, de sinapses e de idas a museus; e eu perguntava ao orador em que medida é que isso nos ajuda a entender o que quer que fosse sobre a experiência de ler um livro ou de passear por um museu. O problema principal de Damásio é o de não ter uma noção de experiência em que haja uma relação constitutiva com determinados objectos. Ou seja, para ele o que verdadeiramente interessa é que determinados objectos estão numa relação causal com outra coisa, e é esta última que consiste no seu verdadeiro objecto de estudo: a dimensão fisiológica, que passa a ser um domínio autonomo de investigação.

Para Damásio, ver um quadro de Goya, ler, conversar, ou o que quer que seja, são sobretudo coisas que se passam dentro do nosso corpo. Ler um livro é na realidade uma reacção físico-química. O que ele não percebe é que um livro não é uma simples causa a nossa experiência, mas algo intendido nela, algo constitutivo dessa mesma experiência. A intencionalidade da experiência foi algo introduzido por Kant na sua Crítica da Razão Pura (que Damásio ou não leu ou não entendeu) e desenvolvido por outros como Husserl, e depois radicalizado por Heidegger no seu livro Ser e Tempo.

Na dedução transcendental (Crítica da Razão Pura), Kant diz que nós não observamos a consciência; ela é aquilo que nos permite obervar e ter uma experiência unificada do mundo. Isto significa que ela não é objectificável, pois é algo sempre pressuposto na observação de o que quer que seja. Aquilo que Kant chama a “unidade transcendental de apercepção” (o “eu” que tem experiência) não é uma substância ou um domínio observável, mas uma intencionalidade que só existe numa relação cognitiva com objectos. Ou seja, ela é , essencialmente, essa relação. Se Damásio tivesse lido Kant (ou qualquer dos outros autores que referi) ele perceberia que na realidade ele não possui qualquer noção de consciência, pois esta é sempre “de” alguma coisa, e este “de” implica uma relação constitutiva (intrínseca) e não causal entre a consciência e aquilo a que ela se refere.

“Referir a” destroi a noção de consciência que Damásio pressupõe, porque ela só existe numa relação constitutiva com o mundo. A consciência não é uma interioridade, mas é, na sua identidade constitutiva, essencialmente algo que aponta para fora de si, e isto Damásio nunca entenderá enquanto se mantiver dentro do paradigma objectificante que pressupõe em todas as suas investigações.

Comentários

Comentário de l.rodrigues
Data: 16 Maio 2008, 11:33

Não percebi muito bem o post, mas lembrei-me do feiticeiro de Oz.

Comentário de Filipe Moura
Data: 16 Maio 2008, 11:59

“Se Damásio tivesse lido Kant (ou qualquer dos outros autores que referi)…”

João, um positivista não precisa de ler livros.
Mandas o Damásio ler livros. E que tal se tu fosses para o laboratório?

Comentário de António Figueira
Data: 16 Maio 2008, 12:02

Será Damásio o último dos frenologistas?
O post está porreiro.

Comentário de Filipe Moura
Data: 16 Maio 2008, 12:03

Só não percebo com o que é que te assustas. Se dizes que a perspectiva do Damásio é incompleta e não traduz a verdade toda (não sei se tens razão ou não; não é essa a questão), por que é que ela te assusta?

Comentário de jcd
Data: 16 Maio 2008, 12:25

Tanta arrogância, para quê?

Comentário de João Galamba
Data: 16 Maio 2008, 12:38

Filipe,

eu não vou para o laboratório porque não tenho qualquer pretensão a fazer aquilo que por lá se faz. Mas o Damásio entra em áreas onde o laboratório não chega. Eu acho que o projecto dele, com os objectivos que o orientam, teriam a ganhar a ler os autores que mencionei.

Quanto à questão do assustar, é simples. Assusto-me porque a ciência não é só saber desinteressado; ela também molda a forma como vemos e lidamos com as coisas. Ver um estudante de estética, deslumbrado com as avenidas abertas pelo Damásio, a dizer as coisas que disse é um bocadinho assustador. Ele usava aquilo para pedagogia sobre arte com uma linguagem de um programador informático ou de um gestor de conta (a conta eramos nós, uma espécie de máquina optimizável) com termos como respostas socialmente competentes como se a nossa relação com a arte fosse semelhante a uma anémona que reage à luz ou a uma amiba. Eu acho isto absurdo e uma forma de obscurantismo científico.

Nada nisto é inócuo politica e socialmente. As humanidades são vistas como uma forma de saber deficiente porque não têm o rigor metodológico das ciências naturais; sem nunca se perguntar se essa comparação faz algum sentido (parte de um dogmatismo não questionado). A aposta nas novas tecnologias e na ciência tem impacto sobre os financiamentos e políticas públicas sobre o ensino. Ou melhor: o fascínio pela ciência é perigos porque pode por em causa as humanidades que são o alicerce da nossa vida social.

Comentário de Luis Rainha
Data: 16 Maio 2008, 12:38

Só uma pergunta: porque é que “uma intencionalidade que só existe numa relação cognitiva com objectos” não pode ser observável?

Comentário de João Galamba
Data: 16 Maio 2008, 12:54

Luís,

porque ela é a condição de possibilidade de observar o que quer que seja. Nós não nos vemos a ver. Ela é aquilo que Kant chama um transcendental.
A ciência pressupõe um sujeito que conhece um objecto. O que Kant(e nisso foi revolucionário) fez foi deduzir as condições de possibilidade dessa relação.

David Hume, um naturalista, usa um paradigma semelhante a Damásio. Ele dizia que não existia “eu” porque só havia sensações e coisas do género. Mas ele nunca percebeu que o ‘eu’, que ele não encontrava, não é algo passível de descoberta porque é ‘algo’ (não é uma coisa) sempre pressuposto em tudo o que ele faz. É este elemento de pressuposição que escapa a qualquer objectificação

Comentário de João Galamba
Data: 16 Maio 2008, 12:57

JCD,

Desculpe mas não entendo a sua acusação.

Comentário de David Fernandes
Data: 16 Maio 2008, 13:03

Confesso: não percebi a maior parte do que diz, João Galamba.

“Para Damásio, ver um quadro de Goya, ler, conversar, ou o que quer que seja, são sobretudo coisas que se passam dentro do nosso corpo. Ler um livro é na realidade uma reacção físico-química.”

E são? Ou: também são? E se são (sobretudo ou não) porque raio não há-de alguém interessar-se por estudar “isso”.

Uma visita a um museu não pode ser também uma experiência de transporte público? E porque raio não há-de alguém interessar-se por estudar a relação do transporte no acesso à cultura? (foi a coisa mais disparatada de que me lembrei).

Percebi no entanto que o João Galamba tem a lata para dizer o que acha que deveriam ser os interesses do Damásio. Se o justifica ou não no texto, não sei; repito, não percebi a maior parte.

PS: O Damásio deve ser PSD.

Comentário de Filipe Moura
Data: 16 Maio 2008, 13:22

O Damásio nas últimas presidenciais apoiou o Mário Soares (pelo que não deve ser do PSD), mas creio que essa questão é irrelevante.

João:

“As humanidades são vistas como uma forma de saber deficiente porque não têm o rigor metodológico das ciências naturais; sem nunca se perguntar se essa comparação faz algum sentido”

Eu não vejo isso assim. Quem vê?

“Mas o Damásio entra em áreas onde o laboratório não chega. Eu acho que o projecto dele, com os objectivos que o orientam, teriam a ganhar a ler os autores que mencionei.”

E eu acho que o teu projecto teria muito a ganhar com o laboratório, que chega a todo o lado.

Se tu te recusas a entrar no laboratório, não podes exigir às pessoas que leiam os teus livros se querem falar contigo. Tal como nem toda a gente está disposta a ir para o laboratório, nem toda a gente tem que estar disposta a ler os livros que tu julgas que devem ser lidos. Se ambos os lados estão interessados realmente em debater e comunicar, têm que encontrar uma linguagem comum. Senão, é um diálogo de surdos. Se insistes em ser tu a definir os contornos da discussão, corres o risco de ficares a falar sozinho (ou só para quem te entenda). É isso que queres?

Comentário de Miguel Duarte
Data: 16 Maio 2008, 14:03

Grande João Galamba.

Comentário de João Galamba
Data: 16 Maio 2008, 14:15

Filipe,

a filosofia dos autores que citei tem um laboratório que é aquele onde todos vivemos. O que o Damásio faz é tentar substituir esse por um artificial que se pretende “mais verdadeiro”. Que a terra gira à volta do sol é de facto mais verdadeiro que o geocentrismo, e a linguagem da ciência corrigiu a do dia a dia, substituindo-a. O problema é quando isso é generalizado. Há, infelizsmente, muito boa gente que se refere à linguagem emocional dos seres humanos como “folk psychology”, denegrindo a sua autoridade, como se houvesse uma linguagem que, por estar mais próxima da realidade das coisas, fosse mais verdadeira. O Marxismo de que tu tanto gostas produziu muitos autores que achavam que a ciência era a nova ideologia (aliás o pós-marxismo dedica-se sobretudo a isto) e que viam na sua glorificação uma das maiories fontes de dominação do sec xx.. Tu podes não valorizar os elementos ideológicos da ciência, a dimensão de poder e razão instrumental que a ela estão associados. Quanto a mim, fazes mal

Comentário de Algarviu
Data: 16 Maio 2008, 15:03

Kant, Damásio, João Galamba assustado: e pur, se muove!…

Comentário de João André
Data: 16 Maio 2008, 15:04

João Galamba, acho engraçado que tenha puxado o assunto do geocentrismo vs heliocentrismo para a comparação, porque é precisamente um ponto em que se pode ir novamente buscar a questão do transcendental (da forma que, segundo entendi é) enunciada por Kant.

Vejamos a questão por este prisma: nós habitamos o planeta Terra. Da nossa perspectiva, tudo gira em nossa volta. Para podermos observar que é o planeta Terra a girar em torno do Sol, temos que sair do planeta. Pelo que me apercebo (pode ser problema meu), teríamos, segundo Kant, que nos colocar fora do planeta para podermos fazer a observação. Necessitaríamos de uma posição, digamos, transcendental. Ora, não foi isto que sucedeu. Copérnico, Kepler, Galileu e outros, conseguiram provar que assim não era devido à criação de um sistema de observação indirecta. Não negaram que a nossa observação do dia a dia seria geocentrista. Apenas conseguiram criar instrumentos (científicos e tecnológicos) que permitissem fazer uma observação diferente.

O mesmo se passa com a neurologia. Ninguém nega o carácter “transcendental” (não gosto da palavra mas uso-a à falta de melhor) da consciência. O que a ciência faz é tentar compreender a consciência. Não o faz de forma directa, fá-lo de forma indirecta, decompondo a consciência em pedaços e analisando cada um deles à parte, procurando depois a forma de os ligar. O facto de fazermos parte dessa mesma consciência não é impeditivo. Também somos homo sapiens e isso não nos impediu de, ao estudar a evolução humana (entre outras), chegarmos à conclusão que não somos nenhum pináculo de evolução ou da criação, tal como foi dogma filosófico durante séculos.

Talvez ajude a compreender o problema se explicar que se fazem hoje experiências com animais que demonstram que estes têm um certo nível de consciência, de pensamento abstracto. A coisa vai bem mais longe que o famoso teste de reconhecimento. Há diversos animais que são capazes de diversos tipos de pensamento complexo que demonstram um elevado nível de consciência e de interacção abstracta com o mundo que os rodeia. Vinha um trabalho sobre o assunto na National Geographic de há uns dois meses atrás.

Se formos a pensar no assunto, creio que Damásio terá lido Kant. Possivelmente leu-o e compreendeu-o melhor que muitos filósofos. Só que, lendo-o, não se satisfez com aquela perspectiva. Kant não era o dono da verdade. Ninguém é. A ciência também não o é. A ciência, a única coisa que faz, é procurar compreender aquilo que nos rodeia. A filosofia, no meu entender, deve interpretar o que nos rodeia. Se há coisa que me assusta, não é esta visão de Damásio. É a de quem escreve aquilo que o João Galamba escreveu.

Comentário de Atento
Data: 16 Maio 2008, 15:11

Sejam elas quais forem, as experiências são importantes, mais que não seja para podermos atribuir algum valor ao que se passa à nossa volta.
Mas a vida é assim mesmo, com preconceitos de toda a ordem e eternos problemas.

Cumprimentos

Comentário de Luis Rainha
Data: 16 Maio 2008, 15:33

João,

Vais desculpar-me a casmurrice, mas continuo sem entender. Afirmas que “Nós não nos vemos a ver”. Mas, mesmo a fazer fé nesse pressuposto, poderemos bem ver outrem a ver. Afinal, há muito de “observável” que não é um objecto puro e duro. E não percebo o que impede um processo efémero, preoteico e dependente de relações cognitivas de ser “observável”, mesmo que de forma ainda parcelar e lacunar.
Quer-me parecer que anda por aí um grande preconceito kantiano contra as ciências cognitivas…
:-)

Comentário de João Galamba
Data: 16 Maio 2008, 15:45

Luís,

o que não podemos ver, por definição, é o outro como o sujeito particular que ele é —alguém com uma perspectiva única sobre o mundo. A partir do momento em que objectivamos a subjectividade perdemos o fenómeno de vista, por definição, parece-me.

A objectividade pressupõe um sujeito que se subtrai da realidade observada, mas a subjectividade não permite esta perspectiva porque o não distanciamento faz parte da sua definição, da sua identidade enquanto subjectividade.

Comentário de João Galamba
Data: 16 Maio 2008, 15:57

João André,

“Não o faz de forma directa, fá-lo de forma indirecta, decompondo a consciência em pedaços e analisando cada um deles à parte, procurando depois a forma de os ligar”

O problema é mesmo este. Pois isto rejeita a intencionalidade da consciência, a tal que é constitutiva do fenómeno que se pretende compreender. Se eu quero estudar os sistemas políticos eu não posso analisá-los supondo que a realidade “voto” pode ser estudada independentemente de fenómenos como eleições, partidos, democracia, cidadania…basicamente a história continua onde eles se inserem. A relação entre eles é interna e não exterior como a análise pressupõe para ser análise.

Comentário de MP-S
Data: 16 Maio 2008, 16:02

Joao,

como e’ que propoes que se estude a consciencia e os processos cognitivos?

Ou defendes que nao se deve de todo estudar estes (perigosos) temas?

Comentário de Luis Rainha
Data: 16 Maio 2008, 16:11

O Filipe exprimiria isto com bastante mais precisão, mas esse “problema de observador” que enuncias não tem sido inultrapassável noutros domínios como o da Física quântica. A objectividade só em teoria e só em algumas ciências pode obrigar à total ausência de interferência no observado.
De resto, julgo que caímos numa discussão circular. E o que para ti provém de uma “definição” talvez ontológica, a mim parece-me uma dificuldade técnica a ser um dia ultrapassada. O não-distanciamento pode fazer parte inextrincável da subjectividade própria, mas não da alheia: o subjectivo do outro poderá um dia ser objectivo para o observador externo. Não sei como nem quando, mas desconfio que mais vai ser aprendido sobre a consciência humana em laboratórios do que em bibliotecas onde se remastigam as objecções do venerando Kant.

Comentário de João André
Data: 16 Maio 2008, 16:43

João Galamba: «Se eu quero estudar os sistemas políticos eu não posso analisá-los supondo que a realidade “voto” pode ser estudada independentemente de fenómenos como eleições, partidos, democracia, cidadania»

Acho que há então um problema de definição. É que eu penso que pode ser realmente analisada independentemente. É uma análise obviamente redutora, mas que pode ser feita. A realidade “cidadania” também pode ser estudada independentemente das outras. Mais uma vez, é redutor, mas não impossível. O que acontece depois é que é necessário utilizar instrumentos para ligar estas realidades e lhes dar uma visão de conjunto. Um pouco aquilo de que fala o Luís ao referir a física quântica (sejamos mais concretos: a física de partículas).

O mesmo se passa com a questão do cérebro. A consciência, na realidade, e creio que isso é relativamente pacífico em termos filosóficos, é apenas uma parte do cérebro. Creio, implicitamente, ser pacífico aceitar que que a consciência tem origem no cérebro. Penso ainda que é também pacífica a existência de reacções químicas no cérebro. Assim sendo, qual é o problema em ligar a presença ou ausência destas reacções químicas (por exemplo) em certas partes do cérebro a certas reacções conscientes/emocionais? Não dão uma visão completa, é um facto, mas aproximam e reduzem o problema. Ninguém associará hoje em dia a cocaína a uma substância com propriedades místicas, apenas se sabe que aumenta os níveis de dopamina no cérebro. O resto do cérebro é muito mais complexo que isto, é verdade, mas se pudermos ir tendo imagens parciais, poderemos compreender como funciona a consciência, mesmo que não a possamos explicar convenientemente.

Esta frase «A partir do momento em que objectivamos a subjectividade perdemos o fenómeno de vista» parece-me ser certeira. Só que aponta ao alvo errado. O trabalho de Damásio não tenta (tanto quanto sei) compreender a subjectividade da consciência. Tentará antes compreender como funciona a consciência, entidade genérica comum a todos os seres humanos. No máximo, de um ponto de vista individual, tentará descrever como funciona a consciência.

Comentário de João Galamba
Data: 16 Maio 2008, 18:04

Joao André,

O voto não é um movimento de um braço que coloca um papel numa caixa (podemos decompor ainda mais, mas não interessa). Ele é uma actividade que se refere de forma constitutiva a uma realidade simbolica complexa. O gesto, sem essa realidade, não tem significado. Não deixa de ser um movimento; mas não é um voto. A questão não é ligar duas realidades distintas, pois a realidade do voto relaciona-se de forma interna com o contexto que referi. Podemos analisar o que o joao quiser, mas ao fazer perdemos a dimensão de significado que constitui o voto enquanto voto.

Imagine que pergunta “o que é o voto?”. Que tipo de resposta está à procura? O voto enquanto voto não é uma realidade física mas simbolica. Quando queremossaber o voto queremos saber qual o seu singificado dentro de um conjunto de práticas onde ele tem sentido. Ou seja, não o quer explicar, mas entender enquanto realidade que tem significado num contexto social. Explicar não tem singificado; nós queremos entender, contextualizar, perceber porque é que um voto é uma dimensão essencial da democracia como nós a entendemos.

Comentário de ezequiel
Data: 16 Maio 2008, 19:03

pointless..tanto tu como o damasio supoem que apenas há uma interpretação da experiencia x ou y

fisga-se. explicar o movimento dos neuroes é uma coisa e explicar os sentidos da experiência é OUTRA

mas já desisti…

não vale a pena

o rato pariu uma montanha.

toda esta polémica assenta na premissa que só pode existir 1 interpt da experiência…não há qualquer incompatibilidade entre uma e outra…são coisas relacionadas mas distintas.

“O voto não é um movimento de um braço que coloca um papel numa caixa (podemos decompor ainda mais, mas não interessa). Ele é uma actividade que se refere de forma constitutiva a uma realidade simbolica complexa.”

o voto é evidentemente um movimento do braço ou da perna e é também uma actividade yada yada yada a uma realidade complexa.

ainda não percebi esta fixação, este fetish com o puramente simbólico!! bem, eu já não tenho paciência para estas merdas de debates. é sempre a mesma coisa..ad infinitum…

dizer que um voto não é (também) um movimento do braço…parece-me simplesmente idiótico, perdoa-me a sinceridade…

ciao

Comentário de ezequiel
Data: 16 Maio 2008, 19:05

ou seja, acabas por cair nas “essências”, mas da variedade… camuflada.

Então todos os processos motores teriam que ser determinados pelo simbólico!! dont be absurd man! ricoculous :)

Comentário de is a bel
Data: 16 Maio 2008, 20:14

Ezequiel, desculpe a pergunta mas está a dizer ao João para dar um pouco de atenção ao Schrodinger ou ao Everett (entre outros)?

se o rato pariu a montanha então, nesse caso, o gato morreu.

Comentário de ezequiel
Data: 16 Maio 2008, 21:37

não, is a bel, estava-lhe a mandar bordamerda..um muito distinto e afável bordamerda, but a bordamerda all the same….

a dieta do gato é equilibrada. Não come só ratos. Sei lá, anda à volta do aquário, ou na cozinha…use your imagination???

e shrodinger…quem é este senhor com nome de birkenstock?… we all do namedropping…stinks!

estou a imaginar
Damásium na sala
acaba a apresentação sobre os neuroes…e logo a seguir a malta pergunta:

sabe, sr damásio, ontem eu vi o filme ” Tweekie goes for lunch with the threeyed poofter”

como é que eu o interpretei, sr damásio??? Sabe?
não, não sabe.(ele pode saber se eu gostei…mas nunca conhecerá o “como” do eu ter gostado…uma impossibilidade!…pode dar saltos dentro da lamparina mágica que não chega lá…nunca! )
so piss off

estas tertúlias dos territórios filosóficos (ou, como diria o sábio, cada qual puxa pela sua sardinha) dão-me cabo dos neurões e das sensações…e um dia destes afectam-me uns outros ões quaisquer

concluo com um toque, mui semiótico e nada material, na tecla ponto.

bom fim de semana.

o josé, pescador, tem coisas mais interessantes para me dizer…bye bye

Comentário de mf
Data: 16 Maio 2008, 21:57

Bem , não percebo mesmo nada disto , mas por exemplo , quando dormimos , sonhamos ( não se ria , ok) e os sonhos provocam reacções físicas de medo , prazer , até choramos lágrimas a sério.
Ora , onde fica a tal de consciência sem consciência? se calhar o prof .Damásio explica.

Comentário de is a bel
Data: 16 Maio 2008, 23:01

Ezequiel, o tal do Schrödinger era o dono do gato que por acaso era uma gata e se chamava Quântica.

Bom fim de semana.

Comentário de LPedroMachado
Data: 17 Maio 2008, 8:23

Parei de ler o post a meio quando percebi que a crítica não é a Damásio mas a uma caricatura dele.

Comentário de ezequiel
Data: 17 Maio 2008, 11:15

is a bel

i believe you are a flaming idiot

a really pretentious twat, followed by other twats, in boy scout formation, heading towards la la land, chanting wagner

Caro António,

e eu que pensava q tu tinhas os neurões in order.

é por estas e outras que a “multitude” é o que é

bem bom

Comentário de is a bel
Data: 17 Maio 2008, 12:21

Ezequiel, já tinha reparado que V não sofre de agressividade contida. Desculpe não retribuir mas como não o conheço, não tenho qualquer opinião a seu respeito. Mesmo que assim não fosse, certamente não seria numa caixa de comentários que o faria.
um bom fim de semana.

Comentário de TM
Data: 17 Maio 2008, 16:05

Curtos comentarios:

(1) Nem todas as “experiencias” requerem intencionalidade / consciencia (nao obstante essa ser uma - ou a - marca fundamental do ser humano);

(2) Damasio tende a “autonomizar” a sua (digamos que) “area de investigacao”, o que em si mesmo nao e’ pornografico. O problema esta’ nele pretender (porventura de forma inconsciente, resultante de alguma ignorancia ou falta de entendimento de certas ideias fundamentais sobre o caracter transcendente de alguns “elementos” [eis um termo cientifico e a-holitico usado liberalmente aqui so' para te chatear] deste problema; ou de forma consciente, resultante de discordancia sobre a qual pouco elabora) ser isso “suficiente” para tecer juizos que ultrapassam em muito o dominio - importante - das reaccoes neurologicas, dos micro-fenemenos onde uma analise “causa-efeito” pode ser util, ainda que nao seja suficiente para entender o fenomeno estudado, desde logo porque um “fenomeno” porventura requer um entendimento X, etc e tal, isso esta’ subentendido.

Tudo isto deriva tambem para uma discussao conceptual que nao sei se interessa muito ao Damasio, e nao sei se teria de interessar - se ele fosse um pouco mais humilde. O problema esta’ nele, por vezes, como outros neurocientistas, exagerar ou descuidar na forma como “comunica” e “apresenta” resultados da sua investigacao. Nevertheless, caro Joao, se passares os olhos (por exemplo) pela revista Scientific American Mind, acho que encontraras resultados interessantes *e* comunicados de forma localizada, sem pretender resumir o fenomeno a uma observacao essencialmente neurologica.

Dou-te um exemplo: o facto de uma pessoa lembrar com maior facilidade caras de pessoas que sorri(r)am. A explicacao evolucionaria e’ simples: a memoria selectiva de pessoas que parecam mais “kind towards us” releva para a nossa sobrevivencia. Repara que isto nao implica qualquer juizo sobre porque e’ que alguem sorri perante outro. Apenas se comparam os resultados de memorizacao de caras sorridentes ou nao sorridentes.

Outro exemplo, tambem da ultima edicao dessa revista, talvez ainda mais interessante, sobre o papel dos estereotipos mais profundos em cada um de nos. Perante uma imagem que aparece durante muito pouco tempo, existe um diferencial de reaccao neurologico perante uma cara de um branco e de um negro a olhar directamente para nos: a cara de um negro suscita uma reaccao neurologica associada a medo, etc (estou a resumir para nao me alongar muito). Contudo, se a fotografia aparecer durante um tempo nao demasiado curto, as diferencas esbatem-se: aqui da-se lugar ao “consciente”, e o preconceito sub-consciente tem menos peso. Tambem se registam diferencas interessantes a nivel neurologico (activacao de uma regiao do cerebro associada ao sentimento de inseguranca) se as fotografias NAO estiverem a olhar de frente, mas de lado.

(Espero que nao haja por ai um leitor idiota que me venha acusar de racismo - compre a revista e va’ bugiar in advance, obrigado!).

No fundo, eu quero acreditar que tu ate’ das “algum” valor a este tipo de “micro-experiencias” e “micro-conhecimento”, embora tenhas dificuldade em nao sacar de artilharia pesada para “contextualizar” isto, dizer que “cuidado, nao pode ser so’ isso”, etc, e isso eu ate’ percebo. Mas cuidado que isso excesso leva-te ao ceu… e a uma atitude obscura, anti-cientifica, que na pratica resulta num total dismissing of science as a - one of - potential source of knowledge.

(3) “Para Damásio, ver um quadro de Goya, ler, conversar, ou o que quer que seja, são sobretudo coisas que se passam dentro do nosso corpo.”

A questao esta’ neste “sobretudo”. O Damasio nao e’ filosofio e, como neurocientista, interessa-se “sobretudo” por “este” aspecto destas complexas questoes. Nao sei se por ignorancia, desentendimento ou discordancia, ele tem (do pouco que li dele) uma atitude que poderia ser mais humilde relativamente ‘a “dimensao” das suas descobertas, nomeadamente ‘a forma como lhes da’ sentido no contexto mais vasto da vivencia humana (ao inves do tal micro-acontecimento, tipo “como chocolate, hormona X e’ libertada, logo, o chocolate pode substituir o amor”.

(4) “Na dedução transcendental (Crítica da Razão Pura), Kant diz que nós não observamos a consciência; ela é aquilo que nos permite obervar e ter uma experiência unificada do mundo.”

A consciencia nao e’ necessaria para podermos “observar” o que quer que seja - mas talvez para fazermos “sentido” desse observar, nomeadamente para fazer uma “observacao” (aqui implicando um uso da linguagem). Uma leoa “observa” um antilope antes de iniciar uma cacada - podemos dizer isto, ou nao? E sera’ ela consciente? Podemos dizer que nos (humanos) “experimentamos” / “vivenciamos” essa consciencia, ou nao? Nao a “observamos” no sentido de que ela nao e’ “dettachable”, mas “vigiamo-la”, sendo parte dela, fair enough. Isto significa que ela não é “totalmente” objectificável, pois é algo sempre pressuposto na observação de o que quer que seja. Mas nao significa que nao seja “cada vez mais” *estudavel*, “ate’ *objectivavel*.

Face ao que escreveu o Luis Rainha:

“O não-distanciamento pode fazer parte inextrincável da subjectividade própria, mas não da alheia: o subjectivo do outro poderá um dia ser objectivo para o observador externo. Não sei como nem quando, mas desconfio que mais vai ser aprendido sobre a consciência humana em laboratórios do que em bibliotecas onde se remastigam as objecções do venerando Kant.”

Declaro-me neste aspecto 70% Rainha, 30% Galamba.

(5) ““Referir a” destroi a noção de consciência que Damásio pressupõe, porque ela só existe numa relação constitutiva com o mundo. A consciência não é uma interioridade, mas é, na sua identidade constitutiva, essencialmente algo que aponta para fora de si, e isto Damásio nunca entenderá enquanto se mantiver dentro do paradigma objectificante que pressupõe em todas as suas investigações.”

Isto faz-me lembrar a afirmacao popular (alguem a pode confirmar ou desconfirmar? Suspeito que e’ um “boato” continuado…) de que Einstein tera’ dito que os humanos apenas conseguem usar 10% da capacidade cerebral que tem. Ora, se apenas conseguem usar 10%, que sentido faz considerar os 100% como relevantes? Se nao servem para nada…

Voltando ao teu ponto: temos essa “relacao constitutiva com o mundo”, muito bem. Acho que o Damasio devia falar disso em todos os prefacios dos seus livros cientificos (estou a falar a serio). Mas, depois desse (com todo o respeito) “disclaimer”, nao devemos partir ‘a busca de mais conhecimento? E’ que ficar apenas a remoer o Kant nao honra, digo eu, o fim ultimo da Filosofia…

(Nao se deduza daqui que o que o Damasio faz o honra mais.)

(6) Quanto a “humildades” e afins, recordo apenas que muitos pensadores mudaram radicalmente de opiniao ao longo da vida, Witt., Nozick, e por ai fora. O Witt., em particular, que achava que tinha “descoberto a solucao para todos os problemas filosoficos” e desistiu de tudo, para mais tarde voltar com “novas solucoes”, de qualquer modo ainda soberbamente “misticas” - no sentido de construirem um novo mundo, uma nova forma de entender “tudo” o que nos envolve -, e’ um exemplo a reter…

Daqui a 30 anos falamos, Mr. Mystic :-)

(7) Ezequiel, controla-te, homem! E’ uma ordem! :-)

Abracos,

Ler um livro é na realidade uma reacção físico-química. O que ele não percebe é que um livro não é uma simples causa a nossa experiência, mas algo intendido nela, algo constitutivo dessa mesma experiência. A intencionalidade da experiência foi algo introduzido por Kant na sua Crítica da Razão Pura (que Damásio ou não leu ou não entendeu) e desenvolvido por outros como Husserl, e depois radicalizado por Heidegger no seu livro Ser e Tempo.

Comentário de Algarviu
Data: 17 Maio 2008, 21:57

As coisas que a gente (não) aprende aqui, não é TM? Ou, como dizia
o meu professor de Filosofia : Filosofia é a ciência com a qual ou sem a qual nós ficamos tal e qual. Penso eu de que…

Comentário de Martins dos Santos
Data: 18 Maio 2008, 21:57

Sugiro que o João leia um pouco sobre budismo, principalmente a vertente theravada e vai ver que é possível “observar-se a observar”.

Comentário de makeasmile
Data: 19 Maio 2008, 4:21

“…a cara de um negro suscita uma reaccao neurologica associada a medo, etc (estou a resumir para nao me alongar muito). Contudo, se a fotografia aparecer durante um tempo nao demasiado curto, as diferencas esbatem-se: aqui da-se lugar ao “consciente”, e o preconceito sub-consciente tem menos peso. Tambem se registam diferencas interessantes a nivel neurologico (activacao de uma regiao do cerebro associada ao sentimento de inseguranca) se as fotografias NAO estiverem a olhar de frente, mas de lado.”
Um negro também se assustaria com outra cara negra?

Comentário de TM
Data: 19 Maio 2008, 16:13

“Um negro também se assustaria com outra cara negra?”

Esse pequeno artigo começa por citar Jesse JAckson, pastor negro amerciano, que relata exactamente a sua experiência de, ao andar na rua, sentindo passos atrás de si, sentir um certo “alívio” ao constatar tratar-se de um branco e não de um negro. Claro que ele não se considera “racista”. O ponto do artigo é exactamente abordar aquilo que são reacções inconscientes, muito rápidas e irreflectidas, e posições ou opiniões mais conscientes. Poucos são aqueles que admitem ser racistas, etc. Contudo, não é raro ver tais pessoas, em situações onde reagem mais rapidamente do que a sua consciência permite, terem atitudes que poderíamos considerar racistas.

Comentário de ezequiel
Data: 19 Maio 2008, 19:33

TM,

então foi o Kant q introduziu o conceito da intencionalidade?

muito me contas.

são os filósofos do espaço Continente.

Não te esqueças de comprar as fraldas. ..estão em saldo.

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